sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Dialogismo, Polifonia e Intertextualidade



Dialogismo, Polifonia e Intertextualidade

Para Mikhail Bakhtin o dialogismo é a condição do sentido do discurso, da linguagem. Todos os textos são dialógicos porque são resultantes do embate, do confronto de muitas vozes sociais. O dialogismo discursivo desdobra-se em dois aspectos:
- o da interação verbal entre enunciador e enunciatário do texto (nenhuma palavra é nossa, mas traz em si a perspectiva de outra(s) voz(es);
- o da intertextualidade, no interior do discurso.

A polifonia trata-se de uma característica presente em certos tipos de texto, nos quais se deixam entrever muitas vozes, por oposição aos textos monofônicos, que escondem os diálogos que os constituem.Nos romances de Balzac, por exemplo, manifestam-se as vozes da aristocracia, da burguesia e da pequena burguesia. Essas vozes têm traços sociológicos/ideológicos diferentes. Os discursos autoritários são monofônicos porque abafam as vozes em conflito.


 “A intertextualidade é o processo de incorporação de um texto em outro, seja para reproduzir o sentido incorporado, seja para transformá-lo”. De maneira geral, pode-se dizer que há três tipos de intertextualidade: a citação, a alusão e a estilização. A intertextualidade é um dos principais fatores de coerência de um texto na medida em que, para o processamento cognitivo (produção/recepção) de um texto recorre-se ao conhecimento prévio de outros textos.




Dialogismo e Bakhtin

 O conceito de dialogismo nasce com Bakhtin (La Poétique de Dostoïevski, 1970, Barcelona: Barral Editores), que aponta para duas diferentes concepções do princípio dialógico: a do diálogo entre interlocutores e a do diálogo entre discursos. Para Bakhtin o texto se define como:

a)   objeto significante ou de significação, isto é, o texto significa;
b)  produto da criação ideológica ou de uma enunciação, com tudo o que está aí subtendido: contexto histórico, social, cultural, etc.( Em outras palavras, o texto não existe fora da sociedade, só existe nela e para ela e não pode ser reduzido à sua materialidade lingüística (empirismo objetivo) ou dissolvido nos estados psíquicos daqueles que o produzem ou o interpretam (empirismo subjetivo);
c)   dialógico: já como consequência das duas características anteriores o texto é, para o autor, constitutivamente dialógico; define-se pelo diálogo entre os interlocutores e pelo diálogo com outros textos;
d)  único, não reproduzível: os traços mencionados fazem do texto um objeto único, não reiterável ou repetível.

Para Bakhtin, a diferença entre as ciências naturais e as humanas é que as primeiras são monológicas e as segundas dialógicas: nas ciências naturais procura-se conhecer o objeto e nas ciências humanas procura-se conhecer um sujeito, um produtor de textos.
                                  
“As ciências exatas são uma forma monológica do conhecimento: o intelecto contempla uma coisa e pronuncia-se sobre ela. Há um único sujeito: aquele que pratica o ato de cognição (de contemplação) e fala (pronuncia-se). Diante dele, há a coisa muda. Qualquer  objeto  do  conhecimento  ( incluindo  o   homem) pode ser percebido e conhecido a título  de coisa. Mas o sujeito como tal não pode ser percebido e estudado a  título de  coisa  porque, como  sujeito, não pode, permanecendo sujeito, ficar mudo; conseqüentemente, o conhecimento que se  tem  dele  só pode ser dialógico”.

O sujeito da cognição procura interpretar e compreender o outro sujeito em lugar apenas de conhecer um objeto:

“A compreensão é uma forma de diálogo; ela está para a enunciação assim como a réplica está para a outra no diálogo. Compreender é opor à palavra do locutor uma contrapalavra.”

Para Bakhtin a vida é dialógica por natureza: é impossível pensar no homem fora das relações que o ligam ao outro (a alteridade define o ser humano, pois o outro é imprescindível para sua concepção).
           




Podemos separar em Bakhtin duas noções de dialogismo:

a)   Diálogo entre interlocutores: quatro aspectos de sua concepção de dialogismo entre interlocutores devem ser mencionados:
a1) - a interação entre interlocutores é o princípio fundador da linguagem (Bakhtin vai mais longe do que os linguistas  saussurianos, pois considera não apenas que a linguagem é fundamental para a comunicação, mas que a interação dos interlocutores funda a linguagem);
a2) - o sentido do texto e a significação das palavras dependem da relação entre sujeitos, ou seja, constroem-se na produção e na interpretação dos textos;
a3) - a intersubjetividade é anterior à subjetividade, pois a relação entre os interlocutores não apenas funda a linguagem e dá sentido ao texto, como também constrói os próprios sujeitos produtores do texto;
a4) - as observações feitas podem conduzir a conclusões equivocadas sobre a concepção bakhtiniana de sujeito, considerando-a “individualista” ou “subjetiva”.
Na verdade Bakhtin aponta dois tipos de sociabilidade: a relação entre sujeitos (entre interlocutores que interagem) e as dos sujeitos com a sociedade.

b)  Diálogo entre discursos

Como já vimos, para Bakhtin, o dialogismo é o princípio  básico constitutivo da linguagem e a condição do sentido do discurso. Insiste no fato de que o discurso não é individual, nas duas acepções de dialogismo mencionadas: não é individual porque se constrói como um diálogo entre discursos”, ou seja, porque mantém relações com outros discursos. O dialogismo, tal como Bakhtin o concebe, define o texto como “um tecido de muitas vozes”, ou de muitos textos ou discursos, que se entrecruzam, se completam, respondem umas às outras ou polemizam entre si no interior do texto. Neste sentido o discurso tem sempre um caráter ideológico.

b1) - O dialogismo constitutivo da linguagem: - Para Bakhtin a linguagem é, por constituição, dialógica; e a língua não é ideologicamente neutra, e sim complexa, pois, a partir do uso e dos traços dos discursos que nela se imprimem, instalam-se na língua choques e contradições. Em outras palavras, para ele, no signo, confrontam-se índices de valor contraditório. Assim caracterizada, a língua é dialógica e complexa, pois nela se imprimem historicamente, e pelo uso, as relações dialógicas dos discursos. A linguagem, seja ela pensada como língua ou como discurso é, portanto, essencialmente dialógica. Ignorar sua natureza dialógica, é o mesmo, para Bakhtin, que apagar a ligação que existe entre a linguagem e a vida.

b2) - Dialogismo e polifonia: Muitas vezes os termos dialogismo e polifonia foram usados como sinônimos nos escritos de Bakhtin ou por outros autores. Atualmente, alguns teóricos (Barros, 1997 - in Bakhtin, dialogismo e construção do sentido) separam  estes dois conceitos:
           
“Em trabalho anterior sobre o assunto, distingui claramente dialogismo e polifonia, reservando o termo  dialogismo para o princípio dialógico constitutivo  da  linguagem  da  linguagem  e  de  todo discurso e empregando a palavra polifonia para caracterizar um certo tipo de texto, aquele em que  o   dialogismo  se  deixa  ver,  aquele  em  que são percebidas muitas vozes, por oposição aos textos monofônicos que escondem  os  diálogos  que   os constituem. Trocando em miúdos, pode-se dizer que o diálogo é condição da linguagem e do discurso, mas há textos polifônicos e monofônicos, conforme variem as estratégias discursivas empregadas. Nos textos polifônicos, os diálogos entre discursos mostram-se, deixam-se ver ou entrever; nos textos monofônicos eles se ocultam sob a aparência de um discurso único, de um única voz. Monofonia e polifonia são, portanto, efeitos de sentido, decorrentes de procedimentos discursivos, de discursos por definição e constituição dialógicos”.



Intertextualidade

 













A Intertextualidade será definida por Beaugrande e Dressler como um dos principais fatores de coerência de um texto na medida em que, para o processamento cognitivo (produção/recepção) de um texto, recorre-se ao conhecimento prévio de outros textos. A intertextualidade pode ser de forma ou de conteúdo (Koch, 1996):

a) intertextualidade de forma ocorre quando o produtor de um texto repete expressões, enunciados ou trechos de outros textos, ou então o estilo de determinado autor ou de determinados tipos de discurso. Exemplo de intertextualidade de forma pode ser detectada entre a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias e trechos do Hino Nacional Brasileiro e da Canção do Expedicionário:

                        “Do que a terra mais garrida
                        Teus risonhos lindos campos têm mais flores
                        Nossos bosques têm mais vida,
                        Nossa vida em teu seio mais amores”( Hino Nacional)

                        “Por mais terras que eu percorra
                        Não permita Deus que eu morra
                        Sem que volte para lá... (Canção do Expedicionário)

b) intertextualidade de conteúdo, pode-se dizer que é uma constante: os textos de uma mesma época, de uma mesma área de conhecimento, de uma mesma cultura etc, dialogam necessariamente uns com os outros. Essa intertextualidade pode ocorrer de maneira explícita ou implícita. No primeiro caso, o texto contém a indicação da fonte do texto primeiro, como acontece com o discurso relatado; as citações e referências no texto científico; resumo e resenha; traduções; retomadas da fala do parceiro na conversação face-a-face, etc. Já no caso da intertextualidade implícita não se tem indicações da fonte, de modo que o receptor deverá ter os conhecimentos necessários para recuperá-la; do contrário não será captar a significação implícita que o produtor pretende passar. É o caso de alguns tipos de ironia, da paródia, de certa paráfrases, etc.
            Exemplos de intertextualidade explícita:

                        “ Concordamos com Charolles - 1983, quando afirma ser a coerência um
princípio de interpretabilidade do discurso”.

                        “João: Hoje vai chover.
                         Maria: Hoje vai chover? Então vamos deixar o passeio para amanhã.

Não havendo indicação da fonte do texto original, caberá ao receptor, através de seu conhecimento de mundo, não só descobri-la como detectar a intenção do produtor do texto ao retomar o que foi dito por outrem. As matérias jornalísticas de um mesmo dia ou de uma mesma semana - quer do mesmo jornal, quer de jornais diferentes, quer, ainda, de revistas semanais -, noticiários de rádio e TV - normalmente “dialogam” entre si, ao tratarem de um fato em destaque (intertextualidade de conteúdo).

A intertextualidade se estabelece também quando nos “apropriamos” de provérbios e ditos populares em nossas conversas ou em nossos textos escritos, endossando-os ou revertendo a sua forma e/ou o seu sentido. Romano de Sant’Anna distingue intertextualidade das semelhanças da intertextualidade das diferenças. No primeiro caso, o das semelhanças, há uma adesão ao que é dito no texto original, no segundo caso, o das diferenças, representa-se o que foi dito para propor uma leitura diferente e/ou contrária. A repetição pura e simples, bem como a paráfrase pertencem ao primeiro tipo; já a paródia, a ironia, a concessão ou concordância parcial (em que se “acolhe” os argumentos contrários para, em seguida apresentar argumentos decisivos capazes de destruí-los) são exemplos do segundo tipo.

            Exemplos:

Minha terra tem macieiras da Califórnia onde cantam gaturanos de Veneza” (Murilo Mendes - Canção do Exílio)

“É verdade que o presidenciável X tem um discurso interessante, como afirmam muitos analistas políticos. No entanto, se examinarmos mais a fundo seus pronunciamentos, verificaremos que ele não tem um projeto consistente de governo”


O reconhecimento do texto-fonte e dos motivos de sua reapresentação, no caso da intertextualidade implícita, é, como se vê, de grande importância para a construção do sentido de um texto.


Fiorin (1994) entende que há três processos principais de intertextualidade:


a) Citação: utilizada para confirmar ou alterar o sentido do texto citado:

- “Segundo, Fiorin (1990) “ à essa citação de um texto por outro, a esse diálogo entre textos dá-se o nome de intertextualidade”.
- “Não concordo com Marx quando ele diz que “ a religião é o ópio do povo”.


b) Alusão: não são citadas as palavras do outro texto, mas reproduzem-se construções sintáticas em que certas figuras são substituídas por outras.

                        Nosso céu tem mais estrelas,
                        Nossas várzeas têm mais flores,
                        Nossos bosques têm mais vida.  (Gonçalves Dias, Canção do exílio)
                                  
Nossas flores são mais bonitas
Nossas frutas mais gostosas
Mas custam cem mil réis a dúzia. (Murilo Mendes, Canção do exílio)


c) Estilização: é a reprodução do conjunto dos procedimentos do “discurso de outrem”, isto é, do estilo do outrem. Segundo Fiorin (1994) “estilos devem ser entendidos aqui como o conjunto das recorrências formais tanto no plano da expressão quanto no plano do conteúdo que produzem um efeito de sentido de individualização”. Na “carta pras Icamiabas”, do livro Macunaíma, Mário de Andrade faz uma estilização com função polêmica:

Senhoras:
Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva. Cumpre-nos, iniciar estas linhas de saudade e muito amor com desagradável nova. È bem verdade que na boa cidade de São Paulo – a maior do universo no dizer de seus prolixos habitantes – não sois conhecidas por “icamiabas”, voz espúria, senão que pelo apelativo de Amazonas; e de vós se afirma cavalgardes belí  geros ginetes e virdes da Hélade clássica [...}



Professora Doutora Gesiane Monteiro Branco Folkis



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