terça-feira, 14 de março de 2017

O que você vai ser quando crescer?





É... o mundo anda mesmo bem esquisito. A modernidade, mais líquida do que nunca, virou enchente. E o futuro?  Na poesia e fora dela, “o futuro não é mais como era antigamente”. Trouxemos ele para nossa sala de estar... menos romântico do que se havia pintado, o futuro presentificado é multifuncional e mais politicamente correto do que nunca. O cenário é estranho: vemo-nos, por exemplo, preocupados com uma apocalíptica “reforma” da previdência pública, sem notar que o avanço exponencial da tecnologia está sutilmente varrendo do mapa a maioria de nossas profissões tradicionais. Exagero? Difícil de acreditar?

Compare uma montadora de automóveis, um Banco ou o parque gráfico de um jornal, de poucas décadas atrás com os dias atuais. Quantos trabalhadores ocupavam essas oficinas antes e quantos ocupam agora? Poucos robôs computadorizados onde antes havia milhares de pais e mães sustentando suas famílias. Pesquisadores da Singularity University estimam que entre 70 a 80% dos empregos desaparecerão nos próximos 20 anos. Haverá sim novos empregos, mas haverá vagas diante dos atuais níveis de crescimento demográfico? 

Hoje nos Estados Unidos, advogados jovens já não conseguem empregos. Com softwares avançados, qualquer um obtém aconselhamento legal (por enquanto, em assuntos mais ou menos básicos) em segundos, com 90% de exatidão se comparado com os 70% de exatidão, quando feito por humanos. Por isso, calcula-se haverá 90% menos advogados no futuro e apenas os especialistas sobreviverão. Na área da medicina não será muito diferente. Hoje, já há programas que conseguem diagnosticar até o câncer, com quatro vezes mais precisão do que os próprios humanos faziam. Futurólogos nos avisam que a mesma indústria automobilística que hoje descarta humanos e adota robôs, começará a ser “desmontada” em poucos anos porque as pessoas em geral não desejarão mais possuir um automóvel em seu nome. Assim, com a diminuição drástica do número de acidentes, o modelo atual de negócio de seguros de automóveis tenderá a desaparecer. Carros elétricos se tornarão dominantes, a eletricidade a partir da energia solar se tornará barata, enquanto a água potável, hoje barata, será rara e caríssima. 

Fácil perceber que atravessamos coletivamente uma fase de transformação intensa. O padrão segue mudando e o futuro, cada vez menos previsível. Estamos a um passo de uma crise sem precedentes de desemprego, superpopulação e tensão social. Especialistas sentenciam que tanto o tecido social, quanto os ciclos de produção e consumo estão perigosamente se reorganizando. Importantes instituições hierárquicas (Igrejas, Família, Escola, Polícias, mega-empresas e o próprio Estado) têm visto seu poder de concentrar recursos e disciplinar as vidas das pessoas diminuindo em ritmo acelerado. Foucault nos diria que esse poder fragmentou-se e que agora circula nos indivíduos. A rede mundial de computadores e o desenvolvimento de tecnologias disruptivas parecem nos empoderar enquanto cidadãos, já que passamos a nos organizar cada vez mais em redes colaborativas horizontais. 

E anote aí: as soluções mais urgentes certamente surgirão dessas redes. Mas a questão mais profunda talvez seja: estamos realmente nos apropriando de nossas vidas, de nossos corpos e almas? Ou seguimos escravos em celas invisíveis? O poeta acertou ao reclamar que nos coisificamos, que estamos mais para “objeto que se oferece como signo”?  De “ser pensante, sentinte e solidário” para coisa, não foi um bom negócio. Ou percebemos que mudanças precisamos fazer, diariamente, ou estaremos na próxima lista atualizada de animais extintos. Agora que crescemos, o que seremos?


2 comentários:

  1. qual a ideia central ?

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    Respostas
    1. o mundo está mudando muito depressa...
      os paradigmas estão derretendo...
      quanto antes aprendermos a conquistar nossa autonomia enquanto seres humanos, melhor prá nós...

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