Filosofia

O significado da vida é a mais urgente das questões. (Albert Camus)

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Uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida. (Sócrates)


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A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo. (Merleau-Ponty)

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O surgimento da filosofia

O que perguntavam os primeiros filósofos?
Vejamos algumas perguntas interessantes que, tanto crianças como adultos, podem, um dia, se fazer:
Por que os seres nascem e morrem? 
Por que existimos? Por que o mundo existe?
Por que semelhantes dão origem a outros semelhantes (de uma árvore nasce outra árvore, de uma mulher nasce uma criança...)?
Por que as coisas mudam com o passar do tempo? Por que elas tornam-se opostas ao que eram? (O bonito se torna feio, o que era mole endurece e o que era cheiroso torna-se mal-cheiroso)?
Por que a doença invade os corpos e rouba-lhes sua vitalidade?
Ou ainda:
Por que tudo se repete? Depois do dia, a noite; depois da noite, o dia. Depois do inverno, a primavera, depois o verão, depois o outono e depois, novamente o inverno.
Por que sofremos, sentimos dor, frio e fome?

Sem dúvida, a religião e os mitos explicavam todas essas coisas, mas chegou um tempo em que suas explicações já não satisfaziam aos que se interrogavam sobre as causas da mudança, da permanência, da repetição, da desaparição e do ressurgimento de todos os seres. Aquelas respostas iniciais haviam perdido força explicativa. É neste contexto que nasce a filosofia, enquanto busca racional de explicações para as dúvidas humanas.






O que não é filosofia

filosofia não se faz para "provar" alguma teoria.
Essa nunca foi sua autêntica função.
A filosofia não consiste num “sistema de provas”, ou em algum “método para se provar alguma coisa”...

Encare a filosofia como um "controle de qualidade" do seu pensamento.

Será que nossos pensamentos podem resistir aos mais simples desafios e objeções?

Os argumentos precisam ser testados. Há que verificar seus pontos fracos (falácias), testá-los à exaustão para ver até onde resistem...

A filosofia nao é um bálsamo ou remédio anestésico para as dores humanas...
Inúmeras vezes a mesma filosofia que muitos juram defender, é a mesma que trará incômodos problemas onde antes aparentava reinar paz e tranquilidade...
aí é um "deus nos acuda", cada um corre para um lado, buscando esconder-se nas respostas prontas veiculadas na famosa revista quinzenal ou no telejornal estéril e pasteurizado.

Por vezes cremos que estamos certos, que somos dotados de brilhante raciocínio, que nossas crenças são ótimas e nossas análises, irrefutáveis...
aí vem a filosofia e "puxa o tapete"... a nos tirar de nossa "zona de conforto", nos empurrando do alto das nuvens insanas de nossas opiniões até darmos de cara com o chão duro da realidade dos fatos, bem calçada pela nossa suprema e quase infinita ignorância humana...

A filosofia é “fiscalizadora”: do juízo apressado, do julgamento dogmático, do argumento falacioso, da conclusão apressada, da fantasias da razão...

Então, ao contrário do que muitos pensam, a filosofia veio menos para trazer respostas, do que para propor questões...
veio ela mais para colocar em xeque as respostas já prontas, do que para nos confortar diante da tragédia humana e da incógnita do mundo.


Ela desmascara as ideologias? Pode ser, mas nem sempre é assim. 
Ela pode responder algumas dúvidas? Por certo que sim, mas não é a última nem a melhor das respostas...

O fato é que a filosofia não é uma “doutrina”...  a filosofia não é uma crença, que você se dá ao luxo de adotar...

Ela é apenas a estrada por onde você deve trilhar, goste ou não, se quer que seu pensamento seja razoavelmente entendido pelo seu interlocutor...

Sem seguir as normas elementares do raciocínio lógico, nem o meu, nem o seu discurso poderiam ter sido elaborados, nem tampouco compreendidos...

Ou seja, se você não entendeu ainda, pense que mesmo você execrando a filosofia, mesmo desdenhando dela ou criticando sua aparente "inutilidade", isso em nada muda o fato de que você precisou dela para elaborar seu argumento.
Do contrário, seu discurso seria imprestável para qualquer fim.

Essa advertência é necessária porque é comum confundirem filosofia com algum tipo rigoroso de doutrina, com se ela fosse alguma bula de conselhos morais ou espiritualistas... não se confunda, pois, "doutrina filosófica" com a filosofia, ou com a mesma "atitude de filosofar"...


Filosofar não exige conversão nem aceitação de autoridades, exceto aquela advinda da própria razão impessoal...





o conceito não é a realidade
a realidade não é o conceito*
Concepções sobre Filosofia

Ao que se sabe, a palavra "filosofia" aparece pela primeira vez na Grécia do séc. VI a.C., nos escritos do grande pensador e matemático Pitágoras, que não desejando definir-se como "sábio", preferiu autodenominar-se "Filos-sophos" ou seja, amante do saber, aquele que busca a sabedoria.

No séc. V a.C., o filósofo Heráclito define melhor o conceito original do vocábulo “filosofia”, como "a busca da compreensão da realidade total", em todas as suas formas, de maneira sistemática e disciplinada.

O trabalho filosófico é essencialmente teórico. Mas isto não quer dizer que a Filosofia seja pura teoria, à margem dos problemas mundanos.
Menos ainda podemos dizer que seja um corpo de doutrina acabado, com determinado conteúdo fixo. Ela se trata de um processo sempre dinâmico de apreensão da realidade humana. A Filosofia é a procura amorosa da verdade.

Para Sócrates, uma vida que não é examinada não merece ser vivida. Isto nos diz que o filosofar é preocupar-se com os princípios primeiros de nossa existência e da realidade total. O refletir do homem sobre estas questões o torna "filósofo".

Atualmente, a filosofia constitui-se numa área de estudos que envolve a investigação, análise, discussão, formação e reformulação de idéias (ou visões de mundo) num contexto geral e abstrato. Ela originou-se da curiosidade humana que insiste em tentar compreender e questionar os valores e as interpretações comumente aceitas sobre a realidade que nos cerca.

A partir da Filosofia surge a o que chamamos de Ciência.
Partindo desta inquietação, o homem cria instrumentos e procedimentos, equaciona o campo das hipóteses e exercita a razão. Contudo, tanto a Filosofia como a  Ciência, por sua própria natureza, tornam-se suscetíveis às descobertas de novas ferramentas ou instrumentos que aprimoraram o campo da sua observação e manipulação, o que, em última análise, implica tanto na ampliação quanto no questionamento de tais conhecimentos. Neste contexto surge novamente a filosofia para exercer a crítica de todas as ciências positivas.
Didaticamente, podemos dividir a Filosofia em disciplinas específicas como, por exemplo:



Lógica: trata das formas e regras gerais do pensamento verdadeiro, com vista à preservação da verdade e a evitar-se inferências (conclusões) inválidas...

Metafísica ou ontologia: trata do conhecimento dos princípios e fundamentos últimos da realidade, de todos os seres...

Gnosiologia (teoria do conhecimento): análise crítica da natureza e fundamento do conhecimento humano...

Filosofia Moral ou Ética: trata do estudo sistemático das diferentes morais, das idéias de liberdade, responsabilidade, dos critérios do certo e do errado...

Filosofia da Arte ou Estética: trata das formas de arte, o conceito do belo, das relações da arte com a sociedade, com a política, com a ética...

Epistemologia (Filosofia da ciência): aborda os limites e os usos do conhecimento científico...
Filosofia Política: analisa a legitimidade do Estado, as relações de poder e os modos de organização da sociedade humana...

Filosofia da Linguagem: trata das diferentes modalidades de linguagem, do estudo dos signos e das significações, da comunicação do conhecimento...







A atitude de "filosofar"

A atitude de "filosofar" surge no homem a partir de sua inquietação e curiosidade. Tal atitude desperta a vontade de conhecer, de entender e, por vezes, de provocar mudanças. Também aparece por meio da capacidade humana da admiração, de espantar-se e até mesmo de indignar-se. Daí derivam as capacidades de problematizar, compreender e transformar.

A Filosofia, portanto, não se caracteriza como posse da verdade, mas como busca humilde, constante e dinâmica da essência da vida.

Também podemos acrescentar que o filosofar nasce a partir da angústia do homem ao perceber o que constitui sua originalidade: um “ser”, um “nada”, “pura possibilidade”. Essa abertura à transcendência, coloca o ser humano diante de si mesmo como projeto, tarefa a realizar.

Para Kant (filósofo alemão do séc XVIII), "não há filosofia que se possa aprender; só se pode aprender a filosofar". Isto significa que a Filosofia é, sobretudo, uma atitude, um modo permanente de pensar. É um conhecimento que questiona o saber instituído.

O filósofo inicia seu trabalho a partir dos problemas concretos da existência, mas precisa afastar-se deles, consciente e criticamente, para melhor compreendê-los, retornando, depois, a fim de propiciar subsídios para uma compreensão mais ampla que permita mudanças significativas.

Cada um de nós torna-se filósofo quando se coloca a pensar a realidade que o cerca de maneira crítica (criteriosa) e responsável, buscando alternativas para, por exemplo, uma vivência humana mais harmônica e equilibrada. Por isso, o ato de filosofar e a própria Filosofia tem sido, ao longo da história, bastante criticada, justamente porque incomoda a muitos.

A história registra muitas tentativas de destruí-la, desqualificá-la ou negá-la. Tiranos, mistificadores, dominadores, e todos os interessados na alienação e na mediocridade do povo preferem uma “consciência de rebanho”, de fácil manipulação, cativa e obediente, a um questionamento profundo da realidade. Alguns filósofos pagaram com a vida ou perderam sua liberdade devido à ousada postura de filosofar sobre o seu tempo. Cabe a cada ser humano o exercício do "filosofar", isto é, a leitura crítica da nossa cultura, dos nossos costumes e crenças, da realidade social em que vivemos, questionando-a e refletindo sobre como ela é e sobre “como deveria ser”. É assim que começam as mudanças.

A Filosofia, pois, não é somente interpretação do mundo, mas projeto de transformação: do mundo e do humano. O filósofo é aquele que conhece a história do seu pensamento, sua evolução e degeneração, suas crises e avanços.

A filosofia não é um conjunto de conhecimentos prontos ou um sistema fechado em si mesmo. Ela é um modo de pensar, uma atitude, uma postura diante do mundo, buscando descobrir seus significados mais profundos.

Também podemos entender um outro sentido para a palavra "filosofia". Quando alguém diz que tem uma "filosofia de vida", ela pode estar querendo dizer que possui uma prática de vida que, de forma refletida, busca pensar os acontecimentos do cotidiano além de sua pura aparência.
Assim sendo, a filosofia pode e deve considerar todo e qualquer objeto. Pode considerar a ciência, a religião, a arte, uma história em quadrinhos ou uma canção popular. A Filosofia, portanto, parte do que existe, critica, questiona, vislumbra possibilidades e nos faz pensar a possibilidade de outros modos de compreender a vida, já que as estruturas essenciais da realidade não se manifestam diretamente. O conceito que temos da "realidade" é sempre uma interpretação dela, nunca seu sinônimo (*ver imagem acima). O discurso não é sinônimo do fato retratado nele.

Nesse sentido, a Filosofia é uma reflexão sistemática e crítica que objetiva captar indiretamente, por meio do discurso racional, a "coisa em si", a estrutura oculta de todo ser existente.

A reflexão filosófica implica necessariamente em adotar “atitude crítica”. Crítica é a arte de julgar e discernir o valor de algo, tendo a cautela de estabelecer critérios para tal juízo. Além da crítica, é preciso buscar os fundamentos: ser capaz de emancipar-se da "consciência ingênua" e superficial, que não se ocupa das raízes do problema estudado. 

Outra característica do pensamento filosófico é a sua busca pela integração do que se sabe sobre o mundo, ou seja, ele considera os problemas sempre relacionados entre si. A reflexão filosófica contextualiza os problemas.
A Filosofia é, portanto, essa busca incessante pela verdade, embora o filósofo esteja ciente de que essa verdade racional é sempre contextual e, portanto, de algum modo relativa.
Esta é uma das vocações do filósofo: desnudar o que está oculto pelos costumes, pelo convencional, pelo poder.



Ceticismo e Dogmatismo em Filosofia

Para poder filosofar, o homem não pode cair na tentação de acomodar-se no ceticismo, nem tampouco, no dogmatismo. Uma pessoa de atitude cética é aquela que desconfia gratuitamente de tudo, a ponto de negar a própria possibilidade ou validade de qualquer teoria. Filosoficamente, contudo, dá-se o nome de ceticismo à corrente de pensamento que preconiza a dúvida como princípio e a impossibilidade de que se conheça algo como fim de toda construção racional, seja por qual método for. Se qualquer possibilidade de conhecimento é negada, então por que filosofar?

Segundo esta doutrina, o homem é incapaz de aprender/conhecer racionalmente algo sobre qualquer coisa. A atitude cética é típica das épocas de crise, quando verdades estabelecidas são seriamente questionadas ou destruídas, sem que se tenha, ainda, estabelecido novos princípios sobre os quais fundamentar o conhecimento e as ações. Duvida-se de tudo indiscriminadamente, a ponto de partir do pressusposto de que tudo é duvidoso e incerto, bem como que é impossível escapar desse círculo vicioso.

Por outro lado, precisamos também nos cuidar do dogmatismo. Ele precisa se conscientizar de que todo conhecimento é sempre histórico, situado dentro de uma cultura, inserido num contexto. O sujeito dogmático, grosso modo, acredita ter a posse da verdade e se recusa ao diálogo, não admite o questionamento de suas certezas ou convicções.

Filosoficamente, dá-se o nome de dogmatismo à tese que defende, de forma absoluta, a capacidade humana de chegar a verdades seguras, através do uso exclusivo da razão. É essa crença cega no poder da razão que faz com que o dogmático deposite uma confiança extremada na capacidade humana para chegar à verdade.










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