Antropologia Filosófica

Introdução à Antropologia Filosófica

Para compreender o humano, torna-se necessário (mas não suficiente) compreender sua relação com o mundo, com suas próprias produções, bem como com os demais seres humanos. Para entendermos o viés da resposta que vamos encontrar, é importante que entendamos antes o que é antropologia.

É evidente que a resposta não se limita ao que podemos entender da etimologia da palavra. Tal significado não resolve nosso problema. Se buscarmos uma solução em termos conceituais entre os antropólogos, constataremos rapidamente que não há consenso, nem sobre o que se pode entender por antropologia, nem sobre "o que" seria seu objeto específico: o Homem (Homo sapiens sapiens).

Assim, nota-se que o problema da antropologia não se limita ao seu campo de ação, mas também à sua própria identidade. Segundo Marconi & Presotto (2007), a Antropologia seria "uma ciência do biológico e do cultural, tendo como objeto de estudo, o homem e suas obras". Seu papel (desta ciência) é o de procurar compreender profunda e objetivamente as manifestações humanas nos mais diferentes espaços geográficos, percebendo as múltiplas dimensões de uma cultura: sua profundidade, abrangência e alcance. Bastante pretensão, evidentemente. Para delimitar o que seria esse Homem, objeto da antropologia, devemos começar por uma pergunta eminentemente filosófica: O que é o homem? 

Eis o problema crucial da antropologia filosófica: como definir esse ser? E, além disso, o que diferencia o humano dos outros seres? Esta problemática surge basicamente a partir do fato de que o humano parece ser o único animal capaz de observar conscientemente os fenômenos ao seu redor e pensá-los abstratamente. Ele seria o único animal que se questiona sobre o aparente absurdo da própria existência.

Então, filosoficamente falando, uma primeira resposta possível estaria implícita no próprio ato de perguntar: "O homem é aquele que pergunta". Pelo menos, parece ser o único ser capaz de fazer perguntas. Os demais seres teriam essa capacidade de se perguntarem por sua própria essência ou pelas razões de sua existência? ...de se perguntarem sobre o passado e sobre o futuro, sobre a vida e sobre a morte, e sobre tudo que poderia vir depois dela?

O homem pergunta pelo seu próprio ser, quer compreender e ter consciência de si. Mais que isso, o humano quer sempre captar o sentido... de sua vida, do mundo, dos acontecimentos, psíquicos ou concretos, imanentes ou transcendentes. Em apertada síntese, o homem é um animal buscador, criador e 'interpretador' de sentidos. Por outro lado, logo se identifica também sua incapacidade de se compreender de modo integral. Seu conhecimento sobre si é limitado, condicionado pela sua própria subjetividade e por seu próprio aparato cognitivo. Então, aquilo que sabe de si, ainda que pretensamente "científico", nunca satisfaz o apetite de sua própria "busca por saber". 

O resumo de tudo? Ele (o humano) não entende o mundo e não entende a si mesmo. Se ele pensa em um Ser metafísico, capaz de dar conta do mundo, de explicá-lo, o problema só se complica, pois surge em sua mente faminta, um sem-número de questões igualmente complexas, a cerca desse mesmo "Ser autossubsistente e autossuficiente". Abandonando este projeto metafísico clássico, muitos antropólogos-filósofos irão ater-se ao que chamam "fenômeno humano".

Para encontrar a resposta que procuramos, resulta necessário que iniciemos nos colocando um problema que, antes de ser do âmbito da antropologia cultural, pertence ao domínio da antropologia filosófica. Antes de teorizarmos sobre o conceito de cultura ou sobre as diferentes manifestações culturais, precisamos compreender esse ser que faz cultura, que a manifesta, e que é igualmente influenciado por ela.

Daí por que indagamos, filosoficamente: quem somos nós? Podemos dizer que essa é uma das principais indagações articuladas pelo Homem. Talvez a mais importante de todas... afinal, parodiando Sócrates, de que vale viver se não se compreende quem é ou o sentido de sua própria existência?

Nossa indagação filosófica inicial não se refere meramente ao ser humano em suas relações e produções (como quer a antropologia marxista), mas em sua essência, considerada não apenas em seu aspecto imanente, mas também transcendente: além do evidente fato de que constatamos nossa existência (que somos dotados, pois, de existencialidade), deduzimos que não somos 'nada', mas 'algo', embora pouca coisa mais saibamos além disso.

Por isso, queremos saber o que/quem é essa realidade a que chamamos 'humana'. Não se nega que é sempre “o homem concreto, condicionado, que pergunta pela essência do homem". Evidentemente que todos já trazemos conosco uma experiência e um horizonte definido (mas não definitivo) de compreensão. Não se deve negar, igualmente, nossas relações e produções – a cultura – quando se trata de indagar sobre essa essência humana. Essa indagação sobre o que é o 'ser humano', não exclui a percepção das relações estabelecidas por esses mesmos humanos. Contudo, o humano não se deve confundir com sua produção, ou seja, não há que se confundir o "ser que faz" com o "produto de sua ação", atitude que seria por demais reducionista.

Um modo de tentar encontrar uma pista para nossa tarefa é comparando-o com os outros existentes: então, perguntamo-nos, por exemplo, o que diferencia o Homem do mundo em que vive? O que diferencia o Homem dos outros animais? O que diferencia o Homem de sua cultura ou manifestações culturais?

Temos claro que o conceito de cultura é complexo, multifacetado, polêmico e aberto. Sabemos que tal conceito permanece sendo um dos pontos mais polêmicos em várias frentes de investigação das várias ciências sociais.

O Homem é um existente que tem consciência de si e do mundo que o circunda. Mas isso é suficiente para explicá-lo? O Homem, nos parece, é algo mais que isso: ele é,  por excelência, eleitor e doador de sentido a suas escolhas, bem como a tudo que o cerca. Ele vive a  fazer escolhas. O padre e antropólogo Batista Mondin, declarou:

“Eis uma constatação indiscutível: o homem é uma realidade extremamente complexa. Isso é verdade, antes de tudo, na ordem das ações. Ele exerce atividades, de todo gênero: conhece, estuda, escreve, fala, trabalha, joga, reza, canta, ama, sofre, diverte-se, come, etc. E cada uma destas atividades suscita questões e problemas de difícil solução. Mas a complexidade acentua-se ainda mais quando se passa do plano da ação ao do ser. Então nos perguntamos: quem é este indivíduo singular que chamamos Eu e que qualificamos como pessoa? O que é que permite a seu corpo explicar as mencionadas atividades, muitas das quais transcendem tão abertamente os confins da materialidade?”

A resposta do autor é a afirmação do problema: Ele é um “enorme emaranhado de problemas”. Esse emaranhado de problemas ocorre, entre outros, pelo fato de que o Homem não se satisfaz... Sendo insatisfeito lança-se, constantemente, em novas experiências a fim de modificar o que o circunda. E modificando seu ambiente, modifica-se a si mesmo. A partir disso Mello afirma que, para entendermos o Homem, é necessária a

“compreensão de todas as formas vitais e da natureza da própria vida. Em outras palavras, faz-se necessário um conhecimento acerca do dinamismo vital que é comum aos homens e aos animais dos mais simples aos mais complexos. Interessa ao estudioso da antropologia física conhecer os mecanismos vitais todos, desde os processos de reprodução e de genética ao da conservação. Não menos importante para um estudo desse tipo é o conhecimento da geografia: O homem é um animal terrestre e o mundo físico é uma condição síne qua non para sua sobrevivência”.

Assim, podemos concluir que o Homem é diferente de todas as demais realidades. Aliás, o Homem parece ser o único que consegue perceber e dialogar sobre essa diferença. Ele percebe-se no mundo dando-lhe significado ou então criando significado para a existência dos existentes. E como conseqüência dessa significação, ele cria funções para as realidades com as quais se relaciona. Isso implica dizer que o ser humano manipula o mundo, organizando-o e recriando-o de acordo com as circunstâncias ou necessidades. Chardin, a esse respeito, afirmou que

“não é preciso ser um homem para perceber os objetos e as forças ‘em círculo’ ao redor de si. Todos os animais, como nós mesmos, estão em situação idêntica. Mas é próprio do Homem ocupar na Natureza uma posição tal, que essa convergência de linhas não seja apenas visual, mas também estrutural.[...]. Em virtude da qualidade e das propriedades biológicas do Pensamento, encontramo-nos colocados num ponto singular, sobre um nó, que domina toda a fração do Cosmo atualmente aberta à nossa experiência. Centro de perspectiva, o Homem é simultaneamente centro e construção do Universo”.

Ocupando o seu espaço, o humano 'recria' o mundo. Laplantine afirma que o que caracteriza a unidade do homem é sua "aptidão praticamente infinita para inventar modos de vida e formas de organização social extremamente diversos".

Nossa capacidade de interferência no mundo por si só já é espantosa, muitas vezes medonha, outras vezes formidável. Brandão é quem conclui que “ao contrário dos animais que se transformam corporalmente para se adaptarem às mudanças do meio ambiente em que vivem, nós transformamos os ambientes em que vivemos para adaptá-los a nós”.

O Homem está no mundo e é capaz de reconhecê-lo. Embora com realidade objetiva independente, o mundo só é o que é, deixando de ser apenas natureza, porque o humano se dá ao trabalho de lhe conferir essa significação.

Primordialmente, o humano toma consciência de si e do fato de estar no mundo. Consequentemente, se percebe distinto dos demais existentes; como já mencionamos anteriormente, ele passa, então a dar sentido à existência dos existentes. Dá sentido, pensa, se socializa e manipula os elementos mundanos.

Podemos dizer que praticamente todas as correntes de filosofia procuram dar uma explicação para esta realidade chamada "ser humano". Dessas explicações, um ponto parece ser comum: o humano é pensante e capaz de manipular o mundo no qual está inserto. Podemos dizer que essas são características eminentemente humanas.

Ressaltemos que o ato de pensar não é só o que se entende etimologicamente (capacidade de pesar, avaliar...). Pensar refere-se também à capacidade de fazer escolhas o que implica em ser capaz de agir consciente e responsavelmente – ponto de partida para a criação da moral. Aliás, o Homem avalia, justamente, para fazer escolhas e poder agir. Portanto o Homem é aquele que avalia e escolhe, e faz isso a partir de um processo reflexivo que exige uma postura introspectiva e ativa.

A introspecção deriva da capacidade de abstração, capacidade de representar todas as realidades; e a ação resulta da consciência, sabendo o que e porque realiza o que faz. Na verdade quando dizemos que o Homem é capaz de pensar pretendemos afirmar que ele é capaz de se comunicar a respeito das realidades com as quais não está em contato imediato. Ele pode representá-las, mentalmente no processo de reflexão/abstração. Essa representação pode ganhar as mais diferentes formas, desde a artística, como a música, até as ciências e a religião; tudo o que recebe a classificação de cultura.

Outra característica do Homem é a da sociabilidade. A sociabilidade, ou a capacidade de viver, sobreviver e existir em coletividade parece ser uma das melhores caracterizações do Homem. Diferentemente do que ocorre com outras espécies, o Homem não se associa por instinto, mas por vontade. O Homem não é dependente, mas senhor da sociedade; não está nela devido aos instintos, mas por que assim o quer.

Entretanto, alguns estudiosos defendem que o Homem não é, essencialmente, um ser social, mas se faz social a partir de suas necessidades e para superar seus medos. Sendo assim a sociedade humana estaria assentada sobre os pilares do medo e das necessidades. O ser humano teme o que não conhece e o que já conhece. O medo em relação ao mundo provoca no Homem a consciência de sua limitação? Ou seria o oposto? O fato é que decide-se por viver em grupo. O grupo é um fator de segurança, dirão alguns. Concluem estes pensadores que o Homem se socializa, não por ser sociável, mas porque se percebe impotente diante da natureza. Então, por medo da morte iminente, procura a ajuda dos semelhantes, numa atitude tipicamente egocêntrica, medrosa e aproveitadora.

Então é isso? Para fugir de seus medos e disfarçar sua fraqueza aproveita-se da fraqueza dos seus semelhantes? A vida social seria um meio do Homem se aproveitar da fraqueza de outros para se fazer forte?

Com isso também podemos dizer que outra característica do humano é a maldade. Um animal não é maldoso, nem bondoso, não é justo, nem injusto, não é solidário, nem egoísta... um animal é natureza, é instinto em estado puro... o humano é escolha, é opção, é sentimento e vontade, é ímpeto, é ânsia, é depressão e ansiedade, lutando por prevalecer diante do corpo, da natureza. O humano, ao contrário dos demais animais, é juiz, é vítima e algoz. Julga o outro e julga a si próprio, elegendo antes valores que chamamos éticos.

Nietzsche certa vez concluiu: “ver sofrer; faz bem; fazer sofrer melhor ainda: ai está um duro princípio, mas um princípio fundamental antigo, poderoso, humano, demasiadamente humano” Deveríamos concordar com ele? 

Ele ainda acrescenta:

“É verdade que repugna à delicadeza, mais ainda, a hipocrisia de animais domesticados (quero dizer os homens modernos, quero dizer nós) representar-se com todo o rigor até que ponto a crueldade era alegria festiva na humanidade primitiva e entrava como ingrediente em quase todos os seus prazeres; por outro lado [...]. Indiquei já de maneira circunspecta a espiritualização e a ‘deificação’ da crueldade que não cessa de crescer e atravessa toda a história da cultura superior”.


A partir da referência à “alegria festiva” podemos acrescentar mais uma característica ao Homem: ser de alegria, ser festivo. E com isso voltamos à questão básica da sociabilidade. A música, as artes e a religião têm muito a ver com esse aspecto. Os momentos de festa ou de celebração possuem várias conotações: comemora-se desde a colheita bem sucedida até a condição do inimigo derrotado. A festa, contudo, mostra-se como eficiente recurso para significar algo.


Considerações finais

O Homem, portanto, caracteriza-se como esse emaranhado de aspectos e dimensões. Não se esgota ou limita-se a esta ou àquela dimensão, mas é um emaranhado rizomático de capacidades e possibilidades. Em razão disso podemos dizer que, em certa medida, o Homem não é, mas constrói-se cotidianamente a partir de um elemento que lhe é essencial: a cultura ou as “manifestações culturais”.

Podemos finalmente concluir que, do ponto de vista antropológico-filosófico, a indagação sobre o humano(1) e suas possibilidades(2) devem ser tomadas como ponto de partida para sua conceituação e compreensão. Por outro lado, temos que admitir que este humano também é capaz de produzir seu mundo.  Este humano é: corpo, mente (alma), ambiente (sociedade, geografia, clima...) e espírito (racionalidade transcendente).  A primeira indagação norteia a antropologia filosófica e a segunda pode ser colocada como base para a compreensão da cultura.


síntese elaborada por Sílvio Motta Maximino

fontes bibliográficas consultadas: 
MONDIN. Batista. O Homem, quem é ele? Elementos de antropologia filosófica. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 1982