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quarta-feira, 5 de abril de 2017

A aprendizagem é antropofágica (J. Pacheco)

'A aprendizagem é antropofágica. Não se aprende o que o outro diz, apreendemos o outro. Um professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é. Poderá acontecer aprendizagem em sala de aula, se forem criados vínculos e esses vínculos não são apenas afetivos, também são do domínio da emoção, da ética, da estética…'
(José Pacheco)
Abaixo segue uma interessantíssima entrevista com o famoso professor e pedagogo José Pacheco! 
Quem não conhece, não sabe o que está perdendo!!!!
 


 


José Pacheco: 'Procurem nas escolas professores que ainda não tenham morrido'

José Pacheco, professor, pedagogo, defende uma escola sem turmas, sem ciclos, sem testes, sem chumbos, sem campainhas. Aos críticos, pede alternativas e conta histórias de sucesso. Fundou um projeto inovador na Escola da Ponte, em Santo Tirso, em 1976, quando percebeu que não podia continuar a dar aulas. Derrubou paredes, juntou alunos, ergueu um método em que quem aprende define o seu ritmo de aprendizagem. Foi ameaçado, ouviu coisas feias, disseram-lhe que quando fosse mais velho iria ganhar juízo. Tem agora 65 anos e não mudou de ideias. Continua a acreditar que a escola são pessoas e não um edifício de betão. Não percebe a insistência nos exames, diz que se confunde avaliação com classificação, refere que os chumbos comprovam que o sistema não funciona.



Entrevista de Sara Dias Oliveira
Fotografia de Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

Há 12 anos, partiu para o Brasil com o seu projeto na mala. Partiu por duas razões. «Permitir que uma nova equipa da Escola da Ponte continuasse o projeto sem a intromissão de um velho professor e encontrar no Sul a obra de Agostinho da Silva e educadores disponíveis para se melhorar, melhorando a educação das crianças e jovens», explica. Neste momento, do outro lado do Atlântico, acompanha mais de 100 projetos educativos. O Projeto Âncora é o mais conhecido e já ganhou fama internacional, após visitas de investigadores estrangeiros. Há uma semana, José Pacheco esteve em Portugal, em várias cidades – Almada, Loulé, Fundão, Viseu, Gouveia – a partilhar ideias, a falar do que sabe, a ouvir alunos, professores, educadores, responsáveis políticos. Partiu depois para o Chile, para fazer formação a convite de universidades e do governo chileno. Em meados de abril, regressa ao Brasil para retomar a orientação de projetos educativos.


Em 1976, no rescaldo da liberdade, criou com duas colegas o projeto pioneiro «Fazer a Ponte na Escola da Ponte». Sem turmas, sem testes, sem ciclos, sem campainhas. Chamaram-lhe louco quando dizia que era possível derrubar paredes e juntar alunos?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O que está errado na Educação brasileira?


José Pacheco fala sobre Educação com E maiúsculo


Abaixo segue uma importante entrevista com o educador José Pacheco que todo(a) educador(a) ou pedagogo(a) deveria ler e estudar com bastante profundidade. Trata-se de uma proposta pedagógica baseada em um paradigma radicalmente distinto do que prepondera no Ensino Público e Privado do Brasil e do mundo. 
Contudo, após a leitura, faço as seguintes observações:

1) Individualismo e conteudismo. 
Não penso que o diferencial entre o modelo da Escola da Ponte e o tradicional seja o problema do individualismo ou do conteudismo. Não se trata de reduzir ambos os modelos a uma contraposição dicotômica desse tipo. Do mesmo modo, não se trata de contrapor 'individualismo' versus algum tipo de 'coletivismo'. 
Esse novo modelo valoriza a individualidade e as peculiaridades de cada sujeito-aprendiz.
Por outro lado, os conteúdos são absolutamente necessários em qualquer modelo pedagógico: é um equívoco acreditar ser possível construir um currículo libertário, progressista ou tecnicista liberal, desprezando conteúdos. Isso seria engodo, pseudo-aprendizagem. 

2) O modelo é praticável e já funciona em vários lugares, inclusive no Brasil.
Uma das grandes preocupações do educador, do pedagogo é: o modelo funciona? com que tipo de aluno funciona? Se o modelo funciona com alunos modelos e ideais, o que garante que funcionará com alunos com sérias dificuldades de aprendizagem ou de disciplina? Pois bem: pelo exposto no artigo, é possível pô-lo em prática, mesmo que seja num mundo onde predomina "individualismo e competitividade", já que os alunos egressos desse modelo possuem bom desempenho nos vestibulares e demais exames seletivos. Esse é um dado crucial.

3) Todo aluno é igual? 
Também deve-se esclarecer que nem todo aluno se adapta a essa inovadora proposta pedagógica. Há alunos que se dão melhor noutros paradigmas. Há que se respeitar a diversidade nesse sentido. Mais uma vez, não se trata de tentar encontrar o utópico modelo educacional ideal. Tal não existe, pois não há dois sujeitos iguais no mundo.

4) Esse modelo pode/deve ser generalizado?
Lendo o artigo, notei que não é intenção que o modelo seja imposto 'goela abaixo', de forma massiva ou generalizada, ou apressada. O entrevistado deixa bem claro que a adesão (da escola, dos professores e demais agentes) deve ser voluntária. Por quê? Porque o educador, assim como a comunidade afetada, devem estar comprometidos e 'apaixonados' pela proposta. Se não acreditam nela, se não estão amadurecidos para ela, nem adianta começar.

5) Como fica a gestão escolar?
Envolver o entorno da escola na gestão escolar é fundamental nesse modelo. Professor, pais/responsáveis, merendeiras, funcionários, alunos, todos merecem ser ouvidos e participarem das decisões: desde o horário de início e término das aulas até a cor da tinta que será usada na pintura do prédio. 
Mas qual governante gestor está disposto a compartilhar poder? 
Mas qual povo está disposto a se responsabilizar pelo modelo pedagógico, pela gestão da instituição Escola, a dispensar seu tempo nessa tarefa?

Então, eis o componente político fundamental que em geral, passa despercebido: na Escola Pública deve acontecer a verdadeira gestão democrática (aliás, já prevista teoricamente em nossa LDB).

6) E a questão fundamental da política de salários?
Eis outro ponto que chama a atenção: o artigo traz uma proposta interessantíssima de revalorização salarial, para TODOS os agentes escolares. Vale a pena conhecer mais de perto tal política, ver se as contas fecham. O entrevistado garante que sim!

7) a questão do assistencialismo. 
Hoje a escola está praticamente descaracterizada. Ali se faz de tudo... se sobrar tempo e condições, promove-se aprendizagem. 
Ali o cidadão esfomeado mata a fome, ganha até material didático 'de graça', do lápis ao livro e ao uniforme... (ainda que seja para, no final do ano, serem rasgados e queimados pelos próprios alunos, em atitude grotesca e 'libertadora' que simboliza bem como eles valorizam a Escola que têm recebido. 
Pois bem... ali o cidadão pai e a cidadã mãe "deposita" suas crias enquanto precisa cuidar do seu próprio sustento de sol a sol. 
Ali o professor, ao invés de professor, é o psicólogo, é o assistente social, é o médico, é o pai-mãe (quando aqueles que o são de direito, são omissos), é policial etc etc... 
Nota-se que a proposta da Escola da Ponte diverge radicalmente do modelo assistencialista atual. Transformar a Escola em mero espaço para promoção do assistencialismo social não faz parte do novo modelo.

Silvio MMax.
Enfim, o artigo na íntegra:

 

O que está errado no projeto de educação no Brasil?

Não temos séries, nem ciclos, nem classes, nem nada…

Projeto Âncora segue metodologia da Escola da Ponte, com orientação do português José Pacheco, educando cerca de 350 crianças de baixa renda gratuitamente
Por Adriana Delorenzo e Renato Rovai

Ao entrar no projeto Âncora nem parece que se está numa escola. A iniciativa, localizada no município de Cotia (SP), está longe de ser uma proposta tradicional. Inspirada pela Escola da Ponte, de Portugal, lá não há séries, provas e as salas de aula comuns, com um professor falando para alunos organizados em fileiras. Tenda de circo, pista de skate, muita área verde e salas sem divisões compõem o espaço.
A história começou em 1995, quando o empresário Walter Steurer passeava pela região onde morava e viu um terreno à venda. “Ele foi um empresário de muito sucesso e, quando se aposentou, vendeu a empresa, e tinha a ideia de continuar fazendo coisas. Quando comprou o terreno pretendia fazer um condomínio de casas”, conta a esposa Regina Steurer. Mas o destino da área acabou sendo outro. “Ele decidiu empregar o dinheiro que já tinha ganhado em algo que fizesse sentido. Walter tinha claro que o Brasil tinha dado para a família dele tudo que eles tinham, era uma família austríaca, que chegou aqui fugida da Primeira Guerra. Ele pensou: ‘Tenho que devolver ao Brasil o que o país me deu’”, lembra Regina, que fundou o projeto Âncora ao lado do marido.