A interessante crônica
jornalística que você lerá abaixo (após esta introdução) pode ajudá-lo a entender um pouco mais qual é a dinâmica da produção do conhecimento científico no transcorrer da História. Essa dinâmica explicaria como se dá o desenvolvimento dos sucessivos paradigmas e teorias científicas.
Um conhecido filósofo da ciência contemporâneo
que abordou essa questão epistemológica como muita propriedade foi Imre
Lakatos, o qual desenvolveu sua tese em torno da ideia da "coexistência de múltiplos
programas de pesquisa". Sua teoria ficou assim conhecida como “Metodologia dos
Programas de Pesquisa”.
Imre Lakatos examinou as
filosofias da ciência mais influentes e propôs de modo original, uma reconstrução racional da história da ciência. Deste modo, seus
ensaios acabaram reunidos em sua obra “História da ciência e suas Reconstruções
Racionais”.
A ideia central de Lakatos
consiste em substituir o problema da apreciação de teorias pelo problema da apreciação
de séries de teorias (aqui chamadas de ‘programas de investigação’). O
falsificacionismo de Popper, segundo ele, na verdade não explica corretamente o
comportamento dos cientistas. Quando estes rejeitam uma teoria, não o fazem “apenas
porque os fatos a contradizem”. Perante dados empíricos adversos, os cientistas não hesitarão
em invocar hipóteses auxiliares para salvar suas teorias. Veem esses dados não
como ‘refutações’ de suas conjecturas, mas como simples ‘anomalias’ que não
requerem uma solução imediata.
Assim, as anomalias (quaisquer contradições
não explicadas pelo paradigma em questão) podem ser ignoradas
provisoriamente, desde que o programa de investigação consiga manter uma heurística positiva
resultante dos desenvolvimentos teóricos, sendo apenas substituído quando surge
um outro programa de investigação melhor.
Além disso, Lakatos também acerta
quando trata da questão da coexistência (simultaneidade) de programas progressivos e degenerativos.
Partindo do princípio básico de que um ‘programa de investigação’
consiste numa série de teorias em desenvolvimento, Lakatos defenderá que tais
teorias sempre giram em torno de um “núcleo duro”, que é constituído pelas proposições
fundamentais do programa. Interessante observar que tais proposições serão provisoriamente
consideradas irrefutáveis.
Por outro lado, além do "núcleo", sempre haverá:
1) a “heurística do programa”: se
encarrega de propor questões/problemas, bem como proporcionar meios para resolver esses problemas;
2) o “cinturão
protetor” de hipóteses auxiliares: ele protege aquele "núcleo firme" contra eventuais ‘refutações’
(T. Kuhn) e/ou ‘falsificações’ (K. Popper).
Então, quando as modificações teóricas
conduzem a algumas previsões de fatos novos que se mostram bem sucedidas a curto ou médio prazo, o programa passa a ser considerado
'progressivo', mas se essas modificações forem apenas manobras ‘ad hoc’, ou se a maior parte das previsões não se verificarem empiricamente, o
programa gradualmente vai se tornando regressivo (ou degenerativo, em outro vocabulário).
Lakatos nota, portanto, que dois
ou mais programas de pesquisa (uns mais progressivos, outros mais regressivos) sempre
coexistem dentro de uma dada ciência particular. Um programa jamais sepulta/aniquila
completamente o outro, mesmo que aparentemente o segundo tenha sido substituído
ou superado pelo primeiro.
No exemplo ilustrado
pelo artigo, a questão da epigenia (p. ex.) serve de combustível para que o
programa de pesquisa (hoje regressivo) do evolucionismo lamarckista, ganhe novo
alento, frente ao programa do evolucionismo de tipo darvinista. Algumas especulações filosóficas que podem ser suscitadas:
a epigenética reabilita antigas teses de Lamarck, consideradas até ontem ultrapassadas?
A teoria da evolução, como a conhecemos, está com seus dias contados?
Os novos avanços contam pontos a favor do Criacionismo ao minar as bases pouco sólidas do Darvinismo?
Silvio Mmax.
- - - - - - - - - - - - - - - - FOLHA DE SÃO PAULO - - - - - - - - - - - - -
Vem aí a nova biologia. Ou não.
POR RAFAEL GARCIA
outubro de 2014
NOTÍCIAS SOBRE BIOLOGIA voltadas ao público geral
com frequência fazem referência à briga de acadêmicos contra o criacionismo –o
movimento defensor de que seres vivos foram criados por Deus, não pelos
processos descritos na teoria da evolução. Ofuscado por essa discussão
infrutífera de cientistas lançando argumentos racionais contra mentes
religiosas impenetráveis, porém, existe um debate sério sobre se a biologia
evolutiva está ou não carente de atualização.
Esse movimento defende que a chamada “nova síntese”
–a teoria da evolução de Darwin reformulada à luz da genética e, depois, da
biologia molecular– precisa ser recauchutada. Liderados por biólogos como
Gerd Muller, da Universidade de Viena, e Eva Jablonka, da Universidade de Tel
Aviv, esses pesquisadores defendem aquilo que batizaram de EES
(Síntese Evolucionária Estendida). É um corpo de conhecimento baseado em
fenômenos que correm paralelamente aos descritos pela seleção natural de
Darwin. Mas seria esta nova biologia algo com força suficiente para tornar a
nova síntese uma teoria ultrapassada?



