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sábado, 13 de maio de 2017

Vítimas da 'Síndrome de Gabriela'


Gabriela, por quê?

“Eu nasci assim, eu cresci assim, sou mesmo assim, vou ser sempre assim”. Eis o refrão da célebre canção “Gabriela, Cravo e Canela”, lembrada também pelo escritor M. S. Cortella em sua análise do que ficou conhecido como "Síndrome de Gabriela". A metáfora serve para explicitar uma tendência para justificarmos nossas próprias atitudes, manias, costumes e jeitinhos. Mais algumas pitadas de falácia ideológica e facilmente chegamos à tese de que haveria uma natureza genética determinando nosso jeito de ser. Outro lado da mesma moeda vem com a tese da herança cultural, determinante daquilo que somos. Há ainda quem prefira sentenciar que a pré-existência de um Criador nos definiria por si só. Mas, se algo/alguém nos define, coisificados ficamos. Evapora-se a tênue dignidade de pessoa, de sujeito dotado de livre-arbítrio, enfim. 

Qual é o seu vício, hein!?

Afinal, o que fazemos, desejamos ou sentimos é produto do ambiente ou quiçá de uma sopa de hormônios e neurônios? Ou a causa habitaria algum nebuloso e abstrato plano metafísico? Ao que parece, nenhuma das hipóteses explica, isoladamente, o fenômeno antropológico. Sejamos honestos: Vamos ao espaço sideral e ao fundo dos mares, mas qualquer gripe ou dor de barriga ainda nos aborrece, qualquer objeção nos tira o verniz da compostura. Em quê exatamente estamos melhores que nossos ancestrais? Como é que se lida com um corpo ou com uma alma? E diga lá: como é que se lida com o outro? A síndrome de Gabriela mostra que quase nunca é fácil mudar. Seja uma mania, um vício ou um paradigma. Pode não ser vício em nicotina ou cocaína, mas de repente é na cafeína e na sacarina; pode ser vício em sexo, jogos, em fofoca, em trabalho, em reclamação, em álcool e a lista parece que não termina... somos viciadíssimos até em pensar! Pensamos muito, agimos pouco. Quer ver só? Tente parar de divagar ou de preocupar-se por dez minutos e depois diga a si mesmo o que conseguiu.

Na verdade, todo aprendizado exige um esforço, quase sempre um sacrifício, certamente um desconforto. E pronto! É aí que escorregamos na tal ‘síndrome de Gabriela’. Sem a dose certa de motivação, não conseguimos mudar, mesmo que o desejemos; antes, justificamos e até racionalizamos nossas condutas, não importa quão feiosas ou fedidas sejam. Sempre se pode achar uma justificativa, até para ser corrupto e genocida. Hitler, Stalin ou Bush são exemplos históricos gritantes... Mas, todos temos nossos momentos em que acabamos justificando nossa preguiça, gula e cobiça; desculpamos com impressionante facilidade nossas próprias luxúrias, apegos e paixões.

Que tal um corpo novinho em folha?

Agora, notem o paradoxo: Estudos baseados na medição do carbono 14 no organismo, concluíram que, ao cabo de alguns anos (entre 7 a 10), em média 98% dos átomos presentes no nosso corpo são renovados por meio do ar que respiramos, da luz e demais alimentos consumidos. Quer dizer: nossas células são substituídas frequentemente! temos um corpo novinho em folha em poucos anos! Se é assim, por que a tal de ‘Gabriela’ continua aparecendo? Por que custamos tanto a mudar? A resposta pode estar, segundo estudiosos, nos padrões vibracionais que emitimos (já que toda matéria emite uma vibração energética definida). Assim, tais padrões, aos poucos, imprimiriam suas ‘assinaturas’ nos planos físico e psíquico. É assim que afinal, adoecemos: o corpo, a alma, a família e a sociedade, até chegar à cena dantesca que vemos hoje no mundo.

A solução para o paradoxo pode estar no conhecimento de si mesmo, desses padrões vibratórios que operam como ‘programas’ (softwares), em forma de memórias, pensamentos e sentimentos... Assim, se nos perguntarmos: Já nascemos possessivos, mesquinhos, preconceituosos ou moralmente fracos? Há um DNA ou ambientes específicos que nos definam como bondosos, altruístas ou amorosos? Podemos responder: temos todas as tendências e possibilidades latentes, potenciais dentro de nós. Aqueles condicionamentos gerados por mera censura ou repressão social são eficazes só até certo ponto bem limitado. A educação funciona apenas como uma fina casca de verniz... ela se trincará nos primeiros estresses que o sujeito encontrar. Basta olhar para o tamanho de nossos sistemas prisionais e hospitalares.

Tem uma saída prá nós?

A síndrome parece decorrer de nossa própria identificação com os programas, com tais memórias ativas que se auto-executam em nós mesmos. Percebamos enfim, que não somos os programas que estão instalados. Somos de fato, co-programadores de quem somos! Mas se nos confundimos com tais programas, seremos presas fáceis. Inadiável que busquemos a via direta do autoconhecimento, sem os rótulos ideológicos materialistas e metafísicos. Somente nós ante nós mesmos!



publicado também em:
yesmarilia.com.br 
Jornal da Cidade - Bauru

terça-feira, 25 de abril de 2017

Big Brother e a honra ao mérito na Bananolândia

Honra ao Mérito na Bananolândia


De repente, um susto! A inusitada manchete: "Assembleia legislativa do Amazonas concede certificado de honra ao mérito à segunda colocada"... em quê?? Num dos torneios mais torpes e fúteis da atualidade: o abjeto Big Brother... mas a notícia não era crível! Talvez um falso boato? Pus-me a investigar, ávido por ao menos um desmentido que fosse... Em vão! Nenhuma contradita para aliviar o desgosto amargo. Dizem que a distinta moça "foi motivo de grande orgulho para o seu Estado"...

Miserável é um povo alienado e desmemoriado! Miserável do povo que se vangloria de sua própria parvoíce! Não há bolsa-família que lhe resgate a honra! Quais são as referências desse povo órfão? Temos por acaso alguma fome de cultura? O que acontece com o povo de Bananolândia? Contente, devidamente entretido, sem pudor, nutre-se do lixo, agora disponível em sinal digital! Tudo isso enquanto logo ali, lhe sequestram a vergonha e a pouca dignidade que lhe restavam.

Mas não generalizemos! É sempre um erro grosseiro generalizar apressadamente. Há bons políticos na Bananolândia, ainda há bons líderes entre nós, sim. É que raras vezes a sociedade do espetáculo irá destacá-los, é verdade... A indústria cultural necessita ignorá-los para que haja espaço de sobra para valores rasos, para a banalização do vil, para a espetacularização do bizarro, para o fomento de rivalidades debiloides, apresentadas sempre sob o viés do discurso politicamente correto.

Há não muitos anos, já havíamos assistido, estupefatos, à Academia Brasileira de Letras desta mesma republiqueta conceder sua maior honraria (a medalha Machado De Assis) para, ninguém mais, nem menos, que um jogador de futebol. É isso mesmo! Não é piada não! A mesma casa dos intelectuais e literatos que a tantos escritores brasileiros ignora e despreza, honrando alguém que, como ele mesmo confessara, sequer tinha o hábito da leitura. Embora não seja da nossa conta, eis que não consigo deixar de pensar na ironia bizarra do feito que, ao mesmo tempo desmoraliza e ridiculariza, além da própria ABL, também a mesma classe literária e intelectual brasileira que supostamente representava (no passado).

É verdade que homenagens esdrúxulas não são privilégio cultural de Bananolândia. Se formos enumerar quantos belicosos já ganharam o Nobel da Paz, quantos estelionatários e corruptos já receberam títulos de doutores em famosas Universidades por aí, e ainda quantos títulos honoríficos já foram distribuídos sem qualquer critério meritocrático, de repente acordamos para a realidade óbvia: "papel aceita tudo".

Papel aceita e sustenta, tanto a 'utopia' de um socialismo, quanto a 'mão invisível' de um liberalismo... e continuará aceitando todos os "ismos" que a ideologia puder conceber, mesmo que isso implique alienação e manipulação das mesmas massas humanas, sempre ávidas por ídolos de barro ou de ferro. 

A Assembleia do Amazonas e a ABL, por fim, nos fizeram foi um grande favor: recordar-nos de que suas distinções e honrarias (e não só as suas) continuam tão vãs, ridículas e vazias, quanto sempre foram. Tolo de quem as leva a sério.

Povo de Bananolândia: tomemos vergonha na cara!


terça-feira, 14 de março de 2017

O que você vai ser quando crescer?





É... o mundo anda mesmo bem esquisito. A modernidade, mais líquida do que nunca, virou enchente. E o futuro?  Na poesia e fora dela, “o futuro não é mais como era antigamente”. Trouxemos ele para nossa sala de estar... menos romântico do que se havia pintado, o futuro presentificado é multifuncional e mais politicamente correto do que nunca. O cenário é estranho: vemo-nos, por exemplo, preocupados com uma apocalíptica “reforma” da previdência pública, sem notar que o avanço exponencial da tecnologia está sutilmente varrendo do mapa a maioria de nossas profissões tradicionais. Exagero? Difícil de acreditar?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O Passamento do Mestre Antonio João Fraga Padilha


Como é sentir-se num corpo que mal consegue conter a grandeza da própria alma? Qual é a alegria e a dor de nascer num país de tantas riquezas naturais e culturais, cujo povo desconhece sua história e seu valor? Como é ser um intelectual num país como o Brasil?

O Educador bauruense Antonio João Fraga Padilha sabia. E podiam também experimentá-lo, todos que tivemos a honra, o privilégio, a felicidade, o destino e a bênção de conhecê-lo ou de tê-lo como professor.

É!! Nossa cidade acaba de sofrer uma perda inenarrável. Impossível quantificar quanto aprendemos e quantos aprenderam de seus lábios, de sua caligrafia pedagógica, de suas pesquisas... Bauru acaba de ver passar um de seus grandes, uma alma ímpar, um como poucos, lhes garanto! Conselheiro da 1ª diretoria da Sociedade Bauruense de Esperanto (ainda em 1965) e cofundador da Academia Bauruense de Letras, nosso caro mestre ainda era poeta, escritor, poliglota, pesquisador da História e da Ciência Política, profundo conhecedor das religiões orientais e ocidentais, formidável orientador de inúmeras gerações. 

Ninguém passava por ele impune, sem sentir um pouco de vergonha pelo pouco (ou nada) que fazíamos em prol da cidadania pátria, em prol de nossa brasilidade e de nosso povo. Perto dele, qualquer um descobria, querendo ou não, o valor de um Ricardo Gonçalves, de um Godofredo Rangel, de um Monteiro Lobato, de um Machado de Assis, de uma Florbela Espanca ou de um Assis Chateaubriand... dono de uma bagagem cultural invejável, leitor assíduo de diversos periódicos, de distintas orientações ideológicas, além de ouvinte contumaz de emissoras de rádio da Inglaterra, da França, da Alemanha, da Itália e do Brasil, nunca se deixava pegar neófito ou desinformado sobre qualquer que fosse o tema proposto para debate. Estudioso das Ciências Humanas, da Filosofia e até da Parapsicologia, jamais se furtava ao debate vigoroso e profundo de ideias, o qual pairava sempre um pouco acima das superficiais ideologias políticas ou religiosas, com as quais tantos se deixam contagiar.

Quem não se banhou nas memoráveis Noites de Poesia, nos saraus e círculos de leitura que este mestre presidia, perdeu muito! De um jeito ou de outro, teimosamente, sempre e sempre, o Educador nos fazia lembrar o que é “ser brasileiro”! E era para que não perdêssemos esse senso de brasilidade, que ele ensinava, energicamente! Uma luta árdua contra a ignorância, contra nossa preguiça intelectual e espiritual. 

Enfim, Professor Antonio João Fraga Padilha era uma vacina contra a superficialidade dos discursos, contra a manipulação hipnótica das mídias, em especial contra o papel destrutivo, deformativo e bestializante a que se prestava (e se presta) a televisão brasileira. 

De suas aulas, fosse de Língua Portuguesa, da Língua Internacional Esperanto, de História, ou do que mais fosse, sempre saíamos com muito mais do que tínhamos ido buscar! Suas aulas sempre magnas, não só eram informativas, mas formativas. Aprendíamos, sempre embasados em documentos, não em simples retórica, desde as mazelas dos republicanos positivistas no Golpe de Estado de 1889 até as conspirações hodiernas de alienação do povo, da Monarquia brasileira à genealogia das dinastias egípcias, todo encontro pedagógico era um apelo indireto, mas incisivo, à consciência de cada um. 

Desde ontem não temos mais nosso ilustre mestre e o espaço aqui é ínfimo para ainda dizer tanto. Mas algo valiosíssimo herdamos: exemplo e sábios conselhos. 

Sua imortalidade jaz em nós, seus órfãos!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Porque não somos o que parecemos ser...



Seja um Especialista!

- a vantagem do autoconhecimento -


Você acha que vou falar de seu nível de escolaridade ou capacitação profissional? Fique calmo... Não vou! Conquistar aquele “salário dos sonhos” é um jogo excitante, mas hoje não vamos jogar. Proponho, antes, uma pitada de filosofia e que sejamos especialistas... em nós mesmos! 


Sim, isso tem a ver com felicidade, liberdade... tudo que todos aparentemente buscam. Mas haveria relação de causalidade entre felicidade e formação técnica? É mais feliz quem “sabe” mais? É verdade que alguém tecnicamente mais preparado tem, em regra, melhor remuneração e assim, possui tudo quanto acredita ser preciso para ser feliz. Então, após apostar nossas melhores fichas –tempo e vitalidade- começamos a desconfiar que o “pote de felicidade” não estava lá no final do arco-íris. Todas aquelas técnicas, saberes, ritos de passagem, títulos e amuletos acumulados não nos tornaram, nem mais felizes, nem mais livres... por quê? É aqui que um especialista em si mesmo fará toda a diferença.


Para um médium, parece simples incorporar entidades de outras dimensões. Para um cristão, a incorporação daquilo que ele chama de demônio ou do próprio Espírito divino também é possível. Mas não precisamos ir tão longe para fazer um simples exercício de auto-observação e responder: quantas pessoas distintas incorporamos durante um mesmo dia? Ou você realmente acredita que é a mesma pessoa o tempo todo? Quantos impulsos e desejos contraditórios já experimentamos? Quantos deles se introjetaram e se aninharam em nossas mentes, mesmo contra nossa própria vontade? Agora, tente o contrário: incorporar a entidade chamada “você mesmo”, seu Eu verdadeiro, seu real ser! Você tem certeza de que consegue? Isso, de fato, não é prá qualquer um... É tarefa para um especialista em si mesmo!

É fato que a ciência da Psicologia já identificou diversos egos convivendo na psique humana, uns mais simples, outros mais complexos, uns úteis, outros prejudiciais, uns cordiais, outros nem tanto... todos fragmentos nutridos por nossa energia, hábitos e distrações. Mas, qual destes egos realmente representa nossa essência? E quais seriam meros agregados que grudaram em nós com o tempo, advindos do ambiente, das culturas ou das memórias coletivas? A pergunta filosófica crucial é sempre atual: quem realmente somos nós?

Um especialista em si mesmo não só descobre que não era quem pensava ser, como também que, em boa parte do tempo, sequer tinha posse de seu próprio corpo! De fato, é estarrecedor e quase inacreditável constatar que perambulamos por aí dispersos, pelos corredores do futuro ou do passado, à moda de Alice no País das Maravilhas.  O corpo físico? Quase sempre um barco à deriva... por vezes, correndo perigo. O que acontece em um barco ou casa não vigiada por seu dono? Andarilhos e vendilhões forasteiros começam a se apossar... e é lógico que consigo trazem suas sujidades, seus cacarecos, seus vícios e seu lixo. Instalam-se na forma de pensamentos, sentimentos, medos e desejos excitantes e viciantes. 
a multidão de habitantes viventes em nosso interior


O primeiro passo para o especialista é retomar o leme de si próprio, colocando-se mais atento a pensamentos e sentimentos, não se confundindo mais com eles. Uma vez conscientemente flagrados, aqueles andarilhos vão aos poucos se desarticulando e perdendo boa parte de seu domínio. Cada um de nós é chamado a ser esse especialista, para, por fim descobrir que aquela felicidade e liberdade buscadas fora, sempre estiveram ocultas bem debaixo da poeira dos agregados acumulados dentro de nós mesmos.

publicado em 01/02/2017 no Jornal da Cidade de Bauru

domingo, 25 de dezembro de 2016

Papai Noel e Natal



Papai Noel existe! Mas, a que preço?


Muitos defendem que a crença no Papai Noel, como em tantos outros contos de fadas, auxilia no desenvolvimento mental das crianças. Dizem que a descoberta da verdade sobre “um velhinho gordo que espia as crianças e vai a suas casas no Natal para entregar presentes se tiverem se comportado bem” estimula o processo de amadurecimento da sua personalidade.  Bom, nem todos concordam com tal tese: como, afinal, a “maior mentira coletiva do planeta” poderia ser positiva se ela corrói a confiança entre as crianças e seus pais? 
Por um lado, a criança muito cedo entende que os presentes funcionam como um tipo de suborno para que se comportem bem. Por outro, se seus pais (em quem confiam) lhes mentem descaradamente –ainda que com boas intenções - por tantos anos sobre algo tão relevante (para a criança), por que eles, seus filhos, devem confiar nos pais quando estes lhes aconselharem, por exemplo, sobre entorpecentes, ou sobre bebidas alcoólicas ou sobre sexo? O que mais é mentira? Se lhes mentiram sobre o Natal, por que deveriam confiar nos demais ensinamentos sobre qualquer outro tema relevante? Além disso, “filhos não devem mentir para seus pais”. Se mentirem, serão castigados ou no mínimo, censurados. Mas, cá entre nós: e quando os pais mentem para seus filhos? Ficarão impunes? Sabe de nada, inocente...

É verdade que há estudos nas áreas da Psicologia e da Sociologia avaliando efeitos das violências física e psicológica na mente das crianças. Então surgem algumas preocupações: pode-se considerar a encenação natalina como um tipo de violência simbólica contra a frágil personalidade infantil? Ou na verdade seria uma forma legítima de preparar nossos filhos para enfrentarem com mais maturidade e resiliência, a falsidade, a insinceridade e a desonestidade que eles encontrarão futuramente? Filosoficamente, porém, temos a questão ética: Uma mentira se torna mais admissível ou menos imoral por ter se tornado culturalmente aceita por uma coletividade (adultos), em detrimento de outro grupo (as crianças)?

Sim, é claro! Ninguém aqui se tornou alcoólatra ou delinquente por causa da conspiração mercadológica do Papai Noel. E, convenhamos! Comparado a nossos legisladores e gestores públicos, vê-se fácil, fácil, que o velho Noel é o menor de nossos problemas. 
É verdade que os contos, os filmes, as músicas, os banquetes e enfeites natalinos têm sua aura romântica, além do característico apelo emocional. Mas, antropologicamente, o que “alhos têm a ver com bugalhos”? ou seja: o que a lenda de Noel tem a ver com a celebração cristã da epifania do Deus hebraico-judaico-cristão? Absolutamente nada. Mas, um profissional da Propaganda bem treinado sempre evocará referências sobre uma suposta origem cristã de Noel, quando a rigor, sabemos das suas origens pagãs nórdicas. 
Por fim, quando o argumento historiográfico for ralo abaixo, apelará para a semiótica, dizendo que Noel representa a fraternidade, a solidariedade, a caridade cristã e... presentes, é claro!! Agora é a vez dos adultos engolirem a isca. E, às compras!!!


texto publicado no Jornal da Cidade em 25 de dezembro de 2016, pág. 26

http://www.jcnet.com.br/editorias_noticias.php?codigo=246339

sábado, 10 de dezembro de 2016

Heróis: entre deuses e homens



Heróis e anti-heróis: onde estão?


É sério! Heróis e heroínas não são invenção de Hollywood! Muito antes da escrita existir, já eram cantados entre os indígenas, nórdicos, asiáticos, orientais, africanos e aborígenes. Posteriormente, valiosos livros sagrados passaram a narrar poeticamente seus dramas e tragédias, seus conflitos, dilemas, derrotas e vitórias. Ainda que dotados de admiráveis habilidades, heróis e heroínas sempre foram mortais e também cometiam erros. Isso não os impedia de se consagrarem legítimos líderes e inspiradores de suas gentes. Sua natureza híbrida (parte humana, parte divina), lhes conferia uma dignidade que geralmente lhes custava caro, muito caro. 

Uma coisa se sabe: eram legítimos líderes! Não se permitiam viver mediocremente e lutavam por fé, por ideal. Seu gênio, sua lealdade e coragem conferiam-lhes a relevância que lhes permitiu serem celebrados e, seus feitos, reinterpretados e recontados ao longo dos séculos, a ponto de muitos deles se tornarem paradigmas morais e pedagógicos de seus respectivos povos e nações. 


O comportamento e a visão de mundo de um líder nos afeta, afeta nossa humanidade! É nisso que um líder se distancia de um simples genitor biológico, de um mero chefe, presidente ou político medíocre. O chefe pode ser obedecido porque é temido, mas o herói, aquele que é líder, é sinceramente admirado, comanda pela adesão consciente de seus liderados. 


É verdade que a recente indústria cultural se apercebeu do potencial comercial do tema, trazendo à luz os midiáticos super-heróis das revistas em quadrinhos e da cinematografia. Pergunto: indo mais além da liberdade artística, haveria ainda hoje, espaço para líderes reais, de carne e osso? Onde estão e como vivem?

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Porque somos peritos em falar, não precisamos ser tão amadores em escutar



 

O Segredo do Passeador de Humanos




Você por certo já ouviu falar no ‘passeador de cães’. Com o tempo rarefeito, terceiriza-se os passeios com os queridos peludos domésticos. Mas que tal se alguém cobrasse dinheiro para dar um passeio com seu amigo ou ente da sua família? Pois esse “serviço” já existe nos EUA, em Israel, e quem sabe mais aonde. Para dar uma voltinha básica de um quilômetro e meio, um passeador norte-americano cobra por volta de R$ 23,00. 

O fato foi manchete recente na imprensa britânica, a qual destacou ainda que “outra pessoa no Reino Unido quer que o americano se mude para lá para expandir os serviços”. O próximo passo, diz o insólito empreendedor, será criar uma espécie de Uber de passeadores, uma vez que ele não está dando conta de atender a demanda e já precisou até contratar uma ‘equipe de passeadores’. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Progresso ou Delírio?

Resta saber de que lado ficaremos: 

como parte do problema ou parte da solução


"É preciso crescer!" Você provavelmente já ouviu essa frase. Ela ilustra a visão de mundo na qual nascemos e agora vivemos. Tal paradigma nos foi introjetado culturalmente e, para muitos, tornou-se tão ‘natural’ quanto o ar que respiram. Nesta visão, a solução dos problemas sociais (desemprego, miséria, violência etc) exige dos diversos setores, “crescimento econômico e desenvolvimento”. Quem discordaria desse binômio?
O desenvolvimentismo é o totem sagrado de nosso tempo. Desafiá-lo é grave pecado, blasfêmia, heresia. A ideologia nos conclama a produzir e também a consumir mais. Então, surge um problema: até a capacidade de consumo das pessoas tem seu limite. Que fazer?
A solução nefanda chegou ainda na primeira metade do século 20, quando alguns iluminados conceberam o espantoso conceito da "obsolescência programada” (ou planejada) que salvaria a economia de um novo colapso: reduz-se propositadamente a vida útil de um produto para, assim, aumentar o consumo de versões mais recentes. Isto é: o próprio fabricante planeja deliberadamente o “envelhecimento” daquilo que produz. Após o prazo estipulado, o produto (geralmente ainda seminovo) simplesmente se quebra ou deteriora, mesmo que se utilize dele com todo o zelo. Isso se aplica a praticamente tudo: de suas meias de nylon às lâmpadas de led, de impressoras domésticas a peças de automóvel, de celulares inteligentes a liquidificadores, de computadores a colchões... é a cultura do descartável. 

Ademais, a propaganda midiática faria o resto do trabalho sujo, induzindo-nos a nos sentirmos imperfeitos e insatisfeitos, nos acenando com novas falsas ‘necessidades’. A única saída para o gado humano: Continuar consumindo, sem reflexão crítica alguma... 

Por sua vez, para atender à demanda (artificialmente estimulada), requer-se mais, muito mais recursos naturais (commodities, se preferirem o nome da moda). Mais petróleo, mais carvão e gás, mais minérios, mais hidrelétricas, mais...mais! É preciso explorar, exaurir, extrair, subtrair, sugar, arrancar, fissurar, depenar, explodir, esfolar, auferir, enfim, lucrar! 
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgEiJH2H1BTClDJE5Bas5bId3Wrtb2ChAqfsOQEbUSBu0zYEMz0iBbzBhe-mnzQ14OczJfBO1EboclN7xQ6bvFvCrHSGiXN8yw63v7og4MDq-QZKjXIhFw3l5nyfJKphFvUQUgvu7qn4qA/s1600/crescimento.jpg Eis a lógica do jogo, no qual o gado humano é doutrinado: ganhar e consumir sempre mais. Eis a ética permissível: buscar o topo! American way of life!  Ativos e derivativos! Blue chips! Superavit! Indexadores! PIB! Dividendos! Tudo resumido a cifras digitais num extrato bancário. Mas, é possível ser saudável respirando índices estatísticos de crescimento?  Quando tivermos fome, comeremos papel-moeda? Beberemos a liquidez de nossos investimentos financeiros se tivermos sede?
 
Dentre tantos exemplos de insanidade, citemos um bem próximo: vivenciamos no Brasil, talvez a pior crise hídrica da nossa história. Ao mesmo tempo, descobrimos que a indústria consome de 3 a 7 litros de água para produzir uma única garrafa plástica descartável, que acondicionará por alguns dias um único litro de água. Agora, considere que só no Brasil, são produzidas 550 mil toneladas de garrafas PET por ano! Essa “água virtual”, consumida durante o processo de produção de tantos supérfluos, está 'oculta' a nossos olhos. Reciclar é interessante, mas não será nossa redenção se considerarmos o exponencial crescimento demográfico. Mesmo as pequenas ações antrópicas, amplificadas em escala mundial, produzem efeitos catastróficos. Tudo que consumimos deixa uma “pegada hídrica”, uma pegada ecológica gigantesca atrás de nós. 

Tentem calcular quantos recursos já desperdiçamos com nossa ânsia por aceitação social? Quantas bugigangas ainda precisaremos para reforçar nossa frágil autoestima e sustentar nossa primitiva identidade egóica? A obsolescência planejada, bem como os atuais níveis de produção e consumo são absolutamente imorais e escandalosos. Qualquer criatura de razoável inteligência se recusaria a viver de modo tão doentio. Estamos cronicamente viciados em consumir e como qualquer viciado clássico, não admitimos o próprio vício.

Concluímos que a abjeta ideologia do crescimento predatório não se sustenta porque nosso ego é simplesmente insaciável. Ele é a fonte de nossas ansiedades e compulsões. Compreender seu mecanismo nos coloca num patamar de consciência que nos permite romper o círculo vicioso no qual entramos. Qual espelho, a sociedade só reflete a nós mesmos.  Por isso, perdemos o foco e tempo precioso quando culpamos exclusivamente nossos governos e políticos, ou a crise econômica capitalista ou a ameaça comunista... ficamos cegos para o óbvio: a real ameaça e ao mesmo tempo a solução, é o próprio elemento humano.

Nosso suposto "crescimento" está implicando em sofrimento para muitas criaturas. Ouso dizer uma blasfêmia: Não precisamos de mais, precisamos desesperadamente de menos!! menos cobiça, menos avidez, menos supérfluos, menos tóxicos, menos velocidade e menos sangue e sofrimento em nossas mãos, menos insanidade em nossas vidas.

Todas as formas de vida merecem respeito. Sem motivo plausível, não temos o direito de destruir ou causar qualquer sofrimento. Essa é a única ética possível. Ou a abraçamos ou desaparecemos. 
 



Silvio Motta Maximino –
publicado no Jornal da Cidade (Bauru) em 14/11/16