De tanto observar,
foi lá e fez...
a história de um fazedor de rios
Edison Veiga,
O Estado de S. Paulo
22 Março 2017 |
SÃO PAULO - De tanto observar os rios, foi lá e fez um. É
mais ou menos este o resumo da história do ex-corretor de seguros
Adriano Sampaio, de 45 anos, ativista ambiental criador do projeto
Existe Água em SP. Na verdade, meio sem querer, ele desenvolveu o que
oficialmente pode ser chamado de biovaleta - um sistema ecológico e
sustentável de reaproveitamento de água da chuva.
Sampaio mora no bairro de Vila Clarice, noroeste da
cidade, a poucos metros da Rodovia dos Bandeirantes, perto do Pico do
Jaraguá. Começou a notar que a valeta de concreto que margeia a pista - e
serve para escoar a água da chuva - andava sempre com suas poças. Pouco
declive, região com sombra de árvores, zero permeabilidade... “Aí, em
minha cabeça, ficava a lembrança de rios que, quando enchem, ocupam uma
área de várzea. Depois, na estiagem, voltam ao leito mas deixam alguns
lagos perenes”, comenta.
Em janeiro,
pegou facão, enxada e principiou o trabalho. Deu uma limpada no mato,
tirou o lodo que estava acumulado no fundo da valeta, fez duas barragens
com argila e algumas pedras - tiradas do próprio entorno -, criou um
corregozinho de dez metros. Choveu. Encheu. Trinta centímetros de profundidade.
Então ele se embrenhou por rios da região, peneira na
mão, caçou uns guaruzinhos - o lebiste selvagem. Conseguiu também
cascudos e carás. “E um dia fui ao Mercado da Lapa e comprei seis
pequenas carpas. Gastei R$ 20. Foi o único investimento financeiro do
projeto”, conta.
A valeta ganhou vida. Os guarus se reproduzem
rapidamente. Aos poucos, girinos têm surgido. Plantas aquáticas, também.
“Outro dia um passarinho desses pescadores estava aqui de olho. Daqui a
pouco vai ter bicho sondando por perto, atrás dos peixes”, diz Sampaio.
Borboletas já rodeiam o local, antes quase inóspito.
Então o ativista descobriu - ah, a internet! - que o que
estava fazendo tem nome e conceito: biovaletas. Na realidade, é um
jeito de lidar com as águas da chuva de modo sustentável. “Trata-se de
uma técnica bem contemporânea no exterior”, afirma o arquiteto,
urbanista e paisagista Henrique de Carvalho, do Ateliê Tanta - um
entusiasta da ideia. “Desde os anos 1960 e 1970, é um formato bastante
estudado. Nos Estados Unidos, por exemplo, a cidade de Portland, em
Oregon, incentiva o modelo largamente.”
Ano sim, ano não, a prefeitura do município americano
publica um guia intitulado Manual de Manejo da Água da Chuva. A última
edição, de 2016, saiu com 502 páginas.
Nelas, as biovaletas são apresentadas como uma
alternativa recomendada para lidar com a pluviosidade. Um “canal
vegetado” não apenas para coletar a água da chuva, mas também com a
função de “diminuir o escoamento superficial, sedimentar, melhorar a
infiltração e reduzir a poluição”. Sim, as tais barreiras de argila
“inventadas” por Sampaio têm essas funções: acabam livrando a água de
impurezas.
Na versão paulistana, o ativista acredita que está
resolvendo o problema dos mosquitos - afinal, as larvas dos insetos são
um banquete para os peixinhos. “Já notei que não aparecem mais tantos
Aedes quanto antes”, ressalta.
Reconhecimento.
Biovaletas são
instrumento reconhecido pela literatura especializada. A técnica aparece
no livro Manual de Orientação Para a Proteção da Qualidade das Águas
Pluviais, da Associação das Agências de Manejo de Água da Chuva da Área
da Baía de São Francisco (BASMAA, na sigla em inglês).
Em Desenvolvimento de Baixo Impacto, obra publicada pela
Faculdade de Arquitetura da Universidade de Arkansas, no Estado
americano homônimo, as biovaletas são destacadas como componentes úteis
às áreas urbanas.
Sampaio diz que pretende procurar a CCR AutoBan,
concessionária que administra a Rodovia dos Bandeirantes, com o projeto
debaixo dos braços. Agora já com três trechos de dez metros cada em
pleno funcionamento, sonha com um córrego que avance por quilômetros.
“Estarei à disposição se quiserem que eu ensine a fazer”, adianta ele,
enquanto admira a própria criação.
fonte:
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2017/03/22/as-margens-da-rodovia-o-fazedor-de-rios.htm?