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terça-feira, 22 de junho de 2021

Revolução: que(m) precisa mudar?

Proponho a revolução!


de Flávio Siqueira

Você já sentiu que as peças que estamos usando para construir o quebra cabeças de nossas vidas não se encaixam? Basta o mínimo de atenção para ver que tem muita coisa errada.
Por exemplo, há poucos dias uma entidade internacional de apoio a programas de desenvolvimento chamada OXFAM divulgou um relatório desanimador. Apesar do que os governos anunciam, a concentração de riquezas no mundo está aumentando.
Segundo a entidade, em pouco tempo a riqueza acumulada por 1% da população será superior a tudo o que os 99% restantes possuem. O relatório mostra que, apesar de produzirmos alimentos suficientes para suprir à necessidade três vezes superior a demanda de habitantes do nosso planeta, uma em cada nove pessoas no mundo ainda passa fome. É muita coisa.
Mas os números são chatos e podem ser contra argumentados como fazem com habilidade os políticos. Deixando-os de lado, preste atenção em como a maioria de nós conduz a própria vida. Olhamos com naturalidade um sistema que chama a casa própria de “sonho”. Não tenho conhecimento de nenhum animal que precisa de tanto esforço para ter um canto na vida. Somente o bicho humano é capaz de criar um “mercado imobiliário” tão voraz, como especialmente o das grandes capitais.
Nos acostumamos com a desigualdade e a justificamos. Para muitos de nós, os milhões de homens e mulheres apertados em um ônibus abafado e lotado é parte da paisagem natural, assim como as famílias que moram na rua, como os cenários de miséria contrastando com ambientes de luxo. A falta de educação que inibe o pensamento crítico, que nos transforma em bonecos do consumo, é aceitável, aderimos ao “cada um por si” sem percebermos que esse olhar fragmentado é justamente o que viabiliza tamanha desigualdade.
Não estou falando sobre socialismo, que não deu certo onde foi testado. O capitalismo também não. Apesar da prosperidade ostentada por poucos, não posso me conformar com um sistema em que 1% da população concentra mais riquezas do que todo o resto. Isso não pode ser encarado como algo que deu certo.
Enquanto nos distraímos tentando nos aproximar dos exemplos propagandísticos de sucesso, fechamos os olhos para a grande maioria que jamais terá o mínimo.
Há os que não se incomodam com o ritmo alucinante de trabalho que rouba um pai da família, a mãe dos filhos, que congestiona as cidades, que separa as pessoas, que provoca doenças emocionais. Esses encaram o fato de que a educação, a fé e a política se transformaram em “mercados” disputando nichos com avidez, em muitos casos sem nenhuma ética, como um fenômeno absolutamente aceitável. Tudo ganhou preço, tudo virou mercado e perdeu o valor.
Talvez nossa maior dificuldade em virar o jogo seja a crença de que nada podemos fazer. Esse mesmo sistema nos convence de que somos impotentes, de que o preço do progresso é a desigualdade e tudo o que nos cabe é lutar, lutar muito, para quem sabe um dia encontrarmos lugar nos vagões da frente caso não queiramos a mesma morte dos que ficaram para trás.
Fomos convencidos de que não há escolhas, ou aderimos, ou morreremos com nossas “ideologias utópicas”.
Não estou aqui para propor novos sistemas. Não acredito que simplesmente mudar um “ismo” por outro seja suficiente para que haja justiça. Pessoalmente só vejo um caminho: O movimento individual que promove revoluções em seus micro sistemas.
Em cada mente que desperta há a implosão de um sistema. Quem vê sai da bolha e passa a se relacionar com ela a partir de outra perspectiva. Não estou dizendo que esse indivíduo necessariamente impactará o todo, mas o que é o todo se não a somatória dos indivíduos?  Se cada um de nós se propuser a repensar o estilo de vida, incluindo nossas prioridades, nossos sonhos, nossos valores, seremos agentes subversivos onde quer que estejamos. E tanto faz se a maioria não se importar. Eu me importo e viverei conforme minha consciência.
Acredito que o maior mal dos nossos sistemas, sejam eles quais forem, é a inibição do pensamento. Melhor sentir do que pensar, melhor correr do que parar e enxergar, melhor entrar no fluxo frenético da maioria imbecilizada, do que questionar sobre o que estamos fazendo com nossa própria vida. O resultado disso é a gigantesca desigualdade e nossa incrível passividade zumbificada diante dela.
Proponho a revolução! Não as que usam armas, nem as panfletarias com seus discursos cheios de amargura, proponho que nossa insatisfação seja alavanca de um reposicionamento de vida. Proponho que deixemos de esperar tanto dos outros, dos governos, dos empregadores, do Batman, do Obama ou de Deus e façamos o que dá em nossos mundinhos. Há muito a fazer em seu mundo!
A revolução que proponho se concretiza sempre que um indivíduo inverte a lógica do sistema em si, e reflete naturalmente o novo olhar para o todo. Se nossa escolha é viver dentro do sistema não precisamos permitir que o sistema viva em nós.
Até onde isso pode nos levar não faço a mínima ideia, mas sempre que vejo o mundo como está, o que me consola é a esperança de que pequenos movimentos subversivos são possíveis; mentes que não viam agora veem, gente resignada agora pensa, mundos encurralados por tanta pressão encontram um caminho que antes de tudo seja reflexo de outro olhar.
Não é o mundo que precisa mudar, é o nosso olhar. Quando isso acontece, o mundo, sem escolha, simplesmente acompanha. Se isso deve começar por alguém, por que não pode ser com a gente?

segunda-feira, 15 de março de 2021

Filosofia... prá que NÃO serve?

 


Certa vez me perguntaram... mas afinal, prá que serve essa tal Filosofia?

a pergunta certamente é muito boa... 

Conceitos, há aos montes... então, ao invés de começar "dando o conceito", vamos esclarecer o que Filosofia não é... combinado?

 

 

O que não é filosofia


Filosofia não existe para "provar" alguma teoria... o nome disso é "método científico".
 
 A filosofia não consiste num “sistema de preceitos e crenças"... o nome disso é ideologia (seja religiosa, seja política...)
 
A filsofia tampouco consiste num conjunto de teses e verificações empíricas metodológicas”... o nome disso é "teoria científica".
 
Encare a filosofia mais como um "controle de qualidade" do seu pensamento.
Senão, vejamos:
Será que nosso pensamento poderia resistir a uma simples objeção lógica? 
Será que nossa crença subsistiria ao mais simples desafio da própria racionalidade humana?
Se sua crença ou pensamento não consegue resistir a esse simples teste, ele até pode ser muito lindo, poético e consolador... mas nada tem a ver com a verdade, com a lógica ou com a racionalidade.

Argumentos, por mais fascinantes e brilhantes que aparentem, precisam ser testados! ...Assim como qualquer fábrica de respeito sempre testa seu produto, antes de oferecê-lo para ser consumido...
Se um produto oferece algum risco à saúde, não deveria ser propagandeado, nem vendido, ou oferecido a consumo de terceiros... sim ou não?
 
De igual modo deve ser com os pensamentos e doutrinas que "compramos", a maioria desde muito, muito cedo... numa idade em que geralmente não conseguimos elevar nossa voz para questionar e sermos respeitados.

Enfim, há que verificar e testar os pontos fortes e fracos de qualquer ideia, pensamento, conceito, preceito, pressuposto, conclusão e por fim, da própria doutrina e ideologia derivadas desses argumentos... testá-los à exaustão, para ver como resistem, se é que resistem... 
 
As falácias ou sofismas são os pontos fracos visíveis (ou não tão visíveis) dos argumentos. São eles que tornam os argumentos (e as ideologias deles derivados) frágeis, inflamáveis, venenosos, fanatizantes e alienantes.

Enfim e por fim, a Filosofia não é um bálsamo ou anestésico para as dores humanas...
A Filosofia não serve para embalar nossa sonolência psíquica ou letargia mental. 
A Filosofia é para chacoalhar e nos acordar do sonho... do sonho encantado de nossas crenças pueris.
 
Inúmeras vezes, é a Filosofia que trará à mesa, como prato principal, nossas próprias e incômodas contradições...
Mas ninguém gosta de ser exposto à sua própria miséria e condição de profunda ignorância, não é mesmo?
A minoria suporta a salgada verdade... 
A maioria já bem ou mal se acostumou ao sabor inconfundível de suas próprias crenças (não tão próprias quanto pensa que são)...
 
Por vezes, quase sempre ou sempre cremos que estamos certos, que nossos pontos de vista são os mais perspicazes, que nossa ideologia é a mais brilhante, a mais pragmática, funcional e justa... Em geral, apenas por simples etnocentrismo, cremos mui sinceramente, que nosso paradigma é o mais próximo da verdade que se poderia chegar...
É aí que vem a Filosofia, "puxa nosso tapete" e... adeus "zona de conforto"!
Do alto das nuvens de nossas opiniões, direto para o chão duro da realidade dos fatos. Por isso, muitos detestam a Filosofia e a tem com inimigo mortal...

A Filosofia é a “fiscal”... do juízo apressado, do julgamento dogmático, do argumento raso, da conclusão apressada, da ideologia política e/ou religiosa...

Então, Filosofia veio menos para trazer respostas e mais para colocá-las em xeque... 
 

Essa tal Filosofia pode responder algumas dúvidas? 

Por certo que sim, mas a Filosofia não é a última, nem necessariamente a melhor das respostas... ela não nasceu para dar respostas, ao contrário da ciência que tem justamente essa função. A Filosofia é sim a "mãe de toda a ciência" humanamente produzida.
Filosofia nasceu para ser método de qualificação de bons argumentos e de descarte de argumentos ruins. Seria como um "ISO 9000" específico para a área de nossos raciocínios abstratos e argumentos persuasivos.

O fato é que a Filosofia não é uma doutrina ou crença particular que alguém pode ou não adotar...
Ela é apenas a estrada por onde se deve trilhar, goste ou não, se quer que um raciocínio ou conclusão seja razoavelmente coerente e compreensível por outros interlocutores...
Sem as normas elementares do raciocínio lógico, nem o meu, nem o seu discurso teria qualquer validade ou utilidade...

Ou seja, se você não entendeu ainda, pense que, mesmo você execrando a filosofia, mesmo apontando sua aparente "inutilidade" ou "malignidade", isso em nada muda o fato de que você precisou dela para elaborar o argumento que dará suporte e validade para seu ponto de vista.
Do contrário, seu discurso seria imprestável para qualquer fim.

 
Essa advertência se faz necessária porque é comum confundirem filosofia com algum tipo rigoroso de doutrina, com se ela fosse algum tipo de bula de conselhos morais ou espiritualistas... 

não se confunda, pois, "doutrina filosófica" com a Filosofia em si, nem com a atitude mesma de "filosofar"...

 

moeda Decadracma -detalhe: deusa Athena e a coruja, símbolos da filosofia    

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Obra "Linguagem e Ideologia", de José L. Fiorin

Linguagem e Ideologia


José Luiz Fiorin – ed. Ática, 1988 (série Princípios)

desconheço o autor da síntese abaixo. Se algum leitor souber, me informe, para que eu mencione os devidos créditos.


. Introdução
            A linguística não se preocupou com as relações entre a linguagem e a sociedade, mas apenas com as relações internas entre os elementos linguísticos.
        A linguagem é, antes de tudo, uma instituição social, o veículo das ideologias, o instrumento de mediação entre os homens e a natureza, entre os homens e outros homens.
          O objetivo do livro não é mostrar que uma pronúncia de prestígio é imposta com a finalidade de discriminar pessoas; nem que o acesso a certas posições de destaque está ligado à aquisição de variedades linguísticas consideradas certas ou elegantes; nem que a norma linguística utilizada pelos que detêm o poder transforma-se em “língua modelo”; nem que as variedades linguísticas utilizadas pelos segmentos sociais subalternos são consideradas “erros”, “transgressões” e por isso seus usuários são ridicularizados; não é dizer que a linguagem é um instrumento de poder e que os segmentos sociais dominantes tentam ridicularizar a palavra dos dominados... O objetivo do livro é refletir sobre as relações que a linguagem mantém com a ideologia: o autor deseja analisar qual o lugar das determinações ideológicas neste complexo fenômeno que é a linguagem, bem como analisar como a linguagem veicula a ideologia, demonstrando o que é que é ideologizado na linguagem.

2. Marx e Engels dão as primeiras dicas

        Os autores da obra A ideologia alemã mostram que, nem o pensamento, nem a linguagem constituem domínios autônomos, pois ambos são expressões da vida real.
      Ao mesmo tempo em que goza de certa autonomia, a linguagem sofre determinações sociais e é preciso separar estes dois níveis: o de sua autonomia e o de suas determinações.

3. As primeiras distinções

            A língua é social na medida em que é comum a todos os falantes de uma comunidade linguística.
            O sistema (língua) é mais do que uma lista de palavras, ela é um sistema de oposições, de valores ( /l/ é diferente de /r/, diferente de /m/.....; dizemos o homem e não *homem o ...)
            Um sistema linguístico é uma rede de relações que se estabelece entre um conjunto de elementos linguísticos e estas relações dão um determinado valor a cada componente do sistema e permitem selecionar o elemento apropriado para figurar em cada ponto da cadeia da fala e combinar adequadamente esses elementos entre si. A língua é uma estrutura internalizada pelos falantes (abstrata) que se realiza nos atos de fala.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Dialogismo, Polifonia e Intertextualidade



Dialogismo, Polifonia e Intertextualidade

Para Mikhail Bakhtin o dialogismo é a condição do sentido do discurso, da linguagem. Todos os textos são dialógicos porque são resultantes do embate, do confronto de muitas vozes sociais. O dialogismo discursivo desdobra-se em dois aspectos:
- o da interação verbal entre enunciador e enunciatário do texto (nenhuma palavra é nossa, mas traz em si a perspectiva de outra(s) voz(es);
- o da intertextualidade, no interior do discurso.

A polifonia trata-se de uma característica presente em certos tipos de texto, nos quais se deixam entrever muitas vozes, por oposição aos textos monofônicos, que escondem os diálogos que os constituem.Nos romances de Balzac, por exemplo, manifestam-se as vozes da aristocracia, da burguesia e da pequena burguesia. Essas vozes têm traços sociológicos/ideológicos diferentes. Os discursos autoritários são monofônicos porque abafam as vozes em conflito.