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sexta-feira, 10 de abril de 2020

Perca a cabeça!

Pratique a acefalia

Há muitas formas de se chegar à meditação. E há também muitas técnicas e formas distintas que podem ajudar a se alcançar distintos estados meditativos. Qual é melhor, qual ajuda e qual atrapalha, dependerá de cada pessoa em particular.
De qualquer modo, a primeira observação que acredito seja relevante é lembrar que nunca se deve confundir "meditação" com algum tipo de imaginação, mentalização, oração, intenção, conversação interna ou pensamento reflexivo. 
Há sim técnicas para se atingir a meditação que os especialistas chamam de ativas (nas quais o corpo se movimenta ordenada ou desordenadamente) e passivas (com o corpo parado, quieto). 
Porém, toda vez que a técnica recorre ao auxílio da imaginação, de mantrans, intenções, mentalizações,  objetos externos, música etc, é importante lembrar que você ainda não está propriamente "meditando", mas sim utilizando uma ferramenta para chegar (ou voltar) ao seu estado natural, o estado de meditação.
Assim, na medida em que você melhora sua concentração, as muletas e ferramentas auxiliares que no início foram eventualmente úteis, podem e devem ser dispensadas. Cedo ou tarde, precisaremos abandonar qualquer muleta ou apoio e seguir meditando, pura e simplesmente. Neste sentido, a meditação vipassana é um bom exemplo de meditação que o levará diretamente ao ponto da meditação, sem atalhos.
Por outro lado, é um engano acreditar que se pode voltar ao estado natural (meditação) instantaneamente, com a mente no atual grau de agitação e indisciplina (dispersa e acelerada). É óbvio que a visão da realidade, a visão de profundidade, só se torna possível quando as ondas no lago da mente se acalmam. A meditação é um estado natural do ser humano que se perdeu. Por isso, aconselha-se ao "meditador" que busque inicialmente colocar sua atenção na respiração, que também é algo natural. Uma vez que você consegue observar atentamente sua própria respiração natural, não entrecortada, não artificial, não forçada, nossa mente tenderá a acompanhar, acalmando-se também aos poucos. 
Aos poucos escapa-se da ditadura do pensamento acelerado.
Osho sempre falou bastante sobre a importância de se tirar o foco da mente, do pensamento compulsivo e mecânico.
Abaixo segue um interessante exemplo de meditação ativa, na intenção específica de facilitar o estado meditativo. Segue o trecho extraído da obra de Osho, "Meditação: A Primeira e Última Liberdade".

Da cabeça ao coração

 

(...)O primeiro objetivo: experimente ser acéfalo. Visualize a si mesmo como acéfalo; aja como se fosse. Essa sugestão parece ridícula, ilógica, mas é um dos exercícios mais importantes. Experimente e entenderá. Caminhe sentindo-se como se não tivesse cabeça. No princípio será apenas “como se”. Quando começar a sentir que não tem cabeça, achará esquisito e estranho. Mas em pouco tempo você estará se acomodando no coração.

Existe uma lei. Você talvez tenha notado que uma pessoa que é cega tem uma audição mais sensível, um ouvido mais musical. As pessoas cegas possuem uma sensibilidade para a música mais profunda. Por quê? A energia que normalmente circula pelos olhos, no caso, não pode passar por eles, então escolhe um caminho diferente que passa pelas orelhas.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

confronto de paradigmas num discurso de Alan Watts



“Quem disse? Cadê as evidências?”: o confronto de paradigmas num discurso de Alan Watts

 




"Por quê devemos parar de pensar? Por que é errado não gostar de ficar sozinho? Por que ter uma mente cheia de pensamentos é como uma droga? Será que realmente tem algum vício ou efeito maligno envolvido? Quem disse? Cadê as evidências????"
— ltrafael, em comentário ao vídeo "A Mente", com Alan Watts


Essas indagações publicadas num comentário ao vídeo "A Mente" (mais abaixo), um discurso do filósofo inglês Alan Watts (1915-1973) sobre as preocupações e o pensamento compulsivo, chamam a atenção de uma maneira bem simples e interessante para o choque de paradigmas na busca de respostas sobre a vida. 
 
Apesar do discurso de Watts ser bem claro e auto-explicativo, está se referindo a um processo interior e subjetivo de investigar a realidade, enquanto a pessoa que fez o comentário espera evidências ou provas "científicas e sérias" externas a ele mesmo ("Quem disse? Cadê as evidências??"), provenientes de alguma autoridade na pesquisa objetiva da realidade. 
 
Watts talvez tenha evidências científicas e sérias, mas no seu paradigma, que precisa da percepção interior e das próprias experiências pessoais para serem verificadas como, de fato, evidências. Mas sem uma ponte entre esses dois paradigmas, o espectador não percebe isso, e o diálogo não acontece.

Muitos grandes autores já trataram desse encontro (ou desencontro) de paradigmas, que muito genericamente poderíamos incluir nas diferenças entre "Ocidente" e "Oriente", aqui talvez mais especificamente entre o método científico "ocidental" e as ciências contemplativas "orientais", mas neste caso está expresso e atualizado num debate cotidiano simples de um vídeo do YouTube. 
 
Para alguns esse problema está superado, e os paradigmas convivem entre si, mas para muitos ainda há um vão. Sem uma ponte, o que há do outro lado do paradigma permanece inacessível.

Assista ao vídeo de Alan Watts, de 3min, legendado, abaixo (com agradecimentos ao canal Charles Darwin, e ao site AlanWatts.org, que cedeu o áudio original ao vídeo em inglês):

 
De uma certa forma, quem já conseguiu algum tipo de esclarecimento a partir das fontes contemplativas orientais (como Ioga ou Budismo, por exemplo), já fez algum tipo de conexão entre esses paradigmas, e talvez não tenha sido fácil. 
 
Imagino que se meus primeiros questionamentos existenciais fossem respondidos com a recomendação de parar de pensar, quando eu não fazia a menor ideia de como a ciência oriental tratava esse assunto, eu ficaria igualmente inconformado. 
 
Não conseguiria ver a conexão entre as duas coisas, e questionaria. Talvez eu pensasse: o que tem a ver parar de pensar com buscar provas sobre a existência? Seria como se eu tivesse um plug de três pinos tentando encaixar numa tomada de dois furos.
 
 

SOBRE PENSAR DEMAIS

Se formos perceber bem, nesse discurso Alan Watts não diz para pararmos de pensar, ele fala que pensamos demais e que estamos presos nesse ininterrupto movimento compulsivo mental, mas não é raro entendermos que isso significa uma recomendação para pararmos de pensar. 
Se a mente pudesse relaxar mais profundamente, aquietar-se naturalmente, e se pudéssemos fazer algum tipo de prática onde pudéssemos ganhar perspectiva sobre ela, sobre o próprio pensar, então uma outra resposta poderia vir, uma que poderia fazer ver que pensar demais é de fato uma compulsão, que escraviza o homem e ofusca profundamente sua visão da realidade... Que distorce o que ele entende por realidade, e que isso obviamente se parece bastante com uma droga. 
O efeito maligno envolvido é justamente o próprio bloqueio a uma outra compreensão da realidade, mas que só se torna evidente (ou seja, que só se torna uma evidência) para aquele cuja mente foi dada a chance de relaxar e ser vista em seu movimento obsessivo. 
Se isso não acontecer, pensar compulsivamente vai ser a única realidade que existe. E não vamos entender que problema há nisso.


"Uma pessoa que pensa todo o tempo não tem nada a pensar exceto pensamentos. Por isso perde contato com a realidade, e vive num mundo de ilusão".

 — Alan Watts, em "Alan Watts Teaches Meditation" (1992)



SOBRE NÃO GOSTAR DE FICAR SOZINHO

Watts também não falou em "não gostar de ficar sozinho", ele falou em  "fugir de si mesmo", que traz uma ênfase muito maior num tipo de medo íntimo que deveria ser no mínimo intrigante ao questionador sério. 
A pergunta poderia ser substituída por "Porque tenho essa reação de fugir da minha própria presença? O que pode haver de tão ruim no meu simples silêncio natural de ser? Será que faz sentido virmos a existir para termos tal desconforto de ficar conosco mesmos, ao ponto de querermos fugir dessa situação? Será que isso não mostra que talvez exista algo de errado justamente nisso?"
Enfim, os questionamentos fazem sentido, dentro de um paradigma. As respostas de Alan Watts idem. Talvez não tenham sido suficientes para o questionador, talvez demonstrem a limitação dos paradigmas, talvez precisemos de mais pontes entre paradigmas, ou adaptadores de pinos iguais entre perguntas a respostas.
 
 

domingo, 17 de setembro de 2017

Quando a espera é transformação

 













Pergunta:
Eu não sou rica nem tenho tudo de que preciso. Mas, mesmo assim, eu me sinto sozinha, confusa e deprimida. Existe alguma coisa que eu possa fazer quando esse tipo de depressão acontece?

Se está deprimida, fique deprimida; não “faça” nada. O que você pode fazer? Qualquer coisa que faça, fará por causa da depressão e isso a deixará mais confusa. Você pode rezar a Deus, mas rezará de modo tão deprimente que deixará até Deus deprimido com as suas orações!

Não cometa essa violência contra o pobre Deus. A sua oração será uma oração deprimente. Como você está deprimida, qualquer coisa que fizer virá acompanhada de depressão. Causará mais confusão, mais frustração, porque você não vai ser bem-sucedida. E, quando não é bem-sucedida, você fica mais deprimida, e esse é um ciclo sem fim.

É melhor ficar com a depressão original do que criar um segundo ciclo e depois um terceiro. Fique com o primeiro; o original é belo. O segundo será falso e o terceiro será um eco longínquo. Não crie esses últimos dois. O primeiro é belo.

Você está deprimida, portanto, é assim que a existência está se manifestando para você neste momento. Você está deprimida, então continue assim. Espere e observe. Você não vai poder ficar deprimida por muito tempo, porque neste mundo nada é permanente.

Este mundo é um fluxo. Ele não pode mudar as suas leis básicas por você, de modo que possa continuar deprimida para sempre. Nada aqui é para sempre; tudo está em movimento e em mudança. A existência é um rio; ela não pode parar para você, para que você possa continuar deprimida para sempre. Ela está em movimento — já mudou. Se você observar a sua depressão, verá que nem ela é a mesma; é diferente, está em mutação.

Só observe, continue com ela e não faça nada. É assim que a transformação acontece: por meio do não-fazer.

Estas defesas nos protegem?

Todos criamos cascas protetoras, para nos defender dos outros. Bichos cascudos têm pouca mobilidade, e machucam os outros. Uma velha tradição diz que o ser humano faz tudo para ter prazer na vida, e evitar a dor. Verdade?
Normalmente não procuramos demonstrar o amor que sentimos, quando amamos. Amor é ruim? Feio? Dói?
Também evitamos o choro, mesmo quando a vontade é grande. Choro é feio? Dói?
A mulher e o homem apaixonados se encontram. Tem vontade de pegar um na mão do outro, afagar o cabelo, abraçar, olhar nos olhos, puxar o nariz, brincar de faz de conta, manifestar ternura, contentamento, alegria, felicidade. Mas em geral não fazem nada disso.Tolhem os gestos mais espontâneos e ingênuos, que não são feios nem doem. Dariam prazer?
De fato (e INFELIZMENTE) na hora das coisas boas ficamos cheios de dedos. Não sabemos senti-las, muito menos nos entregar a elas. E usamos desculpas para esconder nossa incapacidade. Dizemos:
 - Não estava na hora.
- Ele não é a pessoa certa.
- O lugar não era adequado.
- O que iriam pensar?
- Não devo, não sou dessas.
Verdade que procuramos prazer e evitamos a dor?
Acho que acontece o contrário; defendemo-nos de coisas excelentes, fabricando uma casca protetora, verdadeira couraça. Os psicanalistas a chamam de defesa psicológica ou mecanismo de fuga ou proteção? Toda casca faz do indivíduo um especialista? Ele sempre responde as incertezas do mesmo jeito. Por isso, torna-se muito capaz numa direção, e incapaz na outra.
Alguns exemplos: o desdenhoso sabe desdenhar espetacularmente, mas sua habilidade termina aí. O orgulhoso é especialista em colocar-se acima das coisas, e incapaz de vivê-las. O gozador tem grande capacidade em rir de tudo, porém, não sente nada de importante, já que tudo é risível. O sério julga o mundo sério demais e achata a vida. Não sabe rir.
O displicente não leva nada a sério, então, não há nada que lhe interessa. A ingênua diz com espanto nos olhos que tudo é novo, mesmo acontecimentos velhos de muitos anos. E não se enriquece com acúmulo das experiências. O cobrador vive exigindo que as pessoas cumpram sua obrigação, com isso elimina a possibilidade (e risco) das respostas espontâneas.
O desconfiado está sempre desconfiado e afasta as coisas boas que interpreta como malévolas.
A eterna vítima é técnica em queixar-se, portanto não se arrisca a viver uma situação agradável. O Don Juan transforma a vida numa caçada à mulher, porém é incapaz de amar alguém.
O falador interminável teoriza sobre tudo e não vive, a vida é um dicionário. Esses são só alguns exemplos de cascas. Pois há tantas....e todas dificultam a vida. Como se fossem óculos escuros, impossibilitando a visão do arco-iris.
O cavaleiro medieval, armado de imponente armadura, investe contra o índio nu. Casca e não casca. Quem vai ganhar?
Se for preciso passar por uma ponte estreita (ou seja, por um momento difícil) é quase impossível manter o equilíbrio com a armadura. O índio ganha se surgir um perigo inesperado; como é que o cavaleiro se defenderá? Ele só sabe fazer as coisas de um jeito (é um especialista). O índio ganha. Se acontecer um empurrão (isto é, se as pressões sociais forem muitas), o cavaleiro não resiste e cai. O índio ganha.
Além disso, durante todo o tempo da luta, o encouraçado tem a respiração deficiente. Em consequência disso, ele pensa, sente e se mexe mal, pois a casca feita, na verdade, por tensões musculares que prendem, como uma roupa apertada, inibe todas as expansões.
Voltando aos exemplos, como o cavaleiro encouraçado, o desdenhoso, a vítima, o orgulhoso e os outros cascudos, especializados em suas defesas se movem, respiram, se sentem mal, vivem mal. Todo bicho muito cascudo,tartaruga, besouro, morre quando cai de costas. Seria bom aprender esta lição. A casca oprime, limita e sufoca... nos torna burros em todas as reações que fogem a nossa especialidade... nos deixa tensos e sem reações de forma que deixamos a vida passar sem realmente vivê-la, como se passa o tempo.


Autor: J. A. Gaiarsa 
Couraça Muscular do Caráter (Wilhelm Reich) Editora Ágora/ Edição 4 / 1984

domingo, 28 de maio de 2017

condicionamento, apego e acúmulo - parte IV

(…) Estamos condicionados, mas pode o pensamento ultrapassar as próprias limitações? Só o pode se estivermos cônscios de nosso condicionamento. Desenvolvemos certa qualidade de inteligência, em nossa atividade de expansão pessoal: com a nossa avidez, (…) o nosso instinto aquisitivo, (…) os nossos conflitos e penas; criamos uma inteligência voltada à proteção e à expansão do “ego”. Pode essa inteligência compreender o Real, o único capaz de resolver todos os nossos problemas?
(O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 201)

O que é conhecido não é o Real. Nosso pensamento está ocupado numa constante busca de segurança, de certeza. A inteligência que promove a expansão do “ego” busca, por força de sua própria natureza, um refúgio, seja pela negação seja pela afirmação. (…)
 (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 264)

(…) O essencial é sabermos se essa inteligência que foi cultivada na expansão do “eu”, é capaz de perceber ou descobrir a verdade; ou existirá outra espécie de atividade, (…) de percepção capaz de receber a verdade? Para descobrir a verdade, é necessário estarmos livres da inteligência que está ligada à expansão do “ego”, porquanto esta é sempre circunscritiva, sempre limitante.
(O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 201)

Acreditamos que, acumulando conhecimentos e experiências, estaremos capacitados para compreender a vida com todas as suas lutas complexas. (…) Com essa carga do passado, não nos é possível ver as coisas diretamente; (…) Nunca enfrentamos coisa alguma de maneira nova, mas sempre em conformidade com o “velho” (…)
(Percepção Criadora, pág. 100)

(…) Nosso pensamento-sentimento está colhido no processo horizontal do “vir-a-ser”; o que vem a ser está sempre acumulando, sempre adquirindo, sempre sempre a expandir-se. O “ego”, o que vem a ser, o criador do tempo, jamais pode conhecer o Atemporal. O ego (…) é a causa do conflito e do sofrimento.
(O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 176)

(…) Nós acumulamos as lembranças psicológicas e a elas nos apegamos, dando assim continuidade ao “ego”; consequentemente, o ” ego”, o passado, cresce continuamente, pois está sempre acrescentando algo a si próprio. É essa memória cumulativa, o “ego”, que cumpre desaparecer;(…) enquanto o pensamento-sentimento continuar a vir-a-ser, não poderá conhecer a bem-aventurança do Real. (…)
(Idem, pág. 179)

Identicamente, acumulamos conhecimentos na esperança de que nossa pequenina mente será ampliada e sua superficialidade superada, graças à acumulação cada vez maior de erudição e saber. Mas pode o saber libertar a mente (…)? O saber, pois, se torna um obstáculo, em vez de ser um “processo” libertador.
(Viver sem Temor, pág. 52)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Egoísmo, desejo, avidez, prazer...

Egoísmo, Desejo, Avidez, Prazer

Para compreendermos o que é essa atividade egocêntrica, é claro que devemos examiná-la, observá-la, estar cônscios do processo total. Uma vez cônscios dele, torna-se possível a sua dissolução; mas (…) é preciso ter certa compreensão, certa intenção de enfrentar a coisa tal como é, sem a interpretar, modificar, condenar. (…)
(A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 123-124)

Quase todos sabem que essa atividade egocêntrica produz malefícios e caos, mas só estão cônscios disso em certas direções. Ou a observamos noutras pessoas, ignorando nossas próprias atividades (…) Para poder compreender (…) temos de ser capazes de observá-la (…) em diferentes níveis, tanto conscientes como inconscientes (…)
 (Idem, pág. 124)

Só tenho consciência dessa atividade do “eu”, quando estou em oposição, quando a consciência é contrariada, quando o “eu” está desejoso de alcançar um resultado (…) Ou estou cônscio desse centro quando o prazer termina e desejo repeti-lo. Há, então, resistência e um propositado moldar da mente a determinado fim que me dá deleite, satisfação. (…)
(Idem, pág. 124)

Reparemos na atividade egocêntrica que cria divisões; a atividade egocêntrica em torno de um princípio, de uma ideologia, de um país, de uma crença, em torno da família, etc. Essa atividade egocêntrica é separativa e, portanto, causa conflito. Ora, poderá esse movimento da fórmula - que é o “eu” com suas memórias, o centro à volta do qual se constroem os muros - poderá esse “eu”, essa entidade separada com a sua atividade egocêntrica, terminar por completo, não por uma série de atos, mas por um só ato? (…)
(O Mundo Somos Nós, pág. 112)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

a hipnose coletiva e a ilusão do tempo

“Nós vivemos em uma cultura totalmente hipnotizada pela ilusão de tempo, na qual o chamado presente é sentido como uma pequena linha entre o ‘todo poderoso’ passado causativo e o ‘absurdamente importante futuro’. 

Nesta reflexão, Alan Watts consegue nos mostrar a armadilha e a confusão em que a nossa mente nos meteu quando optamos por projetar nossa consciência nas preocupações, nas memórias e expectativas. 

Onde estamos neste preciso momento?  

Querendo terminar rápido esta leitura para ir logo a outro site? 
Há alguma tarefa que deve ser feita daqui a pouco? 
Ou estou aqui em paz, com minha respiração tranquila e completa? 
Ou talvez eu esteja com alguma pressa sutil (ou nem tanto), respiração rasa, sensação de escassez que não se sabe de que exatamente?

Tenho a expectativa que algum texto possa me salvar de algum passado que “me prende” ou me faz sofrer? 


Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia em São Paulo, Instrutor de Meditação e proprietário do Dharma Office.

fonte: http://dharmalog.com/2014/12/01/aqui-e-tudo-nao-ha-nenhum-lugar-ir-toda-existencia-culmina-neste-momento-osho-aqui-e-agora/

sábado, 26 de novembro de 2016

o divã e a espiritualidade

Qual a diferença entre um “bom divã de psicanalista” e um “encontro com a espiritualidade"?

by flaviosiqueira

A mente encontra respostas em um bom divã.
Mas somos mais do que a mente e as respostas mentais são insuficientes.
Posso interromper processos adoecidos, desfazer confusões e isso é ótimo, mas não é sobre isso que falo. Aquietar-se é mais do que um ritual mental.
É uma condição interior que está ligada ao jeito de olhar a vida como um todo. É como percebo Deus em mim, como vejo que sou parte do todo e que o todo faz parte de mim, que estamos vinculados e permito que essa percepção tangencie minha caminhada, molde meus valores e acalme minhas inquietudes.
É transcender a mente, sabendo de que os processos de “iluminação” não são processos conscientes, mentais, intelectuais ou sistemáticos, mas acontecem em dimensões muitas vezes incognoscíveis.
É a percepção de que somos seres fragmentados que se relacionam com o absoluto e por isso mesmo permanecem abertos para enxerga-lo aonde ele se manifesta, aonde ele está, livre de apontamentos intelectuais/doutrinários.
É o encontro consigo mesmo e a constatação de suas limitações que lhe projeta para o além, para o que não cabe em nós, ainda que esteja em nós.
Enxergar-se faz parte do processo, compreender a mente é importante, mas não creio que seja caminho suficiente para uma vida espiritual.
O que eu tenho tentado fazer é simplesmente lembrar as pessoas que o caminho começa dentro, em como me enxergo e consequentemente enxergo o próximo.
Em como enxergo o próximo e consequentemente o mundo.
Em como enxergo o mundo e consequentemente a vida.
Em como enxergo a vida e consequentemente Deus.
No mais, faço de tudo para estimular uma busca individual, pessoal e consciente.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

a projeção de nossas sombras



"Não existe como criar consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, não importa o quão absurdo seja, para evitar encarar a própria alma. Não nos tornamos iluminados apenas imaginando figuras de luz, mas criando consciência da escuridão. Porém, esse procedimento é desagradável, portanto, não popular."
Carl Gustav Jung (1875 a 1961)
-psiquiatra e psicanalista suíço, fundador da Escola Analítica-

sábado, 1 de outubro de 2016

Sua alma tem sede ?



Vá para a escola.
Preste atenção na aula.
Faça a lição de casa.
Estude para a prova.
Vai por mim.
É para o seu bem.
Tire notas altas.
Você vai entrar em uma boa faculdade.
Depois faz Pós. Mestrado. Doutorado.
MBA.
Consegue um bom emprego. Depois outro.
E mais outro.
Ganha mal.
Não faz mal.
Engula sapos. Faz parte. Seja responsável.
Sorria.
Você está sendo filmado.
Compre um carro. Case. Tenha filhos.
Poupe. Guarde para a Melhor Idade.
Previdência Privada.
Vai gozar de uma bela aposentadoria.
Vai ser incrível!
Não vai?


Sua alma tem sedeela anseia por um caminho que faça sentido.
O contínuo escola-emprego engendra um pacto de infelicidade/mediocridade.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

efeito psíquico da gratidão


a citação nos faz refletir: fala de 'entender o sentimento da gratidão'. 
de fato, sem compreendê-lo, não se consegue senti-lo. 
como é que se ensina alguém a ser grato? 
como se ensina um ser a sentir?
diga a alguém: 'seja grato!' ... e ele não vai entender nada.
explique o porquê do bom e do ruim, do doce e do amargo, e talvez... talvez, ele pare prá pensar no assunto.
sinta a gratidão transbordando de você para tudo e para todos, indistintamente, e não será preciso dizer quase nada... as pessoas, por si mesmas, começarão a sentir a gratidão brotar dentro delas.
gratidão, como qualquer sentimento, é contagiante! 
e uma vez contagiados por ela, muita coisa acontece.

domingo, 18 de setembro de 2016

Ciúmes e Inveja

É a mente, a vontade, com seus apegos, desejos, temores, que cria o conflito entre si e a emoção. O amor não é a causa da miséria; são os temores, os desejos, os hábitos da mente que criam a dor, a agonia do ciúme, a desilusão. (…) (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 99)

Tomemos, para exemplo, um sentimento muito comum: o ciúme. Todos sabemos o que é ser ciumento. (…) Quando observais um sentimento, vós sois o observador do ciúme. (…) Tentais modificar o ciúme, alterá-lo. (…) Há, portanto, um ser, um censor, uma entidade separada do ciúme, a qual o observa. Momentaneamente, o ciúme poderá desaparecer, porém volta. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 149-150)

O ciúme, em quase todos nós, se tornou um hábito, e, como todo hábito, tem continuidade. Quebrar o hábito (…) significa estar cônscio do hábito. (…) Nesse estado de total percebimento descobrireis terdes eliminado completamente aquele sentimento habitualmente identificado com a palavra “ciúme”. (Idem, pág. 151)