Mostrando postagens com marcador emoção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador emoção. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de abril de 2022

Krishnamurti: Estar consciente (A Urgência da Mudança)

Estar consciente

Interrogador: Gostaria de saber o que quer dizer com estar consciente porque disse muitas vezes que o seu ensinamento é na realidade sobre o estar consciente. Tentei compreender ouvindo as suas palestras e lendo os seus livros, mas não pareço ir muito longe. Sei que não é uma prática, e compreendo porque é que tão enfaticamente repudia qualquer tipo de prática, exercício, sistema, disciplina ou rotina. Vejo a importância disso, porque caso contrário o estar consciente torna-se mecânico, e no final a mente tornou-se embotada e estúpida. Gostaria, se me permite, de explorar consigo até ao fim esta questão do que significa estar consciente. O senhor parece dar a esta palavra um significado extra, mais profundo, e, contudo parece-me que estamos conscientes do que acontece a toda a hora. Quando estou irado sei-o, quando estou triste sei-o e quando estou feliz sei-o.

Krishnamurti: Pergunto-me se realmente estamos conscientes da ira, da tristeza, da felicidade. Ou estamos conscientes destas coisas somente quando acabam? Vamos começar como se não soubéssemos absolutamente nada acerca disto e começássemos do princípio. Não façamos quaisquer afirmações, dogmáticas ou sutis, mas exploremos esta questão que, se realmente a investigássemos muito profundamente, revelaria um estado extraordinário com o qual a mente provavelmente nunca esteve em contato, uma dimensão não tocada pela consciência superficial. 

Comecemos do superficial e avancemos. Vemos com os nossos olhos, percebemos com os nossos sentidos as coisas à nossa volta – a cor da flor, o colibri sob a flor, a luz deste sol californiano, os milhares de sons de diferentes qualidades e sutilezas, a profundidade e a altitude, a sombra da árvore e a própria árvore. Do mesmo modo sentimos os nossos próprios corpos que são os instrumentos destes diferentes tipos de percepções superficiais, sensoriais. Se estas percepções permanecessem ao nível superficial não haveria nenhuma confusão. Aquela flor, aquele amor-perfeito, aquela rosa, estão ali, e isso é tudo. Não há preferência, não há comparação, não há o gostar ou o não gostar, somente a coisa perante nós sem qualquer envolvimento psicológico. Está clara toda esta percepção ou consciência superficial sensorial? Ela pode ser expandida até às estrelas, até a profundeza dos mares, e até às derradeiras fronteiras da observação científica, usando todos os instrumentos da tecnologia moderna.

Interrogador: Sim, penso que compreendo isso.

Krishnamurti: Vê portanto que a rosa e todo o universo e as pessoas nele, a sua própria mulher se tiver uma, as estrelas, os mares, as montanhas, os micróbios, os átomos, os nêutrons, esta sala, a porta, estão realmente aí. Agora, o passo seguinte; o que você pensa acerca destas coisas, ou o que sente acerca delas, é a sua reação a elas. E a isto chamamos pensamento ou emoção. Portanto a consciência superficial é um assunto muito simples: a porta está ali. Mas a descrição da porta não é a porta, e quando você se envolve emocionalmente na descrição não vê a porta. Esta descrição pode ser uma palavra ou um tratado científico ou uma forte reação emocional; nenhuma destas coisas é a própria porta. É muito importante compreender isto desde o início. Se não o compreendermos ficaremos cada vez mais confusos. A descrição jamais é o descrito. Embora estejamos descrevendo algo agora mesmo, e temos que o fazer, a coisa que estamos a descrever não é a nossa descrição dela, portanto lembre-se disto até ao fim da nossa conversa. Nunca confunda a palavra com a coisa que ela descreve. A palavra nunca é o real, e facilmente nos deixamos levar quando chegamos ao estágio seguinte da consciência em que a coisa se torna pessoal e ficamos emocionados com a palavra. 

Há, portanto a consciência superficial da árvore, do pássaro, da porta, e há a reação a isso, que é pensamento, sentimento, emoção. Ora quando nos tornamos conscientes desta reação, poderíamos chamar a isso uma segunda profundidade de consciência. Há a consciência da rosa, e a consciência da reação à rosa. Muitas vezes não temos consciência desta reação à rosa. Na realidade a consciência que vê a rosa e que vê a reação é a mesma. É um movimento e é errado falar de consciência externa e interna. Quando há uma consciência visual da árvore sem qualquer envolvimento psicológico não há nenhuma divisão na relação. Mas quando há uma reação psicológica à árvore, a reação é condicionada, é a reação da memória passada, das experiências passadas, e a reação é uma divisão na relação. Esta reação é o nascimento daquilo a que chamaremos o “eu” na relação e o “não eu”. É assim que você se coloca em relação ao mundo. É assim que você cria o indivíduo e a comunidade. O mundo é visto, não como é, mas nas suas várias relações com o “eu” da memória. 

Esta divisão é a vida e o florescimento de tudo aquilo a que chamamos o nosso ser psicológico, e deste surge toda a contradição e divisão. Tem a certeza que percebe isto? Quando há a consciência da árvore não há avaliação. Mas quando há uma reação à árvore, quando a árvore é julgada com o gostar e o não gostar, então ocorre nesta consciência uma divisão em o “eu” e o “não eu”, o “eu” que é diferente da coisa observada. Este “eu” é a reação, na relação, da memória passada, das experiências passadas. Ora, pode existir uma consciência, uma observação da árvore, sem qualquer julgamento, e pode existir uma observação da resposta, das reações, sem qualquer julgamento? Desta maneira erradicamos o princípio da divisão, o princípio do “eu” e do “não eu”, tanto ao olhar para a árvore como ao olhar para nós próprios.

Interrogador: Estou tentando compreendê-lo. Vejamos se entendi bem. Há uma consciência da árvore, isso eu compreendo. Há uma reação psicológica à árvore, isso também compreendo. A resposta psicológica é composta por memórias passadas e experiências passadas, é gosto e aversão, é a divisão em a árvore e o “eu”. Sim, penso que compreendo tudo isso.

Krishnamurti: Isto está claro como a própria árvore, ou é simplesmente a clareza da descrição? Lembre-se, tal como já dissemos, o descrito não é a descrição. O que é que tem, a coisa ou a sua descrição?

Interrogador: Penso que é a coisa.

Krishnamurti: Portanto não existe nenhum “eu” que seja a descrição no ver deste fato. Ou existe o “eu” ou o ver, não podem existir ambos. O “eu” é não-ver. O “eu” não consegue ver, não consegue estar consciente.

Interrogador: Posso parar por aqui? Penso que compreendi, mas tenho que deixar que faça sentido. Posso vir outra vez amanhã?

                                                                                              ——————————————————————

Interrogador: Penso que realmente compreendi, não verbalmente, o que disse ontem. Há a consciência da árvore, há a reação condicionada à árvore. E esta reação condicionada é conflito, é a ação da memória e das experiências passadas, é gosto e aversão, é preconceito. Também compreendo que esta reação de preconceito é o nascimento daquilo a que chamamos o “eu” ou o censor. Vejo claramente que o “eu” existe em todas as relações. Agora, existe um “eu” fora das relações?

Krishnamurti: Vimos como as nossas reações estão fortemente condicionadas. Quando pergunta se há um “eu” fora da relação, isso torna-se uma pergunta especulativa enquanto não houver uma libertação destas respostas condicionadas. Vê isso? Portanto a nossa primeira pergunta não é se há um “eu” ou não fora das respostas condicionadas, mas antes, consegue a mente, na qual estão incluídos todos os nossos sentimentos, ficar livre deste condicionamento, que é o passado? O passado é o “eu”. Não existe nenhum “eu” no presente. 

Enquanto a mente estiver funcionando no passado o “eu” existe, e a mente é o passado, a mente é o “eu”. Não pode dizer que há a mente e há o passado, quer seja o passado de há alguns dias atrás ou de há dez mil anos atrás. Portanto estamos perguntando: a mente consegue libertar-se do ontem? Ora há diversas coisas implícitas, não há? Em primeiro lugar há uma consciência superficial. Depois há a consciência da resposta condicionada. Depois há a percepção de que a mente é o passado, de que a mente é esta resposta condicionada. Depois há a questão de se esta mente consegue libertar-se do passado. E tudo isto é uma ação unitária de consciência porque nisto não há conclusões. Quando dizemos que a mente é o passado, esta compreensão não é uma conclusão verbal, mas uma percepção real do fato. Os franceses têm uma palavra para semelhante percepção de um fato, chamam-lhe “constatation”. 

Quando perguntamos se a mente pode ficar livre do passado, esta pergunta está sendo feita pelo censor, pelo “eu”, que é esse mesmo passado?

Interrogador: Pode a mente ficar livre do passado?

Krishnamurti: Quem faz essa pergunta? É a entidade que é o resultado de muitos conflitos, memórias e experiências – é ela que pergunta – ou esta pergunta surge por si mesma, da percepção do fato? Se for o observador que está colocando a questão, então ele está tentando fugir do fato de si próprio, porque ele diz “vivi tanto tempo em sofrimento, em dificuldade, em dor, que gostaria de transcender esta luta constante”. Se ele faz a pergunta a partir desse motivo a sua resposta será o refugiar-se em algum escape. Ou viramos as costas ao fato ou enfrentamo-lo. E a palavra e o símbolo são um virar-lhe as costas. De fato, só o fazer esta pergunta já é um ato de fuga, não é verdade? Se o é, é ruído. Se não houver observador, então há silêncio, uma completa rejeição de todo o passado.

Interrogador: Aqui fico perdido. Como posso apagar o passado em alguns segundos?

Krishnamurti: Tenhamos em mente que estamos discutindo o estar consciente. Estamos a falar juntos desta questão do estar consciente. Há a árvore, e a reação condicionada à árvore, que é o “eu” na relação, o “eu” que é o próprio centro do conflito. Agora, é este “eu” que está a fazer a pergunta? – este “eu” que, tal como dissemos, é a própria estrutura do passado? Se a pergunta não for feita a partir da estrutura do passado, se a pergunta não for feita pelo “eu”, então não existe nenhuma estrutura do passado. Quando a estrutura faz a pergunta ela está a funcionar em relação ao facto de si própria, tem medo de si própria e age para fugir de si própria. Quando esta estrutura não faz a pergunta, não está a agir em relação a si própria. 

Para recapitular: há a árvore, há a palavra, a reação à árvore, que é o censor, ou o “eu”, que vem do passado; e depois há a pergunta: consigo fugir de toda esta agitação e agonia? Se o “eu” estiver a fazer esta pergunta, está a perpetuar-se a si mesmo. Agora, estando consciente disso, ele não faz a pergunta! Estando consciente e vendo todas as implicações disso, a pergunta não pode ser feita. Ele não faz de todo a pergunta por que vê a armadilha. Agora, vê que toda esta consciência é superficial? É a mesma que a consciência que vê a árvore.

Interrogador: Existe algum outro tipo de consciência? Existe alguma outra dimensão para a consciência?

Krishnamurti: Mais uma vez sejamos cautelosos, que fique muito claro que não estamos fazendo esta pergunta por nenhum motivo. Se existir um motivo estamos de volta à armadilha da resposta condicionada. Quando o observador está totalmente silencioso, não tornado silencioso, há certamente uma qualidade de consciência diferente que surge.

Interrogador: Que ação poderia haver em quaisquer circunstâncias sem o observador – que pergunta ou que ação?

Krishnamurti: Mais uma vez, está fazendo esta pergunta deste lado do rio, ou da outra margem? Se estiver na outra margem, não fará esta pergunta; se está naquela margem, a sua ação será a partir daquela margem. Portanto há uma consciência desta margem, com toda a sua estrutura, a sua natureza e todas as suas armadilhas, e tentar fugir da armadilha é cair noutra armadilha. E que total monotonia há em tudo isso! O estar consciente mostrou-nos a natureza da armadilha, e, por conseguinte há a rejeição de todas as armadilhas; portanto a mente está agora vazia. Está vazia do “eu” e da armadilha. Esta mente tem uma qualidade diferente, uma dimensão diferente de consciência. Esta consciência não tem consciência de que está consciente.

Interrogador: Meu deus, isto é demasiado difícil, Está dizendo coisas que parecem verdadeiras, que soam como verdadeiras, mas eu ainda não estou aí. Pode colocar as coisas de uma maneira diferente? Pode fazer-me sair da minha armadilha?

Krishnamurti: Ninguém pode fazê-lo sair da sua armadilha – nenhum guru, nenhuma droga, nenhum mantra, ninguém, incluindo eu – ninguém, especialmente eu. Tudo o que tem a fazer é estar consciente do princípio ao fim, não ficar desatento no meio. Esta nova qualidade de consciência é a atenção, e nesta atenção não existe nenhuma fronteira criada pelo “eu”. Esta atenção é a mais elevada forma de virtude. Por conseguinte é amor. É inteligência suprema, e não pode haver atenção se você não for sensível à estrutura e à natureza destas armadilhas artificiais.

 J. Krishnamurti – A Urgência da Mudança

(Título original: The Urgency of Change – Traduzido por Isabel Gonçalves)

 

fonte: https://textosk.wordpress.com/trechos-curtos/estar-consciente/

terça-feira, 25 de agosto de 2020

traumas de infância e o "corpo de dor" - Eckhart Tolle

Alguém que na infância tenha sido negligenciado ou abandonado por um dos pais ou por ambos desenvolverá, provavelmente, um corpo de dor que será estimulado por qualquer situação que lembre, até mesmo de forma remota, o sofrimento primordial do abandono. 

Tanto um amigo que se atrase cinco minutos para pegar a pessoa no aeroporto, quanto um cônjuge que chega tarde em casa podem deflagrar um ataque violento do seu corpo de dor. 

Se seu parceiro ou cônjuge o deixa ou morre, a dor emocional que esse indivíduo sente vai muito além da que é natural em circunstâncias como essas. Pode ser uma angústia intensa, uma depressão duradoura e incapacidade ou uma raiva obsessiva. 

Uma mulher que tenha sido violentada pelo próprio pai na infância talvez perceba que seu corpo de dor se torna facilmente ativo em qualquer relacionamento íntimo com um homem. 
Por outro lado, a emoção que constitui seu corpo de dor é semelhante ao do seu pai. O corpo de dor dessa mulher pode ter uma atração magnética por alguém que ela sinta que lhe dará mais do mesmo sofrimento. E, algumas vezes, ela pode confundir essa dor com a sensação de estar apaixonada.
Um homem que foi uma criança indesejada e não recebeu amor nem o mínimo de cuidado e de atenção da mãe desenvolve um corpo de dor marcado por uma profunda ambivalência – por um lado, apresenta um intenso e insatisfeito desejo pelo amor e pela atenção da mãe e, por outro, um forte rancor em relação a ela por ter lhe negado aquilo de que ele precisava desesperadamente. 
No caso do seu corpo de dor – uma forma de sofrimento emocional. Ele a manifesta por meio de uma compulsão a “conquistar e seduzir” quase toda mulher que vem a conhecer e, dessa maneira, pretende obter o amor feminino pelo qual seu corpo de dor anseia. Esse homem se transforma quase num especialista em sedução. 
No entanto, assim que um relacionamento se torna íntimo ou seus avanços são rejeitados, a raiva do seu corpo de dor em relação à mãe vem à tona e sabota a relação.

extraído do livro  

"Um Novo Mundo - O Despertar de uma Nova Consciência"

quarta-feira, 27 de junho de 2018

O que é “iluminação"? por Eckhart Tolle

Afinal, o que significa ser "iluminado"?



A palavra iluminação transmite a ideia de uma conquista sobre-humana – e isso agrada ao ego –, mas é simplesmente o estado natural de sentir-se em unidade com o Ser. É um estado de conexão com algo imensurável e indestrutível. Pode parecer um paradoxo, mas esse “algo” é essencialmente você e, ao mesmo tempo, é muito maior do que você. 

A iluminação consiste em encontrar a verdadeira natureza por trás do nome e da forma. A incapacidade de sentir essa conexão dá origem a uma ilusão de separação, tanto de você mesmo quanto do mundo ao redor. 

Quando você se percebe, consciente ou inconscientemente, como um fragmento isolado, o medo e os conflitos internos e externos tomam conta da sua vida. (…)Se você é governado pela mente, embora não tenha escolha, vai sofrer as consequências da sua inconsciência e criar mais sofrimento. Você vai carregar o fardo do medo, das disputas, dos problemas e do sofrimento. Até que o sofrimento force você, no final, a sair do seu estado de inconsciência.


- Eckhart Tolle 

(extraído da obra "O Poder do Agora")


domingo, 28 de maio de 2017

Dicas para compreender a mente e o Ser

A mente costuma criar muitos problemas.  
Mas prá quem ela os cria?

A mente poderia criar problemas para você se você não tivesse interesse nela?
A mente traz problemas para você... mas quem é "você"?
você responde seu nome... mas quem deu este nome?
você não é seu nome...
você pode ter consciência de seu corpo...
então seu corpo não é você...
você pode observar sua mente -pensamentos, emoções-
logo, sua mente não é você.
quando um pensamento surge, quem o percebe já estava aqui antes dele surgir.

O pensamento não estava. Ele vem e vai embora.
E você permanece aqui.
Você (o Ser) não é objeto dos sentidos.
Você já está aqui antes de qualquer pensamento. Você é mais rápido que o pensamento mais veloz.
Então você não é o pensamento, nem o corpo.
Você está aqui para observá-los: a personalidade, as memórias...
Então você é outra coisa.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Pierre Lévy: a raiz do sofrimento




Qual a relação entre tecnologia e o ato de respirar? Toda, segundo Pierre Lévy.

Mundialmente reconhecido por suas teorias sobre a relação entre o ser humano e a tecnologia, o filósofo francês tem, em meio às obras diretamente ligadas à cibercultura, um livro que pode intrigar seus admiradores. É O fogo liberador, que apresenta a incursão pelo caminho espiritual de Pierre Lévy e de sua esposa, a pintora e ilustradora Darcia Labrosse.


Em entrevista ao programa Roda Viva (2001), Lévy explica como filosofia oriental e tecnologia estão intimamente relacionadas:


"Sou um filósofo. E, desde sempre, a filosofia se interessa por problemas sociais e políticos, problemas de conhecimento, de evolução histórica, pelo sentido da história etc. Mas, a filosofia também se interessa pela sabedoria, pela felicidade. E, para mim, digamos, é a continuação do meu trabalho de filósofo.
Então, no fundo, nos trabalhos sobre a revolução epistemológica, social e cultural trazida pelas novas tecnologias, trata-se de analisar um tipo de abertura do espírito, expansão do conhecimento e da consciência em uma esfera exterior, uma esfera concreta, uma esfera social. E, com o livro O fogo liberador, não é mais a exploração da liberdade exterior, mas a exploração da liberdade interior."
Como colocamos no início do texto, O fogo liberador propõe exercícios conhecidos por praticantes de meditação, mostrando como a observação do presente e o simples ato de respirar podem revelar o sentido da existência. 

domingo, 17 de julho de 2016

Dicas sobre a mente, o pensamento e o Ser: Mooji

A mente costuma criar muitos problemas. Mas prá quem ela os cria?

A mente poderia criar problemas para você se você não tivesse interesse nela?
A mente traz problemas para você... mas quem é "você"? 
você responde seu nome... mas quem deu este nome?
você não é seu nome...
você pode ter consciência de seu corpo; então ele tampouco é você...
você pode observar sua mente -pensamentos, emoções- logo, ela não é você.
quando um pensamento surge, quem o percebe já estava aqui antes dele surgir. O pensamento não estava. Ele vem e vai embora. E você permanece aqui.
Você (o Ser) não é objeto dos sentidos. Você já está aqui antes de qualquer pensamento. Você é mais rápido que o pensamento mais veloz.
Então você não é o pensamento, nem o corpo. Você está aqui para observá-los : a personalidade, as memórias...
Então você é outra coisa.
A memória é algo muito poderoso porque para muitos, suas vidas se resumem a um conjunto de memórias. Para muitas pessoas, quando falam é basicamente sobre o passado (memória).
Pergunto:
Você pode falar sem memória? sem projeção? você pode falar sem esperança (expectativa)? sem passado? sem futuro? sem julgamento?
Quando puder falar assim, então é algo novo.
Tudo que está na sua memória... jogue fora!
Jogue fora tudo e você ainda está aqui. 
Enquanto "quê" você está aqui?
Você pode jogar você fora? Por acaso, você poderia livrar-se de você?

O Tempo
O que é o tempo sem você?
Você é aquele que observa o tempo.
Por acaso o relógio sabe que horas são? Você é que o percebe (o tempo).
O tempo não está consciente de si mesmo...
a distância não está consciente de si mesma...
o pensamento não está consciente de si mesmo.
Nenhum pensamento trabalha para si mesmo.

Onde exatamente você está?
se você não é o corpo, quem é você?

Se tomasse uma droga que momentaneamente fizesse com que não conseguisse mais identificar seu corpo, você acha que seu corpo sabe que é seu?

A mente vai fazer barulho com qualquer brinquedo, com qualquer alimento que você der a ela. A mente não tem como crescer sem o combustível que você dá a ela.
O alimento da mente é o seu interesse por ela... é a atenção que dispensa a ela.
Ela vive a partir de você! Temos que saber disso.
O barulho (da mente) se alimenta da sua atenção.
A mente tira seu poder, da sua crença, da sua identidade (identificação).
A identidade energiza a mente. Para tirar poder dela, mantenha sua atenção na neutralidade. 
Os pensamentos (positivos ou negativos) que receberam muita energia de você tem um magnetismo tremendo (e assim parecem poderosos). Mas um pensamento não pode ser poderoso se não há identidade (identificação)...
Se o você não acredita nele... se não lhe dá reconhecimento... atenção...
quanta realidade pode ter esse pensamento?
Por isso, quanto mais seus pensamentos se tornarem neutros, ou quanto mais você manter sua atenção neutra, tanto mais a paz prevalecerá, não a paz e a felicidade que tem uma história (sobre algo), mas a alegria, a felicidade de Ser. 

O corpo funciona por si mesmo.
O pensamento também surge espontaneamente. Se os pensamentos surgem, isso em si não se chama pensar. O pensar começa quando a identificação encontra o pensamento e começa a criar... isso é pensar.
Mas mesmo o surgimento do pensamento não significa nada em si se você se identifica com a pura consciência.
Para onde a atenção aponta, aquilo se torna experiência.
Então, observa a experiência, mas não se identifique com ela... permaneça em paz.
Isso é ir além da forma: não fascinar-se com as coisas ou com o pensamento que advém a partir destas coisas. 
Enquanto está fascinado, sente como se tais pensamentos fossem muito íntimos.

Não é fácil a nossa mente aceitar que já somos consciência. Você já é a pura consciência.
Veja essas flores aqui: são belas, tem seu perfume, você pode reconhecê-las e admirá-las... Você pode perceber cada coisa sem criar "relacionamento especial" com as coisas.
Ser feliz é muito simples. O difícil é deixar ir seus apegos e condicionamentos, porque temos afeição a eles.

(trecho do Satsang de Mooji em Belo Horizonte, 2009)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

um quarto de segundo: o livre arbítrio

Vamos revisar como os sentimentos se originam. Primeiramente, ocorre um contato direto com o estímulo sensorial, e isto serve de base para o sentimento subsequente. Por exemplo, primeiro você vê uma pessoa passando pela porta, e então reconhece a pessoa como um velho amigo ou talvez como uma ameaça; isto traz um sentimento como resposta. Uma vez que esse sentimento surge, pode por sua vez, dar origem a um desejo ou uma aversão com relação ao objeto, que não é igual ao sentimento original. 
Então, a resposta de desejo ou aversão pode levar a alguma outra coisa, como por exemplo, à intenção. Muitos desejos não resultam em intenções.
Quando sentar em meditação, você poderá notar sensações sutis e efêmeras, que são experimentadas com um certo tom de sentimento. Isso pode levar à atração, aversão ou indiferença, e esses sentimentos podem ou não dar origem a uma intenção e uma ação subsequente. 
Normalmente, essa sequência completa de eventos está unida porque nós, inconscientemente, nos identificamos com ela, ao invés de observá-la com cuidado. Por meio da aplicação da atenção plena discriminativa e cuidadosa, você pode distinguir esses eventos na sequência em que surgem.

Como explicou a psicoterapeuta Tara Bennett-Goleman, a aplicação cuidadosa da atenção plena aos sentimentos, nos oferece uma alternativa à repressão, supressão e expressão compulsiva das nossas emoções. Citando a pesquisa do neurocirurgião Benjamin Libet, Bennett-Goleman nos mostra que do momento em que surge uma intenção, a ação pretendida tem início um quarto de segundo depois. 

Tara Bennett-Goleman comenta, “Esta janela é crucial: é o momento em que temos a capacidade de seguir o impulso ou rejeitá-lo. Pode-se dizer que o arbítrio reside aqui, neste quarto de segundo.”

~ Alan Wallace – Genuine Happiness

FONTE:
http://equilibrando.me/

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Você é feliz? Por que você acha é? Ou por que acha que não é?


Hoje você se sente alegre... amanhã está triste...

Mas, alegria é felicidade?

Conhecemos mesmo isso que chamamos 'felicidade'?

Dia desses, alguém perguntou: 

Por que é  tão difícil ser feliz? 



Para entender bem toda essa questão, vamos partir dos conceitos básicos: 

a tristeza é uma emoção! ponto.


Como qualquer emoção, pode portanto, ser estimulada e até mesmo mensurada quimicamente. Seus sintomas são até perceptíveis fisicamente. Há até drogas que simulam ou estimulam as condições fisicoquímicas e hormonais que nosso cérebro experimenta quando está 'processando' emoções!


Outro detalhe! O surgimento de uma emoção qualquer (tristeza, alegria, medo, paixão, raiva...) está  sempre condicionada à presença de estímulos que muitas vezes não estão sob nosso controle.  

Tais fatores (chamados exógenos) geralmente advém do ambiente que nos cerca. Algo modifica a química de nosso corpo físico e pronto: lá estamos nós chorando, sorrindo, com medo ou com raiva... pode ser algo que nos disseram, talvez algo no clima, algo que comemos (ou que não pudemos comer), uma música, um filme, um acidente ou qualquer circunstância agradável/desagradável. 

Assim, alguns poderão deduzir que tais acontecimentos geraram as condições para que a emoção aconteça em nosso corpo, embora a gente sinta a emoção também a nível psicológico... quando rimos, choramos, nos apaixonamos, ficamos com medo, assustados, com raiva... dizemos: 'isto' ou 'aquilo' foi a causa.


Mas, e quanto a tal felicidade? Podemos dizer o mesmo dela? 
Comecemos pela questão mais básica: Por acaso, algum cientista já "mediu" a felicidade? Ou já conseguiu definir suas causas físicas? 
Você poderia definir sintomas específicos de sentimentos como felicidade, liberdade ou paz? Não... você não pode. 
Nem você, nem ninguém. Felicidade, paz, amor ou liberdade, são sentimentos indescritíveis! Todo mundo que já sentiu, sabe que é assim.
O problema então começa na confusão, proposital ou não, que se faz com os termos “emoção” e “sentimento”. Tal confusão é proposital  em alguns casos, pois assim se ganha mais dinheiro (você já parou prá pensar em quanto dinheiro se gasta com as famosas pílulas de felicidade?).
Pois é! há hoje muitas drogas químicas que prometem anestesiar a dor da sua alma. Será que conseguem?

Felicidade, como a paz ou a liberdade, não são simples estados emocionais, mas sentimentos que estão bem além da dimensão meramente animal/corporal. É por isso que "ser feliz" não se confunde com "estar alegre". Do mesmo modo, "infelicidade" (outro nome para o vazio existencial) não se confunde com "estar triste".

Qualquer animal (inclusive o bicho humano) pode vivenciar momentos de alegria ou de tristeza, pois é assim que nosso corpo, nossa estrutura biológica reage ante acontecimentos prazerosos ou dolorosos.

Por que toda essa conversa sobre emoção e sentimento?

Considerando que felicidade não se confunde com emoção, é valiosíssimo compreender, por exemplo, que podemos experimentar felicidade ou paz, mesmo em condições adversas: posso até estar enfermo, em dificuldade financeira, posso estar preso em um campo de concentração, e mesmo assim sentir felicidade (embora as circunstâncias não me permitam estar alegre). 

Do mesmo modo, posso ter todo o conforto que o dinheiro possa comprar, posso ter boa comida, boa educação e bons amigos, mas ainda assim experimentar infelicidade.

É por isso que felicidade não é sinônimo de alegria. Felicidade não tem definição clara, porque não se pode mensurá-la quimicamente, nem somaticamente. 
Felicidade tem mais a ver com paz, contentamento, gratidão e muito mais... expressões que só fazem sentido na ausência do ego, quando a mente silencia, quando os desejos se ausentam. Felicidade é sentimento de plenitude (algo muito raro, é verdade). 

Mas, se sua sensação de plenitude é efêmera ou fugaz, ou se ela está sempre condicionada a algum fator externo, então esqueça! Você ainda não conhece o que é felicidade.
Qualquer pessoa apaixonada pode experimentar alegria efusiva, grande ansiedade, coração batendo forte, calor, frio na barriga, excitação do corpo etc. 
Mas basta que seu objeto de desejo lhe seja tirado ou que este se mostre incapaz de atender suas exigências, e logo tanta alegria e êxtase se desfaz em frustração, raiva e muita tristeza. 

O que aprendemos com tudo isso?

1. Quem vive meramente na dimensão das emoções, logo descobre que acaba sempre vítima das circunstâncias e da própria instabilidade típica do mundo mutável em que vivemos;

2. Quem vive absorvido por emoções, oscila como pêndulo: ora está num extremo, ora noutro... ora alegre em demasia, ora dramaticamente triste ou decepcionado... vítima sempre pelas forças mecânicas da própria natureza; 

3. Felicidade é um estado de ausência de tensão emocional: sem a ansiedade desgastante da expectativa, sem o medo infernal de perder o objeto de seu desejo;

Como conceituar felicidade? 

Talvez seja mais fácil dizer o que ela não é?
Vamos lá! Na presença de nossos medos, de nossos apetites, ambições, desejos, aflições, mágoas e memórias é simplesmente impossível ser feliz.   No máximo, oscilamos entre a tristeza e a alegria sucessivamente.

Quer ser feliz?

1. não crie "regras para ser feliz"... E pare de comprar regras de outras pessoas. Elas geralmente saem caro demais! Além disso, quem vendeu as regras prá você provavelmente não faz a mínima ideia do que seja felicidade;

2.não se compare... com NINGUÉM. Toda comparação é odiosa. Bem que já fizeram isso com você, desde que você era bem pequenininho(a), de tal modo que hoje, você tem a tendência de perseguir "ideais" inatingíveis de pessoas magníficas, mega-inteligentes, belíssimas, cultas, fortes, etc, que foram plantadas na mente... então, lembre-se!! super-heróis só existem na fantasia.

3. não julgue... NINGUÉM, mas ninguém MESMO! Nem a si próprio. Nada de construtivo nasce do julgamento e da condenação. Deixe isso para quem se julga deus. Julgar só serve para atribuir culpa, culpa e punição, punição e dor. Se julgamento e culpa resolvessem algum problema seu, já viveríamos em um paraíso.

4. procure a felicidade, mas nunca fora de você mesmo. 
Procure-a no silêncio interior, não no discurso da mente que faz barulho;


Perceba que tudo de que precisa para ser feliz já está EM você, já FAZ PARTE de você. Já sempre esteve realizado em você!
Você não precisa de mais certificados, de mais títulos, de mais credenciais, de mais rótulos, de mais fórmulas, de mais técnicas, de mais métodos, de mais saberes... 
Afinal, sua mente não precisa de mais alimento. Ela já está obesa.

Quer paz? procure-a no único lugar real onde ela pode ser encontrada: em você! Em sua própria casa! Há outro lugar que seja seu?
Quer satisfação, plenitude, liberdade? 
Procure em você!
Quer Deus?
Procure em você!

Por que, lhe garanto: se não encontrar isso tudo primeiro dentro de você, tampouco o achará fora.