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domingo, 11 de setembro de 2022

Hsu Yun - Examine a Origem do Pensamento

"Examinar a origem do pensamento" é uma forma de observar a causa do sofrimento, da infelicidade.

Esse "pensamento fonte" é a chave para compreender o movimento de todos os nossos eus psicológicos. É o que Hsu Yun chamada de "Hua t'ou".

Todas as formas "Hua t'ou" indicam em direção à questão mais básica de todas, a qual devemos estar determinados a encontrar a resposta:  “Quem sou eu?”
Não importando como a questão é colocada,  a resposta não pode ser dada simplesmente com a mente, de forma intelectual.
O que é isto que torna minha mente consciente de ser eu?
O que é a mente, afinal?
O que é a consciência? 
Como sei quem eu sou?

 

 

Hsü Yun ou Xuyun (1840 - 1959), foi durante seus 119 anos de vida, um dos mestres do budismo Chan (Zen) mais influentes da China. Sua primeira exposição ao budismo foi durante o funeral de sua avó. 

Logo após, ele passou a ler sutras e a fazer peregrinações. Aos 14 anos Hsu Yun anunciou sua vontade de desistir do mundo material em troca de uma vida monástica, porém, com forte oposição posta pela sua família, teve de esperar até 20 anos, quando partiu ao mosteiro de Gu Shan, onde recebeu sua ordenação como monge através do grande mestre Miao-lian. Durante seus anos como eremita, Hsu Yun fez algumas de suas descobertas mais profundas. 

Disse ele em sua autobiografia: “Na pureza da minha 'unicidade da mente', eu esqueci completamente do meu corpo. A partir daquele momento, quando todos os meus pensamentos foram apagados, minha prática dia e noite mostrou meus passos, tornando-se tão rápidos, como se eu estivesse voando pelo ar. Uma noite, depois de meditar, abri meus olhos e de repente vi um brilho comparável à luz do dia. À medida que o espaço era pulverizado, a mente louca parou”. 

Hsu Yun tornou-se particularmente conhecido pelos seus esforços de espalhar o Dharma ao longo da sua excepcionalmente longa vida. Trabalhando incansavelmente, como um bodhisattva, Hsu Yun ensinou estudantes, expôs sutras e dedicou-se à restauração de templos antigos. 

Os ensinamentos de Hsu Yun foram absorvidos por grande parte da Ásia e espalhados por todo o mundo, tornando seu nome uma autoridade no Budismo da Terra Pura.

 


 Trechos retirados do livro “Nuvem Vazia”, de Hsu Yun.

“Um Hua wei ou ‘palavra cauda’ traça um pensamento de volta à sua origem. Ele, também, pode ser bastante útil. Por exemplo, uma criança na companhia de seus amigos pergunta a seu pai, digamos: ‘Podemos ir à praia neste fim de semana?’, e seu pai responde rudemente: ‘Não me amole!’, e empurra a criança, causando nela um embaraço e a dor da rejeição. A resposta pode ser um Hua wei. 

O homem deve se perguntar, ‘Por que respondi ao meu filho dessa forma? Por que fiquei repentinamente tão agitado?’. Ele sabe que antes de seu filho se aproximar ele estava de bom humor. Assim, o que havia na pergunta que o deixou agitado? Ele, assim, começa a rememorar cada uma de suas palavras. Foi a palavra ‘fim de semana’? O que ele associou com essa palavra? Se não puder encontrar nada, ele tenta a palavra ‘praia’. E começa a se lembrar de suas experiências na praia. Ele pensa sobre os muitos eventos e, de repente, se lembra de um que o perturbou. Ele não quer pensar sobre isso, ainda assim, a disciplina do Hua wei requer que examine esse evento. Por que a memória desse fato o perturbou? O que era tão desconfortável nela? Ele continua a investigar esse evento até chegar na causa raiz de sua perturbação. 

Caros amigos, essa causa-raiz certamente envolve dano ao seu orgulho, à sua autoestima. E, assim, o homem se lembra e de alguma forma revive a experiência, só que, agora, ele é capaz de ver de uma perspectiva diferente, mais madura. Talvez uma experiência amarga que, de fato, envolveu um tratamento duro que ele recebeu de seu próprio pai! De qualquer forma, certamente verá que transferiu a dor de sua experiência na praia, na infância, para seu filho inocente. Ele será capaz de corrigir a sua resposta mal-educada e, dessa forma, o seu caráter crescerá ou melhorará. 

Algumas vezes, o Hua t'ou funciona como uma instrução, um tipo de guia que nos ajuda a lidar com os problemas da vida. Esse Hua t'ou nos sustenta e nos dirige pela viagem na dura estrada até a iluminação”. Hsu Yun. 

“Mantenha sua mente no Hua t'ou sempre que você estiver fazendo qualquer coisa que não requeira sua completa atenção. Naturalmente, se você está dirigindo um avião, não queira começar a pensar sobre o Hua t'ou. Descobrir se um cachorro tem a Natureza de Buddha ou não, não será de muita valia se você despedaçar o avião! Um automóvel é algo que também requer sua completa atenção. Você não pode se arriscar a matar os pequenos egos das outras pessoas, só porque você está tentando acabar com o seu! Mas há várias ocasiões durante o dia em que você pode tranquilamente trabalhar com seu Hua t'ou”. Hsu Yun. 

“As pessoas pensam que o mundo as incomoda. Elas não entendem que são as guardiãs de suas próprias mentes, que podem facilmente fechar e trancar as portas de suas mentes. Se as pessoas se intrometem é porque o guardião deixou as portas abertas”. Hsu Yun.

“O Buddha viu que a ignorância de uma vida não iluminada é uma condição de doença. Suas Quatro Nobres Verdades têm uma conotação médica. Primeiramente, a vida no samsara é amarga e dolorosa. Segundo, o desejo é a causa dessa amargura e dor. Terceiro, há uma cura para essa doença. Quarto, a cura é seguir o Caminho Óctuplo. Primeiro, precisamos reconhecer que estamos todos doentes. Segundo, necessitamos de um diagnóstico. Terceiro, necessitamos estar certos de que aquilo que está errado conosco responderá ao tratamento. Quarto, necessitamos de um regime terapêutico”. - Hsu Yun. 

terça-feira, 12 de abril de 2022

Krishnamurti: Estar consciente (A Urgência da Mudança)

Estar consciente

Interrogador: Gostaria de saber o que quer dizer com estar consciente porque disse muitas vezes que o seu ensinamento é na realidade sobre o estar consciente. Tentei compreender ouvindo as suas palestras e lendo os seus livros, mas não pareço ir muito longe. Sei que não é uma prática, e compreendo porque é que tão enfaticamente repudia qualquer tipo de prática, exercício, sistema, disciplina ou rotina. Vejo a importância disso, porque caso contrário o estar consciente torna-se mecânico, e no final a mente tornou-se embotada e estúpida. Gostaria, se me permite, de explorar consigo até ao fim esta questão do que significa estar consciente. O senhor parece dar a esta palavra um significado extra, mais profundo, e, contudo parece-me que estamos conscientes do que acontece a toda a hora. Quando estou irado sei-o, quando estou triste sei-o e quando estou feliz sei-o.

Krishnamurti: Pergunto-me se realmente estamos conscientes da ira, da tristeza, da felicidade. Ou estamos conscientes destas coisas somente quando acabam? Vamos começar como se não soubéssemos absolutamente nada acerca disto e começássemos do princípio. Não façamos quaisquer afirmações, dogmáticas ou sutis, mas exploremos esta questão que, se realmente a investigássemos muito profundamente, revelaria um estado extraordinário com o qual a mente provavelmente nunca esteve em contato, uma dimensão não tocada pela consciência superficial. 

Comecemos do superficial e avancemos. Vemos com os nossos olhos, percebemos com os nossos sentidos as coisas à nossa volta – a cor da flor, o colibri sob a flor, a luz deste sol californiano, os milhares de sons de diferentes qualidades e sutilezas, a profundidade e a altitude, a sombra da árvore e a própria árvore. Do mesmo modo sentimos os nossos próprios corpos que são os instrumentos destes diferentes tipos de percepções superficiais, sensoriais. Se estas percepções permanecessem ao nível superficial não haveria nenhuma confusão. Aquela flor, aquele amor-perfeito, aquela rosa, estão ali, e isso é tudo. Não há preferência, não há comparação, não há o gostar ou o não gostar, somente a coisa perante nós sem qualquer envolvimento psicológico. Está clara toda esta percepção ou consciência superficial sensorial? Ela pode ser expandida até às estrelas, até a profundeza dos mares, e até às derradeiras fronteiras da observação científica, usando todos os instrumentos da tecnologia moderna.

Interrogador: Sim, penso que compreendo isso.

Krishnamurti: Vê portanto que a rosa e todo o universo e as pessoas nele, a sua própria mulher se tiver uma, as estrelas, os mares, as montanhas, os micróbios, os átomos, os nêutrons, esta sala, a porta, estão realmente aí. Agora, o passo seguinte; o que você pensa acerca destas coisas, ou o que sente acerca delas, é a sua reação a elas. E a isto chamamos pensamento ou emoção. Portanto a consciência superficial é um assunto muito simples: a porta está ali. Mas a descrição da porta não é a porta, e quando você se envolve emocionalmente na descrição não vê a porta. Esta descrição pode ser uma palavra ou um tratado científico ou uma forte reação emocional; nenhuma destas coisas é a própria porta. É muito importante compreender isto desde o início. Se não o compreendermos ficaremos cada vez mais confusos. A descrição jamais é o descrito. Embora estejamos descrevendo algo agora mesmo, e temos que o fazer, a coisa que estamos a descrever não é a nossa descrição dela, portanto lembre-se disto até ao fim da nossa conversa. Nunca confunda a palavra com a coisa que ela descreve. A palavra nunca é o real, e facilmente nos deixamos levar quando chegamos ao estágio seguinte da consciência em que a coisa se torna pessoal e ficamos emocionados com a palavra. 

Há, portanto a consciência superficial da árvore, do pássaro, da porta, e há a reação a isso, que é pensamento, sentimento, emoção. Ora quando nos tornamos conscientes desta reação, poderíamos chamar a isso uma segunda profundidade de consciência. Há a consciência da rosa, e a consciência da reação à rosa. Muitas vezes não temos consciência desta reação à rosa. Na realidade a consciência que vê a rosa e que vê a reação é a mesma. É um movimento e é errado falar de consciência externa e interna. Quando há uma consciência visual da árvore sem qualquer envolvimento psicológico não há nenhuma divisão na relação. Mas quando há uma reação psicológica à árvore, a reação é condicionada, é a reação da memória passada, das experiências passadas, e a reação é uma divisão na relação. Esta reação é o nascimento daquilo a que chamaremos o “eu” na relação e o “não eu”. É assim que você se coloca em relação ao mundo. É assim que você cria o indivíduo e a comunidade. O mundo é visto, não como é, mas nas suas várias relações com o “eu” da memória. 

Esta divisão é a vida e o florescimento de tudo aquilo a que chamamos o nosso ser psicológico, e deste surge toda a contradição e divisão. Tem a certeza que percebe isto? Quando há a consciência da árvore não há avaliação. Mas quando há uma reação à árvore, quando a árvore é julgada com o gostar e o não gostar, então ocorre nesta consciência uma divisão em o “eu” e o “não eu”, o “eu” que é diferente da coisa observada. Este “eu” é a reação, na relação, da memória passada, das experiências passadas. Ora, pode existir uma consciência, uma observação da árvore, sem qualquer julgamento, e pode existir uma observação da resposta, das reações, sem qualquer julgamento? Desta maneira erradicamos o princípio da divisão, o princípio do “eu” e do “não eu”, tanto ao olhar para a árvore como ao olhar para nós próprios.

Interrogador: Estou tentando compreendê-lo. Vejamos se entendi bem. Há uma consciência da árvore, isso eu compreendo. Há uma reação psicológica à árvore, isso também compreendo. A resposta psicológica é composta por memórias passadas e experiências passadas, é gosto e aversão, é a divisão em a árvore e o “eu”. Sim, penso que compreendo tudo isso.

Krishnamurti: Isto está claro como a própria árvore, ou é simplesmente a clareza da descrição? Lembre-se, tal como já dissemos, o descrito não é a descrição. O que é que tem, a coisa ou a sua descrição?

Interrogador: Penso que é a coisa.

Krishnamurti: Portanto não existe nenhum “eu” que seja a descrição no ver deste fato. Ou existe o “eu” ou o ver, não podem existir ambos. O “eu” é não-ver. O “eu” não consegue ver, não consegue estar consciente.

Interrogador: Posso parar por aqui? Penso que compreendi, mas tenho que deixar que faça sentido. Posso vir outra vez amanhã?

                                                                                              ——————————————————————

Interrogador: Penso que realmente compreendi, não verbalmente, o que disse ontem. Há a consciência da árvore, há a reação condicionada à árvore. E esta reação condicionada é conflito, é a ação da memória e das experiências passadas, é gosto e aversão, é preconceito. Também compreendo que esta reação de preconceito é o nascimento daquilo a que chamamos o “eu” ou o censor. Vejo claramente que o “eu” existe em todas as relações. Agora, existe um “eu” fora das relações?

Krishnamurti: Vimos como as nossas reações estão fortemente condicionadas. Quando pergunta se há um “eu” fora da relação, isso torna-se uma pergunta especulativa enquanto não houver uma libertação destas respostas condicionadas. Vê isso? Portanto a nossa primeira pergunta não é se há um “eu” ou não fora das respostas condicionadas, mas antes, consegue a mente, na qual estão incluídos todos os nossos sentimentos, ficar livre deste condicionamento, que é o passado? O passado é o “eu”. Não existe nenhum “eu” no presente. 

Enquanto a mente estiver funcionando no passado o “eu” existe, e a mente é o passado, a mente é o “eu”. Não pode dizer que há a mente e há o passado, quer seja o passado de há alguns dias atrás ou de há dez mil anos atrás. Portanto estamos perguntando: a mente consegue libertar-se do ontem? Ora há diversas coisas implícitas, não há? Em primeiro lugar há uma consciência superficial. Depois há a consciência da resposta condicionada. Depois há a percepção de que a mente é o passado, de que a mente é esta resposta condicionada. Depois há a questão de se esta mente consegue libertar-se do passado. E tudo isto é uma ação unitária de consciência porque nisto não há conclusões. Quando dizemos que a mente é o passado, esta compreensão não é uma conclusão verbal, mas uma percepção real do fato. Os franceses têm uma palavra para semelhante percepção de um fato, chamam-lhe “constatation”. 

Quando perguntamos se a mente pode ficar livre do passado, esta pergunta está sendo feita pelo censor, pelo “eu”, que é esse mesmo passado?

Interrogador: Pode a mente ficar livre do passado?

Krishnamurti: Quem faz essa pergunta? É a entidade que é o resultado de muitos conflitos, memórias e experiências – é ela que pergunta – ou esta pergunta surge por si mesma, da percepção do fato? Se for o observador que está colocando a questão, então ele está tentando fugir do fato de si próprio, porque ele diz “vivi tanto tempo em sofrimento, em dificuldade, em dor, que gostaria de transcender esta luta constante”. Se ele faz a pergunta a partir desse motivo a sua resposta será o refugiar-se em algum escape. Ou viramos as costas ao fato ou enfrentamo-lo. E a palavra e o símbolo são um virar-lhe as costas. De fato, só o fazer esta pergunta já é um ato de fuga, não é verdade? Se o é, é ruído. Se não houver observador, então há silêncio, uma completa rejeição de todo o passado.

Interrogador: Aqui fico perdido. Como posso apagar o passado em alguns segundos?

Krishnamurti: Tenhamos em mente que estamos discutindo o estar consciente. Estamos a falar juntos desta questão do estar consciente. Há a árvore, e a reação condicionada à árvore, que é o “eu” na relação, o “eu” que é o próprio centro do conflito. Agora, é este “eu” que está a fazer a pergunta? – este “eu” que, tal como dissemos, é a própria estrutura do passado? Se a pergunta não for feita a partir da estrutura do passado, se a pergunta não for feita pelo “eu”, então não existe nenhuma estrutura do passado. Quando a estrutura faz a pergunta ela está a funcionar em relação ao facto de si própria, tem medo de si própria e age para fugir de si própria. Quando esta estrutura não faz a pergunta, não está a agir em relação a si própria. 

Para recapitular: há a árvore, há a palavra, a reação à árvore, que é o censor, ou o “eu”, que vem do passado; e depois há a pergunta: consigo fugir de toda esta agitação e agonia? Se o “eu” estiver a fazer esta pergunta, está a perpetuar-se a si mesmo. Agora, estando consciente disso, ele não faz a pergunta! Estando consciente e vendo todas as implicações disso, a pergunta não pode ser feita. Ele não faz de todo a pergunta por que vê a armadilha. Agora, vê que toda esta consciência é superficial? É a mesma que a consciência que vê a árvore.

Interrogador: Existe algum outro tipo de consciência? Existe alguma outra dimensão para a consciência?

Krishnamurti: Mais uma vez sejamos cautelosos, que fique muito claro que não estamos fazendo esta pergunta por nenhum motivo. Se existir um motivo estamos de volta à armadilha da resposta condicionada. Quando o observador está totalmente silencioso, não tornado silencioso, há certamente uma qualidade de consciência diferente que surge.

Interrogador: Que ação poderia haver em quaisquer circunstâncias sem o observador – que pergunta ou que ação?

Krishnamurti: Mais uma vez, está fazendo esta pergunta deste lado do rio, ou da outra margem? Se estiver na outra margem, não fará esta pergunta; se está naquela margem, a sua ação será a partir daquela margem. Portanto há uma consciência desta margem, com toda a sua estrutura, a sua natureza e todas as suas armadilhas, e tentar fugir da armadilha é cair noutra armadilha. E que total monotonia há em tudo isso! O estar consciente mostrou-nos a natureza da armadilha, e, por conseguinte há a rejeição de todas as armadilhas; portanto a mente está agora vazia. Está vazia do “eu” e da armadilha. Esta mente tem uma qualidade diferente, uma dimensão diferente de consciência. Esta consciência não tem consciência de que está consciente.

Interrogador: Meu deus, isto é demasiado difícil, Está dizendo coisas que parecem verdadeiras, que soam como verdadeiras, mas eu ainda não estou aí. Pode colocar as coisas de uma maneira diferente? Pode fazer-me sair da minha armadilha?

Krishnamurti: Ninguém pode fazê-lo sair da sua armadilha – nenhum guru, nenhuma droga, nenhum mantra, ninguém, incluindo eu – ninguém, especialmente eu. Tudo o que tem a fazer é estar consciente do princípio ao fim, não ficar desatento no meio. Esta nova qualidade de consciência é a atenção, e nesta atenção não existe nenhuma fronteira criada pelo “eu”. Esta atenção é a mais elevada forma de virtude. Por conseguinte é amor. É inteligência suprema, e não pode haver atenção se você não for sensível à estrutura e à natureza destas armadilhas artificiais.

 J. Krishnamurti – A Urgência da Mudança

(Título original: The Urgency of Change – Traduzido por Isabel Gonçalves)

 

fonte: https://textosk.wordpress.com/trechos-curtos/estar-consciente/

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Quando você corre atrás dos pensamentos... - Milarepa


“Quando você corre atrás dos seus pensamentos, você é igual um cachorro atrás de um pedaço de pau: cada vez que o pedaço de pau é jogado, você corre atrás. Ao invés disso, seja como um leão, que ao invés de correr atrás do pedaço de pau, se volta para aquele que jogou. Prum leão, você só joga um pedaço de pau uma vez”.
JETSÜN MILAREPA (1052-1135)


Abaixo segue o interessante esclarecimento de
Não sei se todos entendem exatamente o que se quer dizer com “correr atrás dos pensamentos”, que é uma instrução comum na meditação. 
Basicamente, é se envolver com o pensamento. Se envolver com ele sem criar nenhuma consciência de que se está envolvido nele. É correr atrás do significado dos pensamentos, das implicações que eles tentam afirmar, sejam eles quais foram. É colocar a atenção da consciência toda na história que eles estão contando, e na maioria das vezes apenas imaginando coisas, uma atrás da outra. 
Então, mesmo que você tenha discernimento, ele estaria concentrado totalmente dentro da história trazida pelo pensamento, e não na consciência de que aquele é apenas um pensamento acontecendo. 
O resultado disso é que confundimos pensamento e realidade, ao ponto de não saber mais o que é o que.
Quando o leão se volta para o pensador, ele não demonstra qualquer interesse pelo pedaço de pau, seja ele qual for. Pode ser um pensamento de preocupação, de desejo, de esperteza, de planejamento, do que for. 
O leão sequer olha. E sequer pensa: “mais um pensamento foi jogado, mas eu resistirei”. Ele simplesmente mantém a atenção no principal. Um leão não busca nada.

domingo, 12 de julho de 2020

O Poder da Mente II - Mooji

Nenhum pensamento tem poder em si.


A memória e a mente contém essa semente da identidade que carregamos. Mas você não é a mente. Mas nós temos um enorme apego, uma enorme afeição à mente porque na mente está gravada toda a informação sobre quem nós pensamos que somos.
E aquilo que você acredita se torna real para você... porque um pensamento que não é acreditado não tem poder. Mas um pensamento que é acreditado pode começar uma guerra ou então curar um coração machucado. Tudo é crença.
Então, em grande parte nós estamos experimentando alguns pensamentos e memórias que nós valorizamos muito. Então você dá energia a eles... porque nenhum pensamento tem poder em si.
Um pensamento pode ter um profundo poder sobre você, mas para outra pessoa não é nada. Porque o pensamento não tem poder independente.
Ele só tem o poder da sua crença nele... Então você nunca é incomodado por um pensamento sobre o qual você não tem nenhum interesse. E por interesse eu quero dizer interesso positivo ou negativo.
Então, se esse corpo se vai e ainda continua uma forte identidade com o corpo e com as circunstâncias, e memória e identidade, então aquela identidade precisa de um novo corpo para continuar processando a si mesma... até que ela venha realizar sua verdade original. Então é isso que é chamado de reencarnação.
O que acontece é quando esse corpo cai por terra, aquelas impressões psicológicas profundas no corpo, os detalhes em particular daquelas impressões não são levadas para a próxima vida, mas a tendência energética vai se manifestar de novo.
Mas eu não quero colocar muita ênfase nisso, porque você não é isso... Não é sua verdade essencial, é só sua programação. 
Nós estamos acreditando na programação, mas você está além dessa programação... porque pode observar o condicionamento, os efeitos da sua educação, então você está além disso...
é preciso que isso fique tão claro, que as impressões da sua personalidade não mordem mais tão profundamente na sua mente...
então essa mente não terá nenhum poder sobre você. 
É isso que significa despertar: despertar do sonho da personalidade.
A consciência em si não morre, mas ela esquece isso.
A evolução do espírito humano é uma evolução rumo ao vazio... da forma para ao sem forma... isso não significa rejeitar a forma, mas compreender que ela é um aspecto do seu Ser, mas é limitada...
então desfruta da limitação, desfrute o sonho, mas desfrute o sonho estando acordado.


Satsang Belo Horizonte 2009

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Mooji - O Poder do Pensamento




Mooji - O Poder do Pensamento

 


 


Bhagavad Gita

Pensar sobre objetos materiais
prenderá você aos objetos materiais;
Cresça preso e se tornará dependente;
Frustrada a dependência, ela se transforma em raiva:
Fique com raiva e suas ideias se misturarão;
Misture suas ideias e esquecerá o ensinamento da experiência:
Esqueça a experiência e perderá o discernimento;
Perca o discernimento e perderá a razão de viver.

(Bhagavad Gita)

quinta-feira, 1 de março de 2018

nenhum pensamento mora de graça...

Eis acima uma breve citação que pode encerrar múltiplos e profundos sentidos que se complementam...
Vamos refletir:
- Nenhum pensamento ou emoção é percebido (em nossa consciência de pensador) aleatoriamente ou sem motivo;
- Detalhe importante! Nenhum pensamento ou emoção se demora (nem se sustenta) em nossa psique sem um bom salário, sem boa "nutrição", sem uma boa acolhida;
- Mais importante ainda: Nenhum pensamento ou emoção permanece em nós por muito tempo sem que tenha conseguido se aninhar (ou se esconder) junto a outros sentimentos e pensamentos semelhantes que já estavam lá, antes dele (mesmo que não tenhamos a menor consciência prévia disto);
E agora, a parte mais interessante e paradoxal:
- Nenhum pensamento ou emoção reside em nós sem consequências, sem consumir boa ração, sem condicionar fragmentos de consciência, sem condicionar o comportamento do seu "hospedeiro".
- Nenhum pensamento ou emoção permanece em nós sem nossa atenção (positiva ou negativa) e consideração...

Em síntese: 
acolhemos, nutrimos e valorizamos certa emoção ou pensamento, porque cremos em sua realidade interior, cremos que ele(a) realmente faz parte de quem somos... 
Sim, nós nos identificamos com o pensamento e com a emoção, a ponto de acreditarmos sinceramente que "ele" somos nós mesmos, "falando" dentro de nós. 

dica n. 1: não confie em seus pensamentos;
dica n. 2: não os leve tão a sério; 
dica n. 3: não lhes dê mais valor do que realmente eles têm, pois quase sempre eles se mostram inúteis ou até prejudiciais.

domingo, 28 de maio de 2017

Dicas para compreender a mente e o Ser

A mente costuma criar muitos problemas.  
Mas prá quem ela os cria?

A mente poderia criar problemas para você se você não tivesse interesse nela?
A mente traz problemas para você... mas quem é "você"?
você responde seu nome... mas quem deu este nome?
você não é seu nome...
você pode ter consciência de seu corpo...
então seu corpo não é você...
você pode observar sua mente -pensamentos, emoções-
logo, sua mente não é você.
quando um pensamento surge, quem o percebe já estava aqui antes dele surgir.

O pensamento não estava. Ele vem e vai embora.
E você permanece aqui.
Você (o Ser) não é objeto dos sentidos.
Você já está aqui antes de qualquer pensamento. Você é mais rápido que o pensamento mais veloz.
Então você não é o pensamento, nem o corpo.
Você está aqui para observá-los: a personalidade, as memórias...
Então você é outra coisa.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Pierre Lévy: a raiz do sofrimento




Qual a relação entre tecnologia e o ato de respirar? Toda, segundo Pierre Lévy.

Mundialmente reconhecido por suas teorias sobre a relação entre o ser humano e a tecnologia, o filósofo francês tem, em meio às obras diretamente ligadas à cibercultura, um livro que pode intrigar seus admiradores. É O fogo liberador, que apresenta a incursão pelo caminho espiritual de Pierre Lévy e de sua esposa, a pintora e ilustradora Darcia Labrosse.


Em entrevista ao programa Roda Viva (2001), Lévy explica como filosofia oriental e tecnologia estão intimamente relacionadas:


"Sou um filósofo. E, desde sempre, a filosofia se interessa por problemas sociais e políticos, problemas de conhecimento, de evolução histórica, pelo sentido da história etc. Mas, a filosofia também se interessa pela sabedoria, pela felicidade. E, para mim, digamos, é a continuação do meu trabalho de filósofo.
Então, no fundo, nos trabalhos sobre a revolução epistemológica, social e cultural trazida pelas novas tecnologias, trata-se de analisar um tipo de abertura do espírito, expansão do conhecimento e da consciência em uma esfera exterior, uma esfera concreta, uma esfera social. E, com o livro O fogo liberador, não é mais a exploração da liberdade exterior, mas a exploração da liberdade interior."
Como colocamos no início do texto, O fogo liberador propõe exercícios conhecidos por praticantes de meditação, mostrando como a observação do presente e o simples ato de respirar podem revelar o sentido da existência. 

sábado, 17 de dezembro de 2016

Educação, ego, destreza, medo, cultura, liberdade... - excertos de Krishnamurti

Embora seja difícil demonstrar como a mente funciona na realidade, vou tentar fazê-lo; e podeis “experimentar”, e ver por vós mesmos. Sabemos que o pensar é uma reação  fundada em (um fundo de) condicionamento” (background). Pensais como hinduísta, como parse*, (…) não apenas no vosso pensar consciente, mas também no pensar inconsciente. Vós sois o background, não sois separado, pois não há pensador separado do background; e a reação desse background é o que chamais pensar.

* parse: antigo grupo de persas zoroastristas que emigrou e se estabeleceu na Índia.
(Que Estamos Buscando, 1ª ed., pág. 179).

Esse background, quer culto, quer inculto, instruído ou ignorante, está sempre correspondendo a algum desafio, a algum estímulo, e essa reação cria não apenas o chamado presente, mas também o futuro. Tal é o nosso processo de pensar.
(Idem, pág. 179)

(…) O que eu digo é que a experiência baseada no conhecimento, no nosso background, é meramente o prolongamento desse fundo e, por conseguinte, não é experiência nova. (…) Só posso reagir ao desafio de maneira nova quando a minha mente compreendeu o background e dele se libertou. (…)
(O Homem Livre, pág. 44)

(…) Quando pensais, o vosso pensar é, por certo, resultado do passado, do vosso condicionamento, da vossa crença, do vosso fundo consciente e inconsciente. De acordo com vosso background reagis, e essa reação é chamada pensar; e por meio desse pensar quereis resolver os vossos problemas. E achais que, quanto mais adquirirdes, (…) mais acumulardes experiência, tanto maior se vos tornará a capacidade de atender ao problema e resolvê-lo.
(Viver sem Temor, pág. 68)

Vejamos agora a relação entre o educador e o educado: Será que o professor, consciente ou inconscientemente, mantém um sentimento de superioridade, colocando-se num pedestal e fazendo o aluno sentir-se inferior, como alguém que tem de ser ensinado? Nesse caso, evidentemente, não há relacionamento.
(Cartas às Escolas, I, pág. 24)

O pensar, sem dúvida, é uma reação. Se vos faço uma pergunta, a essa pergunta vós reagis; reagis de acordo com vossa memória, vossos preconceitos, vossa educação, (…) com todo o fundo do vosso condicionamento; e em conformidade com tudo isso vós respondeis, pensais (…) O centro desse fundo é o “eu” com sua atividade (…)
(A Renovação da Mente, pág. 10-11)



domingo, 17 de julho de 2016

Dicas sobre a mente, o pensamento e o Ser: Mooji

A mente costuma criar muitos problemas. Mas prá quem ela os cria?

A mente poderia criar problemas para você se você não tivesse interesse nela?
A mente traz problemas para você... mas quem é "você"? 
você responde seu nome... mas quem deu este nome?
você não é seu nome...
você pode ter consciência de seu corpo; então ele tampouco é você...
você pode observar sua mente -pensamentos, emoções- logo, ela não é você.
quando um pensamento surge, quem o percebe já estava aqui antes dele surgir. O pensamento não estava. Ele vem e vai embora. E você permanece aqui.
Você (o Ser) não é objeto dos sentidos. Você já está aqui antes de qualquer pensamento. Você é mais rápido que o pensamento mais veloz.
Então você não é o pensamento, nem o corpo. Você está aqui para observá-los : a personalidade, as memórias...
Então você é outra coisa.
A memória é algo muito poderoso porque para muitos, suas vidas se resumem a um conjunto de memórias. Para muitas pessoas, quando falam é basicamente sobre o passado (memória).
Pergunto:
Você pode falar sem memória? sem projeção? você pode falar sem esperança (expectativa)? sem passado? sem futuro? sem julgamento?
Quando puder falar assim, então é algo novo.
Tudo que está na sua memória... jogue fora!
Jogue fora tudo e você ainda está aqui. 
Enquanto "quê" você está aqui?
Você pode jogar você fora? Por acaso, você poderia livrar-se de você?

O Tempo
O que é o tempo sem você?
Você é aquele que observa o tempo.
Por acaso o relógio sabe que horas são? Você é que o percebe (o tempo).
O tempo não está consciente de si mesmo...
a distância não está consciente de si mesma...
o pensamento não está consciente de si mesmo.
Nenhum pensamento trabalha para si mesmo.

Onde exatamente você está?
se você não é o corpo, quem é você?

Se tomasse uma droga que momentaneamente fizesse com que não conseguisse mais identificar seu corpo, você acha que seu corpo sabe que é seu?

A mente vai fazer barulho com qualquer brinquedo, com qualquer alimento que você der a ela. A mente não tem como crescer sem o combustível que você dá a ela.
O alimento da mente é o seu interesse por ela... é a atenção que dispensa a ela.
Ela vive a partir de você! Temos que saber disso.
O barulho (da mente) se alimenta da sua atenção.
A mente tira seu poder, da sua crença, da sua identidade (identificação).
A identidade energiza a mente. Para tirar poder dela, mantenha sua atenção na neutralidade. 
Os pensamentos (positivos ou negativos) que receberam muita energia de você tem um magnetismo tremendo (e assim parecem poderosos). Mas um pensamento não pode ser poderoso se não há identidade (identificação)...
Se o você não acredita nele... se não lhe dá reconhecimento... atenção...
quanta realidade pode ter esse pensamento?
Por isso, quanto mais seus pensamentos se tornarem neutros, ou quanto mais você manter sua atenção neutra, tanto mais a paz prevalecerá, não a paz e a felicidade que tem uma história (sobre algo), mas a alegria, a felicidade de Ser. 

O corpo funciona por si mesmo.
O pensamento também surge espontaneamente. Se os pensamentos surgem, isso em si não se chama pensar. O pensar começa quando a identificação encontra o pensamento e começa a criar... isso é pensar.
Mas mesmo o surgimento do pensamento não significa nada em si se você se identifica com a pura consciência.
Para onde a atenção aponta, aquilo se torna experiência.
Então, observa a experiência, mas não se identifique com ela... permaneça em paz.
Isso é ir além da forma: não fascinar-se com as coisas ou com o pensamento que advém a partir destas coisas. 
Enquanto está fascinado, sente como se tais pensamentos fossem muito íntimos.

Não é fácil a nossa mente aceitar que já somos consciência. Você já é a pura consciência.
Veja essas flores aqui: são belas, tem seu perfume, você pode reconhecê-las e admirá-las... Você pode perceber cada coisa sem criar "relacionamento especial" com as coisas.
Ser feliz é muito simples. O difícil é deixar ir seus apegos e condicionamentos, porque temos afeição a eles.

(trecho do Satsang de Mooji em Belo Horizonte, 2009)