segunda-feira, 15 de março de 2021

Filosofia... prá que NÃO serve?

 


Certa vez me perguntaram... mas afinal, prá que serve essa tal Filosofia?

a pergunta certamente é muito boa... 

Conceitos, há aos montes... então, ao invés de começar "dando o conceito", vamos esclarecer o que Filosofia não é... combinado?

 

 

O que não é filosofia


Filosofia não existe para "provar" alguma teoria... o nome disso é "método científico".
 
 A filosofia não consiste num “sistema de preceitos e crenças"... o nome disso é ideologia (seja religiosa, seja política...)
 
A filsofia tampouco consiste num conjunto de teses e verificações empíricas metodológicas”... o nome disso é "teoria científica".
 
Encare a filosofia mais como um "controle de qualidade" do seu pensamento.
Senão, vejamos:
Será que nosso pensamento poderia resistir a uma simples objeção lógica? 
Será que nossa crença subsistiria ao mais simples desafio da própria racionalidade humana?
Se sua crença ou pensamento não consegue resistir a esse simples teste, ele até pode ser muito lindo, poético e consolador... mas nada tem a ver com a verdade, com a lógica ou com a racionalidade.

Argumentos, por mais fascinantes e brilhantes que aparentem, precisam ser testados! ...Assim como qualquer fábrica de respeito sempre testa seu produto, antes de oferecê-lo para ser consumido...
Se um produto oferece algum risco à saúde, não deveria ser propagandeado, nem vendido, ou oferecido a consumo de terceiros... sim ou não?
 
De igual modo deve ser com os pensamentos e doutrinas que "compramos", a maioria desde muito, muito cedo... numa idade em que geralmente não conseguimos elevar nossa voz para questionar e sermos respeitados.

Enfim, há que verificar e testar os pontos fortes e fracos de qualquer ideia, pensamento, conceito, preceito, pressuposto, conclusão e por fim, da própria doutrina e ideologia derivadas desses argumentos... testá-los à exaustão, para ver como resistem, se é que resistem... 
 
As falácias ou sofismas são os pontos fracos visíveis (ou não tão visíveis) dos argumentos. São eles que tornam os argumentos (e as ideologias deles derivados) frágeis, inflamáveis, venenosos, fanatizantes e alienantes.

Enfim e por fim, a Filosofia não é um bálsamo ou anestésico para as dores humanas...
A Filosofia não serve para embalar nossa sonolência psíquica ou letargia mental. 
A Filosofia é para chacoalhar e nos acordar do sonho... do sonho encantado de nossas crenças pueris.
 
Inúmeras vezes, é a Filosofia que trará à mesa, como prato principal, nossas próprias e incômodas contradições...
Mas ninguém gosta de ser exposto à sua própria miséria e condição de profunda ignorância, não é mesmo?
A minoria suporta a salgada verdade... 
A maioria já bem ou mal se acostumou ao sabor inconfundível de suas próprias crenças (não tão próprias quanto pensa que são)...
 
Por vezes, quase sempre ou sempre cremos que estamos certos, que nossos pontos de vista são os mais perspicazes, que nossa ideologia é a mais brilhante, a mais pragmática, funcional e justa... Em geral, apenas por simples etnocentrismo, cremos mui sinceramente, que nosso paradigma é o mais próximo da verdade que se poderia chegar...
É aí que vem a Filosofia, "puxa nosso tapete" e... adeus "zona de conforto"!
Do alto das nuvens de nossas opiniões, direto para o chão duro da realidade dos fatos. Por isso, muitos detestam a Filosofia e a tem com inimigo mortal...

A Filosofia é a “fiscal”... do juízo apressado, do julgamento dogmático, do argumento raso, da conclusão apressada, da ideologia política e/ou religiosa...

Então, Filosofia veio menos para trazer respostas e mais para colocá-las em xeque... 
 

Essa tal Filosofia pode responder algumas dúvidas? 

Por certo que sim, mas a Filosofia não é a última, nem necessariamente a melhor das respostas... ela não nasceu para dar respostas, ao contrário da ciência que tem justamente essa função. A Filosofia é sim a "mãe de toda a ciência" humanamente produzida.
Filosofia nasceu para ser método de qualificação de bons argumentos e de descarte de argumentos ruins. Seria como um "ISO 9000" específico para a área de nossos raciocínios abstratos e argumentos persuasivos.

O fato é que a Filosofia não é uma doutrina ou crença particular que alguém pode ou não adotar...
Ela é apenas a estrada por onde se deve trilhar, goste ou não, se quer que um raciocínio ou conclusão seja razoavelmente coerente e compreensível por outros interlocutores...
Sem as normas elementares do raciocínio lógico, nem o meu, nem o seu discurso teria qualquer validade ou utilidade...

Ou seja, se você não entendeu ainda, pense que, mesmo você execrando a filosofia, mesmo apontando sua aparente "inutilidade" ou "malignidade", isso em nada muda o fato de que você precisou dela para elaborar o argumento que dará suporte e validade para seu ponto de vista.
Do contrário, seu discurso seria imprestável para qualquer fim.

 
Essa advertência se faz necessária porque é comum confundirem filosofia com algum tipo rigoroso de doutrina, com se ela fosse algum tipo de bula de conselhos morais ou espiritualistas... 

não se confunda, pois, "doutrina filosófica" com a Filosofia em si, nem com a atitude mesma de "filosofar"...

 

moeda Decadracma -detalhe: deusa Athena e a coruja, símbolos da filosofia    

segunda-feira, 8 de março de 2021

a única meditação que existe: a observação


A Única Meditação Que Existe: Observar


Não "manter a mente tranquila", mas vazia.
 
Embora você não tenha plena certeza se os professores das várias localidades estão certos ou errados, se sua própria base é sólida e genuína, os venenos das doutrinas erradas não serão capazes de lhe fazer mal, "manter a mente calma" e "esquecer preocupações" incluídas. 
 
Relaxe e torne-se vasto e expansivo. Quando velhos hábitos repentinamente surgirem, não use a mente para reprimi-los. Nessa hora, é como "um floco de neve sobre uma fornalha aquecida"...
Só então eles conhecem o dito de Jung: "usando a mente, sem nenhuma atividade mental". (...) 
O esvaziamento de que eu falo agora não está separado de ter mente. Estas não são palavras para enganar pessoas. Tem havido um grande mal-entendido sobre estas duas coisas: "manter a mente tranquila" e "esvaziamento mental". 
Existiram muitas pessoas que ensinaram que elas são sinônimos. Elas parecem ser sinônimos, mas na realidade estão tão separadas quanto duas coisas podem estar, e não há como interligá-las. Assim, primeiro vamos tentar encontrar o exato significado dessas duas palavras, porque o Sutra Ta Hui completo desta noite diz respeito ao entendimento da diferença. 

A diferença é muito sutil. Um homem que está mantendo sua mente tranquila e um homem que não tem mente irá parecer exatamente igual olhando de fora, porque o homem que está mantendo sua mente tranquila também está silencioso. Porém, por baixo de seu silêncio, há um grande tumulto, mas ele não está permitindo isto vir à tona. Ele está no controle total. 
 
O homem com a não-mente, ou sem atividade mental, não tem nada para controlar. Ele é somente puro silêncio com nada reprimido, com nada disciplinado - apenas um puro céu vazio.
 
Superfícies podem ser muito enganadoras. A pessoa precisa estar muito alerta sobre as aparências, porque ambas parecem iguais do lado de fora - ambas são silenciosas. O problema não teria surgido se a mente tranquila não fosse fácil de alcançar. É fácil de alcançar. Esvaziamento mental não é tão fácil de alcançar; não é barato é o maior tesouro do mundo 
 
A mente pode jogar o jogo de ser silenciosa... ela pode jogar o jogo de não ter qualquer pensamento, qualquer emoção, mas estes estão apenas reprimidos, plenamente vivos, prontos para aparecer a qualquer momento. 
As assim chamadas religiões e seus santos caíram na falácia de tranquilizar a mente. Se você continua sentado em silêncio, tentando controlar seus pensamentos, não permitindo suas emoções, não permitindo qualquer movimento dentro de você, lento, lentamente isso se tornará seu hábito. Essa é a maior decepção do mundo que você pode dar a si próprio, porque tudo é exatamente o mesmo, nada mudou, mas parece que você sofreu uma transformação.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Dica de documentário: "Não há amanhã": a questão do hiperconsumo

There's no tomorrow (dublado) 



Abaixo, você encontrará link (Youtube) para assistir a este documentário estarrecedor e ao mesmo tempo bem realista, abordando comportamento humano em sociedade (consumismo) e a iminente crise de abastecimento decorrente do esgotamento de nossa principal fonte de energia: o petróleo.
 
 
 
O documentário "Não há amanhã" (There's no tomorrow), com didática impecável e uso de animações gráficas bem humoradas, faz uma análise fria dos dados estatísticos e aborda a crucial questão do crescimento demográfico e a consequente crescente demanda por energia, em escala exponencial (progressão geométrica) no planeta. 
De modo simples, o curta-metragem aborda, desde a formação geológica do petróleo em eras remotas até chegar aos dias atuais, quando se verifica os picos de produção e consumo. Ao analisar o crescente consumo da praticamente única fonte que sustenta nosso modo de vida contemporâneo, o documentário questiona a dependência da sociedade de fontes de energia não renováveis, assim como faz indiretamente uma crítica ao modelo de crescimento econômico desenfreado e o consequente esgotamento dos limitados recursos naturais ainda disponíveis.
 
Esse breve filme-animação tem o mérito de nos chamar a atenção para a problemática do hiperconsumismo (cultura do consumo inconsequente) e igualmente para o fato de que, independentemente de quais estratégias de "crescimento sustentável" sejam adotadas, é apenas questão de tempo (pouco tempo) para que a simples demanda crescente por alimento (crescimento demográfico) e por energia, acabe tornando nosso modo de vida absolutamente insustentável. 
 
Noutras palavras: sendo nossa matriz energética principal sustentada basicamente em um único recurso natural não-renovável e sendo exponencial o crescimento da economia (do tipo predatória/exploratória), não é difícil antever o 'beco sem saída' no qual estamos entrando...
 
Estaríamos cegos, como uma boiada estourada, caminhando em direção ao abismo?
 
No início do documentário, seu diretor ilustra com uma "cena" metafórica, mostrando dinossauros se alimentando tranquilamente, já que estavam no topo da cadeia alimentar, para depois mostrar o ser humano atual, também tranquilo, ocupando a mesma posição confortável que os dinossauros ocuparam um dia...
Resta saber se o intelecto humano irá salvá-lo das consequências de um inevitável colapso do seu próprio sistema social.
 
O documentário "Não há amanhã" foi animado e dirigido por Dermot O' Connor, em parceria com a "Incubate Pictures" e o "Post Carbon Institute". 
Produzido no Software vetorial Flash, demorou 6 anos para ser concluído, além de muita pesquisa. 
O filme é gratuito e não pode ser comercializado.
 
 
filme original (em inglês): http://youtu.be/VOMWzjrRiBg 
dublagem:Bruno Bartulic

"a importância da prática constante"... Controle a mente e o Inferno será Paraíso (Ramana Maharshi)

Interessante excerto do livro "Crumbs From His Table”, de Ramana Maharshi, publicado por

 

“Controle a mente e até mesmo o Inferno será Paraíso pra você. Todo o resto que se fala de solidão, viver na floresta, etc, é mero papo furado”.
SRI RAMANA MAHARSHI

Para atingirmos alguma possibilidade de ver a verdade e/ou atingir a iluminação, e até lá, nossa obrigação é com a prática. Quantas vezes teremos que ouvir isso?

Aqui está o grande sábio indiano Sri Ramana Maharshi (1879-1950) para nos lembrar mais uma vez. Num pequeno livro de 56 páginas lançado originalmente em 1936, intitulado “Crumbs From His Table”, Sri Ramana aparece respondendo questões de um discípulo, duas delas transcritas e traduzidas abaixo pelo Dharmalog.


A mensagem dele — de que nossa obrigação é com a nossa própria prática — não só serve à pessoa que lhe perguntou há quase um século, num pequena cidade do sul da Índia, mas também serve a nós, que não temos colinas de montanhas isoladas para nos aquietarmos. “Sua obrigação está na prática“.


 

Eis o texto abaixo (o livro completo, em inglês, está neste link.)


SOLIDÃO É UM ESTADO DE CONSCIÊNCIA

 
Pergunta: Quando passei uma ou duas horas na colina, algumas vezes encontrei uma paz melhor do que aqui (no Ashram), o que me faz pensar que um lugar solitário é mais condutivo para o controle da mente.


SRI RAMANA MAHARSHI: Verdade, mas se você tivesse ficado lá por mais uma hora, você teria visto que aquele lugar também não lhe deu a calma que você fala. Controle a mente e até mesmo o Inferno será Paraíso pra você. Todo o resto que se fala de solidão, viver na floresta, etc, é mero papo furado.


Pergunta: Se a solidão e o abandono da casa não fossem necessários, onde então estava a necessidade para Sri Bhagavan vir aqui (na montanha Arunachala para meditar em solidão) quando tinha 17 anos?


SRI RAMANA MAHARSHI: Se a mesma força que pegou isso aqui (referindo-se a si mesmo) também lhe tirasse da sua casa, então de todas as maneiras, você deixe isso acontecer, mas é inútil abandonar sua casa como um esforço seu, particular... Sua obrigação está na pratica, na prática contínua de auto-investigação.”

(do livro “Crumbs from His Table“, 1936)


dharmalog

Nosso pálido ponto humano

Nosso pálido ponto humano

 

Flávio Siqueira


Olhe de novo para aquele ponto. Um corpo parado adiante. Essa é minha casa, isso sou eu. Nele, todos a quem amo, todos a quem conheço, qualquer um dos que escutei falar, cada ser humano que existiu, para mim, viveu sua vida aqui.
 
O agregado da alegria e do sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, em mim, num grão de pó sob um raio de sol.
 
O corpo, um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, vieram eles ser amos momentâneos duma fração de corpos como esse.
 
As nossas exageradas atitudes, a nossa suposta autoimportância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são reptadas por este pontinho de luz frouxo, estendido diante do todo.
 
Somos como grãos solitários na grande e envolvente escuridão cósmica.
 
Nossos corpos são os únicos lares conhecidos, até hoje, que podem albergar o que chamamos de consciência humana.
Não há mais algum, pelo menos no próximo futuro, onde nossa espécie possa emigrar.
 
Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que esta distante imagem do nosso miúdo mundo, nosso insignificante corpo, onde a vida acontece para nós. 
 
( Adaptação minha para o texto "Pálido Ponto Azul", de Carl Sagan)

 

Toda a existência culmina nesse momento! Nenhum lugar para ir - Osho

Nenhum Lugar para ir...


“Para mim, existem dois tipos de pessoas: as que perseguem seus objetivos e as que celebram a vida. Os que perseguem objetivos são loucos. Aos poucos, eles estão enlouquecendo – e estão gerando sua própria loucura. E a loucura tem a sua própria força; lentamente eles se afundam nela – assim, ficam completamente perdidos. O outro tipo de pessoa não é um perseguidor de objetivos; ela não persegue absolutamente nada; ela celebra a vida.
E isso ensino a vocês: sejam os que celebram, comemorem! Já existe muita coisa – as flores vicejam, os pássaros cantam, o Sol está no céu – celebre a vida! Você está respirando e está vivo e tem consciência: festeje! Com isso, de repente, você relaxa; aí não há mais tensão, não há mais angústia. Toda a energia que se houver transformado em angústia se torna gratidão. Seu coração passa a bater embalado por uma gratidão mais profunda – isso é oração. Orar é exatamente isso, um coração batendo com profunda gratidão.
Não é preciso fazer nada para isso. Apenas entenda o movimento da energia, o movimento sem motivação da energia. Ele flui, mas não em direção a um objetivo, ele flui como uma celebração. Ele se move, não em direção a um gol, se move por causa de sua própria energia transbordante.
Uma criança está dançando e pulando e correndo por toda parte; pergunte-a, “Onde você está indo?”. Ela não está indo a lugar algum – você vai parecer tolo pra ela. Crianças sempre pensam que adultos são tolos. Que pergunta tola, “Onde você está indo?”. Há alguma necessidade de ir a algum lugar? Uma criança simplesmente não consegue responder sua pergunta porque é irrelevante. Ela não está indo a lugar nenhum. Ela vai simplesmente dar de ombros. Vai dizer, “nenhum lugar”. Então a mente-orientada-a-objetivos pergunta, “Então por que você está correndo?”- porque para nós uma atividade é relevante apenas quando leva a algum lugar.
E eu digo a você: não há nenhum lugar a ir. Aqui é tudo. Toda a existência culmina neste momento, converge para este momento. Tudo o que existe está fluindo para este momento – é aqui, agora.
Uma criança está simplesmente desfrutando a energia – ela tem demais. Ela está correndo, não porque tem que chegar a algum lugar, mas porque tem energia demais, tem que correr.
Aja desmotivadamente, apenas como um transbordamento de energia. Compartilhe, mas não negocie; não faça barganhas. Dê porque você tem; não dê para ter algo em troca – porque então você estará na miséria.”

Bhagwan Shree Rajneesh, o Osho (1931-1990), em “Tantra: The Supreme Understanding: Discourses on the Tantric Way of Tilopa’s Song of Mahamudra”

Religiões - Eckhart Tolle

Eckhart Tolle: sobre as religiões


 


(...)

A maioria das religiões e tradições espirituais compartilha a ideia de que nosso estado mental “normal” é prejudicado por uma imperfeição fundamental, o distúrbio a que me referi. No entanto, além dessa percepção da natureza da condição humana – que podemos chamar de má notícia -, há uma segunda percepção, ou a boa notícia, que é a possibilidade de uma transformação radical da nossa consciência. Nas mensagens hinduístas (e, em alguns casos, também no budismo), essa mudança é chamada de iluminação; nos ensinamentos de Jesus, de salvação; no budismo, de fim do sofrimento. Outros termos usados para caracterizá-la são "libertação" e "despertar".

A maior conquista da humanidade não são as obras de arte nem os inventos da ciência e da tecnologia, mas a identificação do seu próprio distúrbio, da sua própria loucura. No passado distante, alguns indivíduos chegaram a fazer esse reconhecimento. E provável que um homem chamado Sidharta Gautama, que viveu há 2.600 anos na índia, tenha sido o primeiro a ver essa questão com absoluta clareza. Depois, o título de Buda lhe foi concedido. Buda significa “aquele que despertou”. Praticamente na mesma época, outro dos mestres despertos da humanidade surgiu na China. Seu nome era Lao-Tsé. Ele deixou um registro dos seus ensinamentos na forma de um dos livros espirituais mais profundos já escritos, o Tao Te Ching.

Reconhecer a própria loucura marca, obviamente, o surgimento da sanidade, o início da cura e da transcendência. Uma nova dimensão da consciência começava então a emergir no planeta, a primeira tentativa de florescimento. Aquelas pessoas raras se dirigiam a seus contemporâneos falando sobre pecado, sofrimento e ilusão. Diziam: “Observe seu modo de viver. Veja o que você está fazendo, o sofrimento que está causando.” Depois, indicavam a possibilidade de despertar do pesadelo coletivo da existência humana “normal”. E mostravam o caminho.

O mundo ainda não estava preparado para esses mestres. No entanto, eles foram uma parte crucial e indispensável do despertar humano. Inevitavelmente, na maioria das vezes, não chegaram a ser bem entendidos por seus contemporâneos nem pelas gerações seguintes. Seus ensinamentos, embora simples e eficazes, acabaram sendo distorcidos e mal interpretados, em alguns casos até mesmo na maneira como foram registrados por escrito por seus discípulos. Ao longo dos séculos, acrescentaram-se muitas coisas que não tinham nada a ver com as mensagens originais e que eram reflexos de uma incompreensão básica. Alguns desses sábios foram ridicularizados, insultados ou mortos, enquanto outros passaram a ser venerados como deuses. Os ensinamentos que indicavam o caminho que se encontra além do distúrbio da mente humana, a porta de saída da loucura coletiva, foram desvirtuados e tornaram-se eles mesmos parte da insanidade.

Assim, as religiões, numa grande medida, firmaram-se como forças divisoras em vez de unificadoras. Em lugar de estabelecerem o fim da violência e do ódio por meio da compreensão da unicidade fundamental de toda a vida, elas suscitaram mais violência e ódio, mais separações entre indivíduos, religiões e até mesmo rupturas dentro de um mesmo credo. Tornaram-se ideologias, sistemas de crenças com os quais as pessoas podiam se identificar, e elas os usavam para ressaltar sua falsa percepção do eu. Por meio dessas crenças, elas se classificavam como “certas” e chamavam os outros de “errados”. Assim, definiam sua identidade diante dos inimigos – os “outros”, os “não-crentes” ou “crentes equivocados” – e, algumas vezes, consideravam-se no direito de matá-los. O homem feito “Deus” na sua própria imagem. O eterno, o infinito, o inominável foi reduzido a um ídolo mental no qual as pessoas tinham de acreditar e que devia ser venerado como “o meu deus” ou “o nosso deus”.

E, mesmo assim, apesar de todos os desvarios perpetrados em nome das religiões, a Verdade que elas indicam não deixa de brilhar em sua essência, ainda que fracamente, através de muitas camadas de distorção e interpretação errônea. É improvável, porém, que alguém seja capaz de percebê-la, a não ser que já tenha tido pelo menos lampejos da Verdade dentro de si. Ao longo da história, sempre houve indivíduos raros que vivenciaram uma mudança de consciência e, assim, detectaram em si mesmos aquilo que é apontado por todas as religiões. Para descrever essa Verdade não conceitual, eles usaram a estrutura conceitual das suas próprias crenças religiosas.

Por meio de alguns desses homens e mulheres, “escolas”, ou movimentos, se desenvolveram dentro de todas as religiões importantes e representaram não só uma redescoberta, mas, em determinados casos, uma intensificação da luz do ensinamento original. 

Foi assim que o Gnosticismo e o Misticismo se estabeleceram nos primórdios do Cristianismo e no Cristianismo Medieval. O mesmo ocorreu com o Sufismo na religião islâmica, com o Hassidismo e a Cabala no Judaísmo, com o Advaita Vedanta no Hinduísmo e com o Zen e o Dzogchen no Budismo. Quase todas essas escolas eram iconoclastas. Elas se opuseram a numerosas camadas de conceituações e a estruturas mentais enfraquecidas. Por essa razão, a maior parte delas foi vista com suspeita e hostilidade pelas hierarquias religiosas estabelecidas. Seus ensinamentos, ao contrário das doutrinas da religião principal, enfatizavam a compreensão e a transformação interior. 

Foi graças a essas escolas esotéricas que os credos mais importantes recuperaram o poder transformador dos seus preceitos originais – embora na maioria dos casos apenas poucas pessoas tivessem acesso a elas. Esses movimentos nunca se expandiram o bastante para exercer uma influência significativa sobre a profunda inconsciência coletiva que predominava. Ao longo do tempo, algumas dessas escolas se tornaram rigidamente formalizadas ou conceitualizadas para permanecerem eficazes.