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terça-feira, 22 de outubro de 2013

a capacidade de ficar só e a capacidade de amar

Nesse trecho o psicólogo, sociólogo e filósofo alemão Erich Seligmann Fromm (1900-1980) parece estar falando de algo parecido com a meditação: “o exercício de sentar-se em posição repousada, fechar os olhos e tentar ver em frente deles uma tela branca, tentar remover os pensamentos e imagens, acompanhar a própria respiração". 

A concentração pode ser um aliado na meditação, já que a mente do homem ocidental parece estar cada vez mais errática e dispersa, mas não há um real medicamento para evitar a solidão, a não ser enfrentá-la . 

Fromm fala em “ficar só sem ler, sem ouvir rádio, sem fumar, sem beber”, e a gente pode adicionar “sem TV, sem Internet, sem celular, sem cachorro, sem gato” etc. Isso caso quisermos sermos capazes de amar.

Abaixo, segue o trecho da obra:

“A concentração é bem mais difícil de praticar em nossa cultura, em que tudo parece agir contra a capacidade de concentrar-se. 

O passo mais importante no aprendizado da concentração é aprender a ficar só consigo mesmo, sem ler, sem ouvir rádio, sem fumar, sem beber. Na verdade, ser capaz de concentrar-se significa ser capaz de ficar só consigo mesmo — e esta capacidade é precisamente uma condição da capacidade de amar. 

Se me ligo a outra pessoa porque não posso suster-me por meus próprios pés, ele ou ela podem ser um salva-vidas, mas a relação não é a de amor. Paradoxalmente, a capacidade de ficar só é a condição da capacidade de amar. 

Quem quer que tente ficar só consigo mesmo descobrirá quão difícil isso é. Começará a sentir-se inquieto, nervoso, ou mesmo a experimentar considerável ansiedade. Estará disposto a racionalizar sua má vontade em continuar com essa prática pensando que ela não tem valor, é simplesmente tola, toma muito tempo, e assim por diante. Observará também que lhe vêm à mente todas as espécies de pensamento, que tomam conta dele. Ver-se-á a pensar em seus planos para o resto do dia, ou numa dificuldade no trabalho que tem a fazer, ou aonde ir à noite, ou em qualquer número de coisas que lhe encherão a mente — em lugar de permitir que ela se esvazie. 

Seria útil praticar uns poucos e muito simples exercícios como, por exemplo, sentar-se em posição repousada (nem espreguiçada, nem rígida), fechar os olhos e tentar ver em frente deles uma tela branca, tentar remover todos os pensamentos e imagens que interferem, tentar acompanhar a própria respiração; não pensar a respeito dela, nem forçá-la, mas simplesmente acompanhá-la — e, ao fazê-lo, senti-la; tentar, além do mais, ter o senso do seu “Eu”; 
eu = mim mesmo, como o centro de minhas forças, como o criador de meu mundo. 

Dever-se- ia, pelo menos, fazer esse exercício de concentração todas as manhãs durante vinte minutos (se possível, mais) e todas as noites antes de deitar-se. ”.

~ Erich Fromm (“A Arte de Amar”, pág. 84)






FONTE:
http://dharmalog.com/2013/10/21/paradoxalmente-capacidade-ficar-so-condic%CC%A7a%CC%83o-capacidade-amar-erich-fromm-classico-arte-amar/


quinta-feira, 4 de julho de 2013

Entrevista com o psicanalista Erich Fromm

Entrevista de 1958 com o eminente psicanalista sobre diversos temas que continuam atuais.

por Nando Pereira

“Se você pegar o americano médio, e os estudos tem mostrado isso, ele está realmente “envolvido” apenas com seus problemas pessoais, no que tocam sua saúde, seu dinheiro e sua família. Ele não está envolvido com sua sociedade. Ele fala a respeito. Mas quando eu digo “envolvido” eu quero descrever aquilo que faz as pessoas perderem o sono às vezes. E o homem médio americano nunca perde seu sono por conta de temas relacionados à sua sociedade e seu país inteiro. Eu quero dizer, ele separou sua vida privada da sua existência como membro de sua sociedade e a deixou aos cuidados do governo e dos especialistas. (…) Nós estamos da mesma forma relegando nossa própria responsabilidade pelo que acontece, em nosso país, para os especialistas que se supõem estão cuidando dele.”
~ Erich Fromm, no programa The Mike Wallace Interview (1958)
Já evoluímos bastante de 1958 pra cá (ainda mais se você tiver lendo isso vários anos depois de publicado), mas uma boa parte do que o psicólogo e filósofo humanista alemão Erich From (1900-1980) disse ao jornalista americano Mike Wallace, em 1958, continua atual e, mais que isso, ajuda a elucidar como e porque isso tudo está acontecendo (por “isso tudo”, leia-se os grandes manifestos no Brasil e o rastro do que já passou e está passando no mundo, como o movimento Occupy). 
Além do problema “político pessoal” que vivemos, Fromm fala de vários temas, como o significado do trabalho para a vida do homem, a felicidade, a liberdade, o fracasso, a família, e, obviamente, o amor, um dos principais temas pelo qual Fromm ficou conhecido. A entrevista segue abaixo, em três partes, todas legendadas em português na fonte.

Outro trecho:
“(Os Estados Unidos estariam a perigo de destruir a si mesmo) por causa do nosso entusiasmo em dominar a natureza, em produzir mais bens materiais. Nós transformamos meios em fins. Nós buscamos produzir mais no século 19 e no século 20 em ordem a possibilitar ao homem uma vida mais digna. Mas o que realmente aconteceu é que a produção e o consumo, que parecem meios, se tornaram fins. E nós estamos malucos por produção e consumo.”
~ Erich Fromm, entrevista a Mike Wallace (1958)
FONTE: 
http://dharmalog.com/2013/07/02/video-raro-entrevista-de-erich-fromm-a-mike-wallace-em-1958-sobre-politica-liberdade-amor-e-fracasso-video/