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sexta-feira, 5 de março de 2021

Religiões - Eckhart Tolle

Eckhart Tolle: sobre as religiões


 


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A maioria das religiões e tradições espirituais compartilha a ideia de que nosso estado mental “normal” é prejudicado por uma imperfeição fundamental, o distúrbio a que me referi. No entanto, além dessa percepção da natureza da condição humana – que podemos chamar de má notícia -, há uma segunda percepção, ou a boa notícia, que é a possibilidade de uma transformação radical da nossa consciência. Nas mensagens hinduístas (e, em alguns casos, também no budismo), essa mudança é chamada de iluminação; nos ensinamentos de Jesus, de salvação; no budismo, de fim do sofrimento. Outros termos usados para caracterizá-la são "libertação" e "despertar".

A maior conquista da humanidade não são as obras de arte nem os inventos da ciência e da tecnologia, mas a identificação do seu próprio distúrbio, da sua própria loucura. No passado distante, alguns indivíduos chegaram a fazer esse reconhecimento. E provável que um homem chamado Sidharta Gautama, que viveu há 2.600 anos na índia, tenha sido o primeiro a ver essa questão com absoluta clareza. Depois, o título de Buda lhe foi concedido. Buda significa “aquele que despertou”. Praticamente na mesma época, outro dos mestres despertos da humanidade surgiu na China. Seu nome era Lao-Tsé. Ele deixou um registro dos seus ensinamentos na forma de um dos livros espirituais mais profundos já escritos, o Tao Te Ching.

Reconhecer a própria loucura marca, obviamente, o surgimento da sanidade, o início da cura e da transcendência. Uma nova dimensão da consciência começava então a emergir no planeta, a primeira tentativa de florescimento. Aquelas pessoas raras se dirigiam a seus contemporâneos falando sobre pecado, sofrimento e ilusão. Diziam: “Observe seu modo de viver. Veja o que você está fazendo, o sofrimento que está causando.” Depois, indicavam a possibilidade de despertar do pesadelo coletivo da existência humana “normal”. E mostravam o caminho.

O mundo ainda não estava preparado para esses mestres. No entanto, eles foram uma parte crucial e indispensável do despertar humano. Inevitavelmente, na maioria das vezes, não chegaram a ser bem entendidos por seus contemporâneos nem pelas gerações seguintes. Seus ensinamentos, embora simples e eficazes, acabaram sendo distorcidos e mal interpretados, em alguns casos até mesmo na maneira como foram registrados por escrito por seus discípulos. Ao longo dos séculos, acrescentaram-se muitas coisas que não tinham nada a ver com as mensagens originais e que eram reflexos de uma incompreensão básica. Alguns desses sábios foram ridicularizados, insultados ou mortos, enquanto outros passaram a ser venerados como deuses. Os ensinamentos que indicavam o caminho que se encontra além do distúrbio da mente humana, a porta de saída da loucura coletiva, foram desvirtuados e tornaram-se eles mesmos parte da insanidade.

Assim, as religiões, numa grande medida, firmaram-se como forças divisoras em vez de unificadoras. Em lugar de estabelecerem o fim da violência e do ódio por meio da compreensão da unicidade fundamental de toda a vida, elas suscitaram mais violência e ódio, mais separações entre indivíduos, religiões e até mesmo rupturas dentro de um mesmo credo. Tornaram-se ideologias, sistemas de crenças com os quais as pessoas podiam se identificar, e elas os usavam para ressaltar sua falsa percepção do eu. Por meio dessas crenças, elas se classificavam como “certas” e chamavam os outros de “errados”. Assim, definiam sua identidade diante dos inimigos – os “outros”, os “não-crentes” ou “crentes equivocados” – e, algumas vezes, consideravam-se no direito de matá-los. O homem feito “Deus” na sua própria imagem. O eterno, o infinito, o inominável foi reduzido a um ídolo mental no qual as pessoas tinham de acreditar e que devia ser venerado como “o meu deus” ou “o nosso deus”.

E, mesmo assim, apesar de todos os desvarios perpetrados em nome das religiões, a Verdade que elas indicam não deixa de brilhar em sua essência, ainda que fracamente, através de muitas camadas de distorção e interpretação errônea. É improvável, porém, que alguém seja capaz de percebê-la, a não ser que já tenha tido pelo menos lampejos da Verdade dentro de si. Ao longo da história, sempre houve indivíduos raros que vivenciaram uma mudança de consciência e, assim, detectaram em si mesmos aquilo que é apontado por todas as religiões. Para descrever essa Verdade não conceitual, eles usaram a estrutura conceitual das suas próprias crenças religiosas.

Por meio de alguns desses homens e mulheres, “escolas”, ou movimentos, se desenvolveram dentro de todas as religiões importantes e representaram não só uma redescoberta, mas, em determinados casos, uma intensificação da luz do ensinamento original. 

Foi assim que o Gnosticismo e o Misticismo se estabeleceram nos primórdios do Cristianismo e no Cristianismo Medieval. O mesmo ocorreu com o Sufismo na religião islâmica, com o Hassidismo e a Cabala no Judaísmo, com o Advaita Vedanta no Hinduísmo e com o Zen e o Dzogchen no Budismo. Quase todas essas escolas eram iconoclastas. Elas se opuseram a numerosas camadas de conceituações e a estruturas mentais enfraquecidas. Por essa razão, a maior parte delas foi vista com suspeita e hostilidade pelas hierarquias religiosas estabelecidas. Seus ensinamentos, ao contrário das doutrinas da religião principal, enfatizavam a compreensão e a transformação interior. 

Foi graças a essas escolas esotéricas que os credos mais importantes recuperaram o poder transformador dos seus preceitos originais – embora na maioria dos casos apenas poucas pessoas tivessem acesso a elas. Esses movimentos nunca se expandiram o bastante para exercer uma influência significativa sobre a profunda inconsciência coletiva que predominava. Ao longo do tempo, algumas dessas escolas se tornaram rigidamente formalizadas ou conceitualizadas para permanecerem eficazes.

terça-feira, 10 de março de 2020

O Discurso de S.N. Goenka na Cimeira sobre a Paz


O Discurso de S.N. Goenka na Cimeira sobre a Paz

Por Bill Higgins
Data: 29 de Agosto de 2000
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fotografia cortesia de Beliefnet Inc.
 
 
Nova Iorque — O Acharya de Vipassana S.N. Goenka discursou para os representantes das delegações na Cimeira do Milénio sobre a Paz Mundial na Assembleia Geral das Nações Unidas que, pela primeira vez, reuniu líderes religiosos e espirituais.
O discurso do Sr. Goenka, na sessão intitulada A Transformação do Conflito, focalizou os temas da harmonia religiosa, tolerância e coexistência pacífica.
“Em vez de converter pessoas de uma religião organizada para outra religião organizada”, disse o Sr. Goenka, “nós deveríamos tentar converter pessoas do sofrimento para a felicidade, do cativeiro para a liberdade e da crueldade para a compaixão.”
O Sr. Goenka proferiu este discurso durante a sessão da tarde da Cimeira para um grupo que incluía aproximadamente dois mil representantes de delegações e observadores. O Sr. Goenka pronunciou-se após a intervenção do fundador da CNN, Ted Turner, um dos patrocinadores financeiros da Cimeira.
Mantendo-se dentro do tema da Reunião em busca da paz mundial, o Sr. Goenka deu ênfase no seu discurso que a paz no mundo não poderá ser alcançada enquanto não houver paz dentro dos indivíduos. “Não poderá haver paz no mundo enquanto as pessoas tiverem ódio e raiva nos seus corações. Apenas com amor e compaixão no coração é que a paz mundial será atingida.”
Um aspeto importante da Cimeira é o esforço para reduzir o conflito e a tensão sectários. Com relação a isto, o Sr. Goenka disse, “Quando há raiva e ódio internamente, o indivíduo fica infeliz independentemente de ser cristão, hindu ou muçulmano.”
Da mesma forma, ele declarou a uma plateia que aplaudia com entusiasmo, “Aquele que tiver amor e compaixão com um coração puro experimenta o Reino dos Céus interior. Esta é a Lei da Natureza, ou se preferirem, a vontade de Deus.”
Apropriado para uma plateia que incluía importantes líderes religiosos ele disse, “Vamos nos concentrar nas características comuns de todas as religiões, no núcleo interior de todas as religiões que é a pureza de coração. Todos nós deveríamos dar importância a este aspecto da religião e evitar conflitos sobre a aparência externa das religiões, que normalmente são os ritos, rituais, festivais e dogmas.”

domingo, 23 de outubro de 2016

La falsa dilemo inter religio kaj scienco: tradução do artigo "O falso dilema da religião versus ciência"


artigo 'O falso dilema da religião versus ciência'

tradução para Esperanto:

 

La falsa dilemo inter religio kaj scienco


Antaŭ kelkaj tagoj, mi legis gazetartikolon nomata: "efikoj de meditado estas science pruvita." En alia okazo, mi vidis alian diraĵon: "Sciencistoj pruvis homan reenkarniĝon" ... Aliaj diskutas pri homeopatio... psikanalizo, metapsikio, kaj multaj aliaj konadoj, ĉu estas scienco aŭ ne ... Eĉ diskutas "sciencan evidentecon de kreismo" kaj multaj komencis meti sciencon kontraŭ religion...

Sed, kio estas scienco? Laŭ fama sciencisto Newton Freire-Maia, eĉ la sciencistoj mem ne interkonsentas. Ili certe scias ke scienco, strikte parolante, konsistas malglate, "aro de difinoj, leĝoj, teorioj, modeloj, inter aliaj, akiritaj tra specifa metodologio (nomita 'scienca'), kaj celanta koni parton de realo". Do, se vi ne uzas ĉi tiun metodologion, ne estas scienco, kaj fino.

Nu, kiuj difinas kio estas la "scienca metodo"? Respondo: sciencistoj. Kaj kiuj decidas kion estas kaj kio ne estas scienco? R: La konsento de la opinioj de sciencistoj. Kiam bona parto de sciencistoj decidas ke io estas jam scienco, do, ĝi estas.


sábado, 22 de outubro de 2016

O falso dilema da religião versus ciência








Por esses dias li um artigo jornalístico com o título: “efeitos da meditação estão cientificamente comprovados”. Noutra ocasião vi outro dizendo: “Cientistas comprovam a reencarnação humana”... Outros ainda debatem se a homeopatia, se a psicanálise, se a parapsicologia e tantos outros saberes são ciências ou não... Até se discute a “comprovação científica do criacionismo” e muitos embarcam na polêmica de colocar a ciência contra a religião...
Mas o que é ciência? Segundo o renomado cientista Newton Freire-Maia, nem os próprios cientistas tem um consenso. Sabem sim que a ciência stricto sensu compreende, grosso modo, “um conjunto de definições, interpretações, teorias, modelos, entre outros, adquiridos por meio de uma metodologia específica (denominada ‘científica’), e visando ao conhecimento de uma parcela da realidade”. Assim, se não usar essa metodologia, não é ciência, e ponto.
Bom, então quem define qual é o “método científico”? Resposta: os cientistas. E quem decide o que é e o que não é ciência? R: O consenso da opinião dos cientistas. Quando uma boa parcela dos cientistas resolve que algo já é ciência, então é.
Muitos sentem pesar ou se ofendem quando alguém lhes afirma: isso ou aquilo não é ‘comprovado cientificamente’. Ocorre que muitas coisas relevantes e valiosas não são ciência. Religiões não são ciência, obviamente. A parapsicologia e a ufologia tampouco. A literatura não é ciência, a música não é ciência (as artes em geral não são), nem a filosofia é ciência... Você já parou prá pensar em quantas coisas maravilhosas não são ciência? E que bom que não são! Nem por isso, estamos perdendo algo por tudo isso não ser ciência.
Outro equívoco é pensar que ciência seja sinônimo de verdade. A história da ciência já nos ensinou que a ciência não encontrará a verdade ‘nua e crua’. Outro grande cientista e filósofo do século XX, K. Pooper, esclarece que a ciência é a procura da verossimilhança (daquilo que parece ser verdade). A ciência lida basicamente com conceitos probabilísticos de verdade. Mesmo as teorias -meninas dos olhos da ciência- não são descrições objetivas da realidade.
Teorias, portanto, podem ser apoiadas em fatos -e assim serem boas teorias- mas é só. Teorias vão, com o tempo e com o surgir de novos aportes tecnológicos, sendo substituídas por outras descrições ou modelos explicativos da realidade mensurável.
Mas ao menos podemos dizer que há somente fatores científicos na ciência, não é? Também não. Fatores culturais não científicos como o religioso, o econômico, o político, a nacionalidade e a autoridade, influenciam no desenvolvimento e na aceitação de teorias científicas. Enfim, a ciência não é neutra.
Por isso, não esperemos por provas científicas da existência de Deus, de Jesus, do criacionismo, do êxtase dos santos ou comprovações do samadhi da meditação oriental. Não é para isso que existe a ciência. 
Já vai ficando claro que ela está colocada num plano epistemológico distinto da religião, não?
Seu objeto de estudo é específico, qual seja, o fenômeno mensurável. Distintamente, a religião possui outra metodologia, outros axiomas e propósitos, tendo como objeto de contemplação e apreciação, o imensurável, o não verificável em laboratório...
Por que então alimentar um falso dilema? São saberes distintos, cada qual com sua finalidade própria. Então, vamos combinar: podemos ser religiosos e cientistas ao mesmo tempo, mas não cair na tentação de misturar uma epistemologia com a outra, certo?
Ninguém se torna mais crente ou menos ateu porque a ciência corroborou crenças desta ou daquela religião. Ninguém é mais ou menos ético porque a ciência assim o comprovou e assegurou. O ser humano é complexo: muitas culturas, muitos saberes, necessidades de distintas ordens (físicas, psíquicas e espirituais). Nossa fé e nossa razão devem caminhar juntas, sem que uma precise atropelar a outra.


Silvio Motta Maximino – palestrante e professor de filosofia e antropologia 


publicado no Jornal da Cidade - pág.  02 no dia 22/10/2016
 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

religião & espiritualidade

"Religião é uma garrafa com um rótulo, espiritualidade é a coisa que tem dentro dela"
-Alik Shahadah, escritor e acadêmico africano
 
 
"Muitos brigam pela garrafa e poucos bebem o conteúdo!"
-Monge Dorj

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Confiteor - oração cristã em latim


Você conhece essa antiga oração de confissão?   

Curiosamente, parte dessa oração litúrgica católica reaparece em sua língua original, o latim, quase no final de uma das músicas do grupo 'Pet Shop Boys' (dupla de música pop britânica formada por Neil Francis Tennant e Christopher Sean Lowe no início dos anos 1980).



O nome da música é "It's A Sin", lançada em 2003. 

   





Abaixo você pode conferir a oração em latim* (com tradução):


CONFITEOR (Confissão - rito penitencial da missa catílica)



Confiteor Deo omnipotenti et vobis, fratres, 
quia peccavi nimis cogitatione, 
verbo, opere et omissione;
mea culpa, mea culpa, 
mea maxima culpa.
...
Ideo precor beatam Mariam semper Virginem, 
omnes Angelos et Sanctos, 
et vos, fratres, 
orare pro me ad Dominum Deum nostrum.


tradução:
Confesso a Deus Todo-Poderoso
e a vós, irmãos e irmãs,
que pequei muitas vezes
por pensamentos, palavras, atos e omissões;
por minha culpa, por minha culpa,
por minha tão grande culpa

...
e peço à Virgem Maria, aos Anjos e Santos, 
e a vós, irmãos e irmãs, 
que rogueis por mim a Deus, nosso Senhor)




* O latim é uma antiga língua indo-europeia do ramo itálico originalmente falada no Lácio, a região do entorno de Roma. Foi amplamente difundida, especialmente na Europa, como a língua oficial da República Romana, do Império Romano e, após a conversão deste último ao cristianismo, da Igreja Católica.

Através da Igreja, tornou-se a língua dos acadêmicos e filósofos europeus medievais. O alfabeto latino, derivado dos alfabetos etrusco e grego (por sua vez, derivados do alfabeto fenício), continua a ser o mais amplamente usado no mundo.

Embora o latim seja hoje uma língua morta, ou seja, uma língua que não mais possui falantes nativos, ele ainda é empregado pela Igreja Católica para fins rituais e burocráticos. Exerceu enorme influência sobre diversas línguas vivas, ao servir de fonte vocabular para a ciência, o mundo acadêmico e o direito. O latim vulgar, nome dado ao latim no seu uso popular inculto, é o ancestral das línguas neolatinas (italiano, francês, espanhol, português, romeno, catalão, dentre outros idiomas e dialetos regionais); Note também que muitas palavras adaptadas do latim, foram adotadas por outras línguas modernas, como o inglês.

Observe que o latim ainda é a língua oficial da Cidade do Vaticano e do Rito Romano da Igreja Católica. Foi a principal língua litúrgica até o Concílio Vaticano Segundo nos anos 1960.