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quinta-feira, 24 de março de 2022

Ram Dass - A Prática da Autoinquirição

Como funciona a autoinquirição na prática?

Como se autoconhecer, segundo a filosofia não dualista (Advaita Vedanta)?

Raros textos/vídeos explicam ou detalham tão objetiva e claramente como iniciar a prática do método de autoconhecimento Advaita, denominado "autoinquirição" ou "Atma Vichara"...

Ram Dass consegue explicar de modo simples os primeiros passos para o autoconhecimento, segundo a filosofia Advaita Vedanta, sem nenhuma complicação ou divagação teórica desnecessária.

Vídeo realmente imperdível!!  

O vídeo contém esclarecimentos importantíssimos para todos os praticantes (iniciantes ou não) da autêntica meditação não-dualista Advaita. Vale realmente sua atenção!

Agradecimentos especiais pelo excelente trabalho do canal "Corvo Seco".

A Prática da Autoinquirição

 Trechos do documentário “Abide As The Self” e gravações em Satsang. 
 
Ātmā Vicāra (विचार), é um termo sânscrito que significa o processo de investigar quem realmente somos, a investigação sobre a Natureza do Ser. 
 
Esta técnica é a que melhor exemplifica o Jñāna Yoga, o Yoga do conhecimento sobre Si Mesmo. 
A meditação da auto-indagação é a constante atenção para a consciência interior do “eu” ou “eu sou”, recomendado por Ramana Maharshi como o maneira mais eficiente e direta de descobrir a irrealidade do pensamento “eu”. 
 
Ram Dass (Richard Alpert ; 1931 -2019), foi um professor espiritual americano, escritor e psicólogo. Desiludido com o mundo consumista, Ram Dass procurou um caminho para a salvação da consciência humana através dos ensinamentos místicos hindus. 
 
Nos anos 70 começou a dar aulas de psicologia na Universidade de Harvard, onde mergulhou no estudo de drogas psicodélicas. No final da década, ele foi para a Índia e estudou com o guru hindu Neem Karoli Baba, que daria a Richard Alpert seu novo nome, que significa "Servo de Deus". 
 
Quando retornou aos Estados Unidos, Ram Dass se tornou ele próprio guru, dando palestras sobre autoconhecimento por todo o país.


A Prática da Autoinquirição

 

citações de Ramana Maharshi e Ram Dass:

“O verdadeiro Eu não é o corpo, ou nenhum dos cinco sentidos, nem qualquer dos órgãos de ação, nem a mente, nem mesmo o estado de profunda sonolência em que não se tem consciência de tais coisas. Após chegar a cada um destes itens e dizer ’isto eu não sou’, aquilo que resta é o Eu, e isso é Consciência. A Meditação é a sua verdadeira natureza, você chama isso de meditação agora por que há pensamentos que o distraem. Quando esses pensamentos forem dissipados, você permanecerá sozinho, no estado livre de pensamentos e essa é sua verdadeira natureza. Verdadeiramente falando, meditação é fixar-se no Ser. Meditação é permanecer como seu próprio Ser sem desviar-se de maneira nenhuma de sua natureza real e sem sentir que você está meditando”. - Ramana Maharshi. 

“Esse caminho da autoinvestigação não é um caminho que estava disponível apenas durante a vida de Ramana Maharshi, pelo contrário, há um novo começo. As palavras e a presença de Maharshi permanecem vibrantemente vivas como uma abordagem direta para buscadores que desejam realizar a natureza infinita de seu Ser Real, que desejam despertar da poderosa ilusão do ego, e permanecer na perfeita paz de sua verdadeira natureza”. - Ram Dass.  

“Eu tentei muito todos os métodos que conhecia para não me apegar à comida, mas eu não conseguia fazer com isso. Então, comecei a fazer uma meditação, que foi criada por Ramana Maharshi chamada Atma-Vichara (Autoinquirição)”. Ram Dass. 

“O Maharshi geralmente ensinava em silêncio, e o buscador sincero muitas vezes experimentava uma influência silenciosa no Coração. A expressão verbal do silêncio era sempre dada livremente a todos e frequentemente combinada com humor e risos, enquanto sua presença física era esmagadora e sua majestade e beleza indescritíveis, ele permanecia completamente natural, simples e despretensioso e totalmente inalterado. Havia nele uma simplicidade e humildade espontâneas, um senso de igualdade universal e amor que derrete o coração, suas ações eram naturais e espontâneas e refletiam uma vida totalmente identificada com a única consciência, o Eu em todos os seres”. Ram Dass. 

“A manifestação única da Realidade Suprema que chamamos de Ramana Maharshi está sempre presente como o Coração de todas as coisas, seja qual for o nome que preferirmos chamá-lo, se apenas nos voltarmos genuinamente em sua direção, essa fonte de paz e felicidade iluminará nossas mentes e corações, com o conhecimento e a compreensão de quem e o que realmente somos”. Ram Dass.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Krishnamurti: o que é meditação


 

O que é meditação

Pergunta: O senhor parece descartar a ioga como coisa inútil, e concordo com o senhor em que a ioga é, com frequência, praticada como um método de fuga àquilo que é. Mas, se evitarmos a fixação artificial da mente em um objeto escolhido, e permitirmos que a nossa chamada meditação tome a forma de uma investigação sobre todo o campo do que é, sem esperarmos nenhuma respostas específica, isso certamente é o que o senhor recomenda. O senhor não acha também que poderemos fazer essa coisa difícil com mais facilidade se tivermos aprendido a aquietar o corpo e a respiração?

Krishnamurti: O interrogante quer saber, realmente, como meditar – se a quietação do corpo e a estabilização da respiração não ajuda na meditação – que é o processo de investigar o inteiro campo do que é, e não fugir dele. Então vamos descobrir como meditar.

Agora, se puderem gentilmente escutar sem focar a atenção em nenhuma sentença particular, em nenhuma frase da resposta, poderemos investigar toda a questão de como meditar. Para mim, o “como” não é, de modo algum, o problema. O problema é: “O que é meditação?” Se eu não souber o que é meditação, o simples inquirir sobre como meditar não tem significado nenhum. Portanto, minha investigação não consiste em como meditar, que método seguir, como ficar consciente daquilo que é, sem fugir, como sentar-se quieto, como repetir certas palavras, e assim por diante. Não estamos discutindo nada disso. Se eu souber o que é meditação, então a questão de como meditar não será um problema, certamente.

O que é meditação? Como não sabemos o que é meditação, não temos ideia de como começar a meditar; então, precisamos abordar este assunto com a mente aberta, não é verdade? Vocês entenderam? Vocês precisam abordar este assunto com uma mente livre, que diga “eu não sei”, e não com uma mente ocupada, que pergunte “como é que devo meditar?” Por favor, se quiserem mesmo seguir isto – e não aferrar-se ao que estou dizendo, mas realmente experimentar a coisa enquanto prosseguimos – então vocês descobrirão, por si mesmos, o significado da meditação.

Até agora abordamos este problema com uma atitude de perguntar como meditar, qual sistema seguir, como respirar, quais práticas de ioga realizar, e tudo o mais – porque pensamos saber o que é meditação e que o “como” nos levará a alguma coisa. Mas, realmente, sabemos o que é meditação? Eu não sei, nem vocês, penso eu. Então, ambos precisamos abordar a questão com uma mente que diga “Eu não sei” – embora possamos ter lido centenas de livros e praticado muitas disciplinas de ioga. Vocês não sabem realmente. Vocês apenas esperam, vocês apenas desejam, vocês apenas querem, por meio de determinado padrão de ação, de disciplina, chegar a determinado estado. E tal estado pode ser totalmente ilusório; ele pode ser apenas o seu desejo. E certamente é assim; ele é a sua projeção, uma reação à miséria da existência diária.

Portanto, a primeira coisa essencial não é como meditar, mas sim descobrir o que é meditação. Assim, a mente precisa abordar esse assunto sem conhecimento prévio – e isso é extremamente difícil. Estamos de tal modo acostumados a pensar que determinado sistema é essencial à meditação – seja a repetição de palavras, como oração, ou o assumir dada postura corporal, ou fixar a mente em dada frase ou num quadro, ou respirar regularmente, fazer o corpo ficar muito quieto, ter controle completo da mente; com tais coisas estamos familiarizados. E acreditamos que essas coisas nos levarão a algo que pensamos estar além da mente, além do transitório processo de pensamento. Pensamos já saber o que queremos, e agora estamos tentando comparar qual é o melhor caminho. Essa questão de “como meditar” é completamente falsa. Mas, posso descobrir o que é meditação? Esta é a pergunta real. Meditar, saber o que é meditação, é algo extraordinário; assim, descubramo-lo.

Certamente, meditação não consiste em seguir nenhum sistema. Será que minha mente tem condições de eliminar completamente essa tradição de seguir uma disciplina, um método? – que existe não só aqui, mas também na Índia? Isso é essencial porque não sei o que é meditação. Sei como me concentrar, como controlar, como disciplinar, o que fazer, mas não sei o que é que está no fim disso. A única coisa que me disseram foi: “Se você praticar essas coisas, conseguirá o que deseja”; e, sendo eu ambicioso, realizo essas práticas. Então, será que posso eliminar essa exigência de método para descobrir o que é meditação?

A própria investigação de tudo isso é meditação, não é verdade? Já estou meditando no próprio instante em que começo a investigar o que é meditação – em vez de procurar saber como meditar. No momento em que começo a descobrir por mim mesmo o que é meditação, minha mente, não sabendo, precisa rejeitar tudo quanto ela conhece – o que significa que preciso pôr de lado o meu desejo de alcançar um estado. Porque o desejo de alcançar é a raiz, a base, da minha busca de um método. Já conheci momentos de paz, de tranquilidade, e um sentido da “outra coisa”, e quero alcançar isso de novo, torná-lo um estado permanente; então, procuro o “como”. Penso que já sei o que é o outro estado e que um método me levará a ele. Mas, se já sei o que é a outra coisa, então essa coisa não é verdadeira; é somente uma projeção do meu desejo.

Minha mente, quando está realmente investigando o que é meditação, compreende o desejo de alcançar, de chegar a um resultado, e, assim, fica livre dessas coisas. Portanto, ela descartou completamente toda autoridade, porque não sabemos o que é meditação e ninguém pode ensinar-nos. Minha mente está completamente num estado de “não-saber”; não há método nenhum, nenhuma oração, nenhuma repetição de palavras, nenhuma concentração, pois ela sabe que a concentração é só outra forma de alcançar alguma coisa. A concentração da mente numa determinada ideia, esperando assim treinar-se para avançar por meio de exclusão, implica novamente um estado de “saber”. Então, se eu não souber, todas essas coisas precisam desaparecer. Já não penso em termos de alcançar, chegar. Já não há um sentimento de acumulação que me ajudará a alcançar a outra margem.

Assim, quando eu tiver feito isso, porventura não terei descoberto o que é meditação? Não há conflito, não há luta; há um sentimento de não-acumulação – todo o tempo e não em um momento específico. Portanto, meditação é o processo de completo desnudamento da mente, a purgação de todo sentimento de acumulação e realização – que é a própria essência do ego, do “eu”. A prática dos diversos métodos só faz fortalecer esse “eu”. Você pode encobri-lo, pode embelezá-lo, refiná-lo, mas ele continua sendo o “eu”. Então, meditação é o desnudamento dos caminhos do ego.

E você descobrirá, se puder aprofundar-se nisso, que nunca há um momento em que a meditação se torna um hábito. Pois o hábito implica acumulação, e, onde houver acumulação, há o processo do ego pedindo mais, exigindo mais acumulação. Tal meditação está dentro do campo do conhecido e não significa nada senão um meio de auto-hipnose.

A mente só consegue dizer “Eu não sei” – realmente e não só verbalmente – quando tiver varrido de si, mediante percepção, mediante autoconhecimento, todo esse sentimento de acumulação. Então, meditação é morrer para as próprias acumulações – e não alcançar um estado de silêncio, de quietação. Enquanto a mente for capaz de acumular, haverá sempre o desejo de mais. E o “mais” exige o sistema, o método, o estabelecimento de autoridade – coisas que constituem os próprios caminhos do ego. Quando a mente tiver visto completamente a falácia disso, então ela estará em constante estado de “não-saber”. Tal mente terá condições de receber aquilo que não pode ser mensurado e que só se manifesta de momento a momento.

 

fonte: https://textosk.wordpress.com/trechos-curtos/o-que-e-meditacao/