sexta-feira, 2 de março de 2018

Intransigências revelam quem somos

Intransigências

 

Flávio Siqueira

 

Intransigências revelam quem somos.
O ser moralista, dedo em riste, expõe seus conflitos e contradições, tentando compensar na imagem, o descompasso de dentro. Defendendo raivosamente “a família” e os “bons costumes” expõe seu íntimo, seus conflitos, contradições, o descompasso de dentro.
Pior ainda quando o radicalismo é institucionalizado e vira bandeira ideológica.
Seja em “donos da verdade” que atacam e se colocam como “reserva moral”, ou movimentos que reclamam ser "sociais", se articulam cheios de ódio, tentando impor o que só pode ser compreendido em consciência. Ódio em nome da consciência.
Sem consciência, resta apenas a casca, os discursos, a aparência, os gritos, o avesso. Auto-afirmam-se no que acusam. Se confessam no que combatem.
O ódio nasce das paixões. Abominação se vincula a admiração. Perseguições são confissões de quem combate no outro o que identifica em si mesmo, mas não tem coragem de encarar.
O avesso da imagem de fora, da cara para consumo externo, da aparência que só convence quem não quer ver. Proferiu sua própria condenação.
É preciso enxergar-se, nem que seja apenas por auto preservação.

quinta-feira, 1 de março de 2018

nenhum pensamento mora de graça...

Eis acima uma breve citação que pode encerrar múltiplos e profundos sentidos que se complementam...
Vamos refletir:
- Nenhum pensamento ou emoção é percebido (em nossa consciência de pensador) aleatoriamente ou sem motivo;
- Detalhe importante! Nenhum pensamento ou emoção se demora (nem se sustenta) em nossa psique sem um bom salário, sem boa "nutrição", sem uma boa acolhida;
- Mais importante ainda: Nenhum pensamento ou emoção permanece em nós por muito tempo sem que tenha conseguido se aninhar (ou se esconder) junto a outros sentimentos e pensamentos semelhantes que já estavam lá, antes dele (mesmo que não tenhamos a menor consciência prévia disto);
E agora, a parte mais interessante e paradoxal:
- Nenhum pensamento ou emoção reside em nós sem consequências, sem consumir boa ração, sem condicionar fragmentos de consciência, sem condicionar o comportamento do seu "hospedeiro".
- Nenhum pensamento ou emoção permanece em nós sem nossa atenção (positiva ou negativa) e consideração...

Em síntese: 
acolhemos, nutrimos e valorizamos certa emoção ou pensamento, porque cremos em sua realidade interior, cremos que ele(a) realmente faz parte de quem somos... 
Sim, nós nos identificamos com o pensamento e com a emoção, a ponto de acreditarmos sinceramente que "ele" somos nós mesmos, "falando" dentro de nós. 

dica n. 1: não confie em seus pensamentos;
dica n. 2: não os leve tão a sério; 
dica n. 3: não lhes dê mais valor do que realmente eles têm, pois quase sempre eles se mostram inúteis ou até prejudiciais.

Dicas de Eckhart Tolle sobre o Poder do Agora - I

PENSAMENTOS SELECIONADOS DE ECKHART TOLLE

O momento presente é a coisa mais preciosa que existe
As pessoas não percebem que agora é tudo o que é, não existe passado ou futuro exceto como uma memória ou antecipação em nossas mentes.
O passado te dá uma identidade e o futuro mantém a promessa de salvação ou de preenchimento na forma que for. Em ambos os casos o que temos é ilusório.
O tempo não é precioso de maneira alguma, porque é uma ilusão. O que você percebe como precioso não é o tempo mas o único ponto que está além do tempo: agora. Isto é de fato precioso. Quanto mais você estiver focado no tempo — passado ou futuro — mais você vai perder o agora, a coisa mais preciosa que existe.
Não deixe um mundo doente dizer pra você ter sucesso em outra coisa que esteja além do momento presente.
A maioria das pessoas nunca está presente completamente no agora, porque inconscientemente as pessoas acreditam que o próximo momento deve ser mais importante do que este. Mas assim você perde a vida inteira, que nunca é não-agora.
Assim que você começar a honrar o momento presente, toda a infelicidade e luta se dissolve e a vida começa a fluir com contentamento e facilidade. Quando você age a partir da consciência do momento presente, o que quer que você faça fica imbuído com um sentimento de qualidade, cuidado e amor — mesmo a mais simples ação.

Aonde você estiver, esteja totalmente presente
Aonde você estiver, esteja totalmente presente. Se você acredita que o aqui e o agora são intoleráveis e te trazem infelicidade, você tem três opções: retirar-se da situação, mudar a situação ou aceitá-la totalmente. Se você quer ser responsável por sua vida, você deve escolher uma dessas três opções, você deve escolher agora. Então aceite as consequências.


domingo, 17 de dezembro de 2017

você sabe mesmo o que é democracia?



cidadania, democracia e conselhos municipais


Hoje quero falar com você sobre como funciona uma democracia!

Já sabemos que vivemos numa democracia, não é mesmo? Pelo menos é o que parece.
Veja que a ideia no regime democrático é que cada cidadão possa contribuir para a escolha de seus principais representantes políticos (vereadores, deputados, prefeitos e assim por diante).
Mas tem um detalhe importante que estamos deixando escapar:
Votamos, escolhemos nossos representantes, mas nosso papel acaba aí? 
De jeito nenhum! 
Em qualquer democracia de verdade, é fundamental que você atue mais de perto no processo de planejamento, gestão e fiscalização do uso dos recursos públicos.

Afinal, tais recursos saíram dos nossos bolsos, literalmente. 
E você sabe: é muuuuito dinheiro!

Note bem! O Estado exige de você, de mim e de todo mundo, que entreguemos parte de nossos salários e economias, com uma finalidade muito clara, mas pouco definida:
Promover o bem-estar e a segurança da sociedade da qual fazemos parte.
Mas o que você acha que vai acontecer se você, cidadão, se nós não monitorarmos de perto o que os políticos fazem com tanto dinheiro? Será que esses recursos chegarão todos ao seu destino? Eu preciso mesmo lhe responder??
Então é isso mesmo: cabe ao cidadão exercer o controle e a fiscalização das políticas públicas a serem executadas por aqueles que foram eleitos. 

É óbvio que há tribunais de contas e ministérios públicos para fiscalizar o bom uso do erário. Mas eles não dão conta sozinhos. É muita gente e muitos recursos para serem fiscalizados ao mesmo tempo.

Por isso, é importantíssimo que nós, os cidadãos, estejamos preparados para fiscalizar. 

A gente precisa se informar! A gente precisa participar! É assim que ajudamos a combater e prevenir a corrupção.

Fiscalizamos... e, aos poucos, você vai notar que o nosso dinheiro começa a ser aplicado de forma mais racional, competente e transparente.

Então vamos começar do começo, certo? Vamos começar do ponto onde qualquer cidadão pode alcançar. Vamos começar com a nossa câmara de vereadores e prefeitura. Vamos nos inteirar, conhecer quem faz o quê. Qual o papel dos vereadores (aprovar leis e fiscalizar o prefeito)... Qual o papel do prefeito (propor projetos de lei e executar as leis aprovadas). 

Todas aquelas promessas de campanha, lembra? Prá sairem do papel, elas precisarão se tornar leis.
E para acompanhar tudo isso, você pode fazer parte de um dos conselhos municipais de sua cidade. Informe-se na sua cidade, sobre o funcionamento destes conselhos! Seja um cidadão ativo em sua comunidade. Você não vai se arrepender.

Se você tem alguma dúvida, ou quer fazer alguma sugestão, deixe seu comentário.



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

confronto de paradigmas num discurso de Alan Watts



“Quem disse? Cadê as evidências?”: o confronto de paradigmas num discurso de Alan Watts

 




"Por quê devemos parar de pensar? Por que é errado não gostar de ficar sozinho? Por que ter uma mente cheia de pensamentos é como uma droga? Será que realmente tem algum vício ou efeito maligno envolvido? Quem disse? Cadê as evidências????"
— ltrafael, em comentário ao vídeo "A Mente", com Alan Watts


Essas indagações publicadas num comentário ao vídeo "A Mente" (mais abaixo), um discurso do filósofo inglês Alan Watts (1915-1973) sobre as preocupações e o pensamento compulsivo, chamam a atenção de uma maneira bem simples e interessante para o choque de paradigmas na busca de respostas sobre a vida. 
 
Apesar do discurso de Watts ser bem claro e auto-explicativo, está se referindo a um processo interior e subjetivo de investigar a realidade, enquanto a pessoa que fez o comentário espera evidências ou provas "científicas e sérias" externas a ele mesmo ("Quem disse? Cadê as evidências??"), provenientes de alguma autoridade na pesquisa objetiva da realidade. 
 
Watts talvez tenha evidências científicas e sérias, mas no seu paradigma, que precisa da percepção interior e das próprias experiências pessoais para serem verificadas como, de fato, evidências. Mas sem uma ponte entre esses dois paradigmas, o espectador não percebe isso, e o diálogo não acontece.

Muitos grandes autores já trataram desse encontro (ou desencontro) de paradigmas, que muito genericamente poderíamos incluir nas diferenças entre "Ocidente" e "Oriente", aqui talvez mais especificamente entre o método científico "ocidental" e as ciências contemplativas "orientais", mas neste caso está expresso e atualizado num debate cotidiano simples de um vídeo do YouTube. 
 
Para alguns esse problema está superado, e os paradigmas convivem entre si, mas para muitos ainda há um vão. Sem uma ponte, o que há do outro lado do paradigma permanece inacessível.

Assista ao vídeo de Alan Watts, de 3min, legendado, abaixo (com agradecimentos ao canal Charles Darwin, e ao site AlanWatts.org, que cedeu o áudio original ao vídeo em inglês):

 
De uma certa forma, quem já conseguiu algum tipo de esclarecimento a partir das fontes contemplativas orientais (como Ioga ou Budismo, por exemplo), já fez algum tipo de conexão entre esses paradigmas, e talvez não tenha sido fácil. 
 
Imagino que se meus primeiros questionamentos existenciais fossem respondidos com a recomendação de parar de pensar, quando eu não fazia a menor ideia de como a ciência oriental tratava esse assunto, eu ficaria igualmente inconformado. 
 
Não conseguiria ver a conexão entre as duas coisas, e questionaria. Talvez eu pensasse: o que tem a ver parar de pensar com buscar provas sobre a existência? Seria como se eu tivesse um plug de três pinos tentando encaixar numa tomada de dois furos.
 
 

SOBRE PENSAR DEMAIS

Se formos perceber bem, nesse discurso Alan Watts não diz para pararmos de pensar, ele fala que pensamos demais e que estamos presos nesse ininterrupto movimento compulsivo mental, mas não é raro entendermos que isso significa uma recomendação para pararmos de pensar. 
Se a mente pudesse relaxar mais profundamente, aquietar-se naturalmente, e se pudéssemos fazer algum tipo de prática onde pudéssemos ganhar perspectiva sobre ela, sobre o próprio pensar, então uma outra resposta poderia vir, uma que poderia fazer ver que pensar demais é de fato uma compulsão, que escraviza o homem e ofusca profundamente sua visão da realidade... Que distorce o que ele entende por realidade, e que isso obviamente se parece bastante com uma droga. 
O efeito maligno envolvido é justamente o próprio bloqueio a uma outra compreensão da realidade, mas que só se torna evidente (ou seja, que só se torna uma evidência) para aquele cuja mente foi dada a chance de relaxar e ser vista em seu movimento obsessivo. 
Se isso não acontecer, pensar compulsivamente vai ser a única realidade que existe. E não vamos entender que problema há nisso.


"Uma pessoa que pensa todo o tempo não tem nada a pensar exceto pensamentos. Por isso perde contato com a realidade, e vive num mundo de ilusão".

 — Alan Watts, em "Alan Watts Teaches Meditation" (1992)



SOBRE NÃO GOSTAR DE FICAR SOZINHO

Watts também não falou em "não gostar de ficar sozinho", ele falou em  "fugir de si mesmo", que traz uma ênfase muito maior num tipo de medo íntimo que deveria ser no mínimo intrigante ao questionador sério. 
A pergunta poderia ser substituída por "Porque tenho essa reação de fugir da minha própria presença? O que pode haver de tão ruim no meu simples silêncio natural de ser? Será que faz sentido virmos a existir para termos tal desconforto de ficar conosco mesmos, ao ponto de querermos fugir dessa situação? Será que isso não mostra que talvez exista algo de errado justamente nisso?"
Enfim, os questionamentos fazem sentido, dentro de um paradigma. As respostas de Alan Watts idem. Talvez não tenham sido suficientes para o questionador, talvez demonstrem a limitação dos paradigmas, talvez precisemos de mais pontes entre paradigmas, ou adaptadores de pinos iguais entre perguntas a respostas.