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terça-feira, 16 de novembro de 2021

Troquemos de mestres - Flávio Siqueira

Troquemos de mestres

 

Flávio Siqueira



Me disseram na escola que o ser humano é o único animal racional. Com o tempo passei a desconfiar que talvez não fosse verdade. Bastava observar os animais, todos eles, e perceber algo além dos instintos, um tipo de comunicação sutil, expressões de inteligência, diferente dos humanos, mas não por isso inexistente, muito pelo contrário.


Mas e a tal racionalidade do bicho homem? Havia mais impulsos do que reflexão, mais instinto do que consciência, mais reflexos condicionados pela própria cultura do que escolhas ponderadas, equilibradas, racionais.


Enquanto os chamados "seres irracionais" vivem em equilíbrio com o planeta, nós, os "racionais" desenvolvemos algo que chamamos de "vida moderna", uma cultura completamente predatória, seja em relação à natureza, seja em relação ao semelhante.


Nos autodestruímos por impulso, aceitamos condicionamentos que frequentemente nos deslocam para terras estranhas, terras que não parecem com nosso chão, outro habitat que, com o tempo, passa a ser nosso.
 

Me refiro a artificialidade das relações, a superficialidade dos sentimentos, a compulsão por distrações, a necessidade de "alegrias" incessantes; nosso medo da solidão, nosso pânico do sofrimento, nosso terror diante da morte.
 

Antinaturalmente passamos a vida tentando negá-la, construímos uma bolha de distrações tentando pensar que seremos eternos, homens e mulheres gargalhantes que dominarão o planeta, os animais, e, se possível, os semelhantes mais fracos. Por que não?
 

Que tipo de racionalidade nos faz pensar que somos os únicos seres pensantes na terra? Alias, o que nos faz pensar que de fato pensamos?
 

Talvez esteja na hora de elegermos outros mestres. No lugar de ideologias políticas, os mestres gatos nos ensinarão como relaxar e viver em paz. Prefiro trocar os debates sobre ética e moral pela fidelidade dos cães que não fazem nenhuma distinção entre um mendigo e um banqueiro.
 

Os mestres pássaros ensinam como viver no presente, alimentando-se do que o dia chamado hoje reserva, livres em suas melodias que saúdam as manhãs.
 

Não quero mestres homens. Pessoalmente me inspiro com as mestres formigas, que de alguma maneira se organizam para construção de seus formigueiros, carregam pedaços de folhas, pedrinhas, trabalham incessantemente sem que uma se coloque em superioridade em relação à outra.
Sou discípulo dos peixes, os que vivem pacificamente em um mundo desconhecido para mim e, talvez por isso, de alguma maneira, ainda preservado. Namastê, mestres minhocas! Vocês que cuidam da terra, que trabalham silenciosamente sem necessidade de aplausos ou reconhecimentos. Perdoe por suas irmãs esmagadas sem nenhuma razão por nós, os seres racionais.
 

O que seria dos pobres e dependentes humanos sem o trabalho de vós, mestres abelhas? Haveria equilíbrio se os sábios sapos não existissem? Será que nós, avançados e sábios animais racionais, os únicos racionais, existiríamos sem o trabalho das senhoras, mestres baratas, que convertem nitrogênio em fertilizantes?
 

Nossa irracionalidade nos levou para muito longe de casa. Admiramos nossas construções, aplaudimos nossa insanidade projetada em sistemas autodestrutivos, chamamos uns aos outros de "mestres" e deixamos de enxergar que há consciência em todo o planeta, a terra fala, os bichos ensinam, tudo se conecta, se comunica.

Troquemos os mestres, sejamos humildes, suficientemente abertos para aprendermos com seres mais simples, justamente por que esses não se corromperam com a própria luz. São filhos da terra, irmãos uns dos outros, vivendo entre nós com sua silenciosa sabedoria, presentes enquanto não destruímos tudo em nome de nosso progresso.


Namastê mestre bicho do alface! Perdoe os humanos. Temos sido a mais eloquente expressão da irracionalidade animal.


quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Sua Versão - Flávio Siqueira

Mais um excelente texto para reflexão de autoria de Flávio Siqueira, abordando de modo 'cortante', nossa mania de acreditar que nosso paradigma é melhor que o paradigma do outro... 

Nossa visão de mundo, nossa filosofia, nossa ideologia... o quanto tudo isso de fato nos aproxima da realidade, da verdade mais pura sobre qualquer coisa?

No fundo, o que vemos, senão um fragmento da paisagem, pelo "buraquinho de uma fechadura"?

 

Sua Versão

Flávio Siqueira

Você só conhece uma versão. Olha por uma única fresta e pensa que viu tudo. Sente-se seguro por acreditar que sabe. Pensar que sabe lhe deixa seguro.

A ciência pensa que sabe, a filosofia imagina ter chegado a algum lugar, a teologia orgulha-se sem saber que não sabe.

Nada é exatamente como percebemos. A vida está em movimento, toda perspectiva fixa é reducionista.
Você só vê pela fechadura, não sabe quase nada, portanto seja humilde. Esse é o primeiro e mais básico sinal de sabedoria. Ainda há muito para aprender. Felizmente

Seus olhos

Você é um jeito de ver. Suas verdades, certezas, os cenários que conhece, tudo reflete você.
A mesma crença pode ser compartilhada por milhões de pessoas, mas haverá nuances, colorações absolutamente vinculadas às percepções de quem vê.
Podemos chamar pelos mesmos nomes, mas serão apenas "nomes".
O mundo de fora reflete o de dentro e o de dentro se projeta no de fora, de modo que dificilmente sabemos quando é "o mundo" ou quando "sou eu".

Sua mente é o lugar de onde você observa a vida, portanto seu olhar denuncia onde você está. Ninguém vê exatamente como você. Ninguém é exatamente como você. Esse lugar é só seu. Você é seu olhar. Como sente, como escolhe, como pensa, com se movimenta na história, a sua história.

Quase não vemos

Só enxergamos a superfície. Quase não vemos a conexão entre acontecimentos, o quanto se vinculam, complementando-se, provocando desencadeamentos de situações que jamais teremos acesso. Por isso é melhor não ter pressa em julgar nada. Cada evento carrega bilhões de possibilidades. Nós, com nossa mente condicionada, só percebemos uma, duas, três no máximo.

Caixas

Caixas são nossas tentativas de lidar com o que tememos ou desconhecemos, com o que é maior do que elas, com o que é selvagem, como tudo o que é.
Tigres nas jaulas, amor em caixas. Leões nos zoológico, Deus na teologia.
Enquanto mantemos pássaros em gaiolas, acreditamos que a espiritualidade cabe em religiões.

São nossas regras, nossos códigos, nossa moral, nossos preconceitos se tornando maiores do que as pessoas, sobrecarregando-as, fazendo com que pensem que a liberdade é uma utopia, um erro. Engano: a liberdade é a essência do ser e por mais que as caixas nos protejam chegará o momento em que precisaremos sair delas.

Há milhares de anos filósofos, religiosos e cientistas tentam responder qual o sentido da vida. Há muitas explicações, muitas tentativas, mas nunca haverá contundência definitiva enquanto a pretensão for encontrar uma resposta absoluta, que se encaixe para todos. O sentido é pessoal. Reflexo da somatória de significados cotidianos que se projetam no caminho. Para mim o sentido da vida agora é escrever esse bilhete para você. Depois? Depois descobrirei. Acho que todo sentido da existência se projeta no agora, no lugar onde vivo, no olhar que sou.





terça-feira, 22 de junho de 2021

Revolução: que(m) precisa mudar?

Proponho a revolução!


de Flávio Siqueira

Você já sentiu que as peças que estamos usando para construir o quebra cabeças de nossas vidas não se encaixam? Basta o mínimo de atenção para ver que tem muita coisa errada.
Por exemplo, há poucos dias uma entidade internacional de apoio a programas de desenvolvimento chamada OXFAM divulgou um relatório desanimador. Apesar do que os governos anunciam, a concentração de riquezas no mundo está aumentando.
Segundo a entidade, em pouco tempo a riqueza acumulada por 1% da população será superior a tudo o que os 99% restantes possuem. O relatório mostra que, apesar de produzirmos alimentos suficientes para suprir à necessidade três vezes superior a demanda de habitantes do nosso planeta, uma em cada nove pessoas no mundo ainda passa fome. É muita coisa.
Mas os números são chatos e podem ser contra argumentados como fazem com habilidade os políticos. Deixando-os de lado, preste atenção em como a maioria de nós conduz a própria vida. Olhamos com naturalidade um sistema que chama a casa própria de “sonho”. Não tenho conhecimento de nenhum animal que precisa de tanto esforço para ter um canto na vida. Somente o bicho humano é capaz de criar um “mercado imobiliário” tão voraz, como especialmente o das grandes capitais.
Nos acostumamos com a desigualdade e a justificamos. Para muitos de nós, os milhões de homens e mulheres apertados em um ônibus abafado e lotado é parte da paisagem natural, assim como as famílias que moram na rua, como os cenários de miséria contrastando com ambientes de luxo. A falta de educação que inibe o pensamento crítico, que nos transforma em bonecos do consumo, é aceitável, aderimos ao “cada um por si” sem percebermos que esse olhar fragmentado é justamente o que viabiliza tamanha desigualdade.
Não estou falando sobre socialismo, que não deu certo onde foi testado. O capitalismo também não. Apesar da prosperidade ostentada por poucos, não posso me conformar com um sistema em que 1% da população concentra mais riquezas do que todo o resto. Isso não pode ser encarado como algo que deu certo.
Enquanto nos distraímos tentando nos aproximar dos exemplos propagandísticos de sucesso, fechamos os olhos para a grande maioria que jamais terá o mínimo.
Há os que não se incomodam com o ritmo alucinante de trabalho que rouba um pai da família, a mãe dos filhos, que congestiona as cidades, que separa as pessoas, que provoca doenças emocionais. Esses encaram o fato de que a educação, a fé e a política se transformaram em “mercados” disputando nichos com avidez, em muitos casos sem nenhuma ética, como um fenômeno absolutamente aceitável. Tudo ganhou preço, tudo virou mercado e perdeu o valor.
Talvez nossa maior dificuldade em virar o jogo seja a crença de que nada podemos fazer. Esse mesmo sistema nos convence de que somos impotentes, de que o preço do progresso é a desigualdade e tudo o que nos cabe é lutar, lutar muito, para quem sabe um dia encontrarmos lugar nos vagões da frente caso não queiramos a mesma morte dos que ficaram para trás.
Fomos convencidos de que não há escolhas, ou aderimos, ou morreremos com nossas “ideologias utópicas”.
Não estou aqui para propor novos sistemas. Não acredito que simplesmente mudar um “ismo” por outro seja suficiente para que haja justiça. Pessoalmente só vejo um caminho: O movimento individual que promove revoluções em seus micro sistemas.
Em cada mente que desperta há a implosão de um sistema. Quem vê sai da bolha e passa a se relacionar com ela a partir de outra perspectiva. Não estou dizendo que esse indivíduo necessariamente impactará o todo, mas o que é o todo se não a somatória dos indivíduos?  Se cada um de nós se propuser a repensar o estilo de vida, incluindo nossas prioridades, nossos sonhos, nossos valores, seremos agentes subversivos onde quer que estejamos. E tanto faz se a maioria não se importar. Eu me importo e viverei conforme minha consciência.
Acredito que o maior mal dos nossos sistemas, sejam eles quais forem, é a inibição do pensamento. Melhor sentir do que pensar, melhor correr do que parar e enxergar, melhor entrar no fluxo frenético da maioria imbecilizada, do que questionar sobre o que estamos fazendo com nossa própria vida. O resultado disso é a gigantesca desigualdade e nossa incrível passividade zumbificada diante dela.
Proponho a revolução! Não as que usam armas, nem as panfletarias com seus discursos cheios de amargura, proponho que nossa insatisfação seja alavanca de um reposicionamento de vida. Proponho que deixemos de esperar tanto dos outros, dos governos, dos empregadores, do Batman, do Obama ou de Deus e façamos o que dá em nossos mundinhos. Há muito a fazer em seu mundo!
A revolução que proponho se concretiza sempre que um indivíduo inverte a lógica do sistema em si, e reflete naturalmente o novo olhar para o todo. Se nossa escolha é viver dentro do sistema não precisamos permitir que o sistema viva em nós.
Até onde isso pode nos levar não faço a mínima ideia, mas sempre que vejo o mundo como está, o que me consola é a esperança de que pequenos movimentos subversivos são possíveis; mentes que não viam agora veem, gente resignada agora pensa, mundos encurralados por tanta pressão encontram um caminho que antes de tudo seja reflexo de outro olhar.
Não é o mundo que precisa mudar, é o nosso olhar. Quando isso acontece, o mundo, sem escolha, simplesmente acompanha. Se isso deve começar por alguém, por que não pode ser com a gente?

sexta-feira, 5 de março de 2021

Nosso pálido ponto humano

Nosso pálido ponto humano

 

Flávio Siqueira


Olhe de novo para aquele ponto. Um corpo parado adiante. Essa é minha casa, isso sou eu. Nele, todos a quem amo, todos a quem conheço, qualquer um dos que escutei falar, cada ser humano que existiu, para mim, viveu sua vida aqui.
 
O agregado da alegria e do sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, em mim, num grão de pó sob um raio de sol.
 
O corpo, um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, vieram eles ser amos momentâneos duma fração de corpos como esse.
 
As nossas exageradas atitudes, a nossa suposta autoimportância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são reptadas por este pontinho de luz frouxo, estendido diante do todo.
 
Somos como grãos solitários na grande e envolvente escuridão cósmica.
 
Nossos corpos são os únicos lares conhecidos, até hoje, que podem albergar o que chamamos de consciência humana.
Não há mais algum, pelo menos no próximo futuro, onde nossa espécie possa emigrar.
 
Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que esta distante imagem do nosso miúdo mundo, nosso insignificante corpo, onde a vida acontece para nós. 
 
( Adaptação minha para o texto "Pálido Ponto Azul", de Carl Sagan)

 

terça-feira, 17 de novembro de 2020

manual para ser consciente


Ser consciente não é pensar que sabe o que é “certo ou errado”... isso não é um processo da consciência, mas da mente inquieta e moralista.


Ser consciente é, sobretudo, pacificar-se diante da vida, aquietar-se ao invés de gritar, parar, observar a si mesmo, discernir o que realmente merece estar aí.
 

Esse é um processo pessoal, por isso não há fórmulas nem “manuais do ser consciente” a não ser a coragem para desconstruir-se, livrar-se das camadas sobressalentes, abrir mão de todos os excessos, esvaziar-se, até que sobre apenas consciência. Hoje é mais uma oportunidade.

(Flávio Siqueira)

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Quando o perdão é fácil?

Perdão

   

Flavio Siqueira

 
Perdoar é difícil porque não pressupõe reciprocidade, tampouco deve se vincular a escancaradas ou tímidas demonstrações de arrependimento justamente por uma razão: Não perdoo para o outro, mas para mim.
É o perdão que me liberta do corrosivo sentimento de ter sido injustiçado, vítima de qualquer coisa, ainda que de fato eu tenha sido ofendido. Estou falando sobre um passo além, sobre uma perspectiva acima, sobre um olhar que transcende e não pode se condicionar a nenhum tipo de expectativa, deixando-se sequestrar na dependência de que, antes que eu perdoe, o outro me peça perdão.
Arrepender-se, pedir perdão, tomar consciência da ofensa é importante para o ofensor, isso o libertará do peso do ato, ainda que porventura tenha que pagar pelo que fez, no entanto, meu perdão só será genuíno se, quando o arrependido chegar, antes mesmo, ele já estiver perdoado por mim.
Não é fácil e, talvez por isso, seja um exercício tão profundo e tão pouco praticado. Experimente !
Perdão não é um aval para que o outro me fira, nem sinônimo de bondade, de "dar a outra face". Perdão tem a ver com livrar-se do sentimento corrosivo de que foi injustiçado, de que alguém te fez mal.
Pode ser que realmente tenha feito, mas considere que tudo o que pensa está relacionado a perspectiva de onde você está hoje e não necessariamente reflete as complexidades da vida e das relações.
Lembre-se, todo santo é ou já foi diabo para alguém, inclusive você. Perdoar não significa ser amigo, conviver, dar beijinho no rosto, mas seguir adiante em liberdade, sem cultivar em sua consciência a sensação de que tem o "direito" de condenar quem quer que seja. Você não tem. Você quase não enxerga além das próprias causas, como pensa que sabe as intenções do outro? 
E depois que perdoar, como lidar com a pessoa? O que fazer? 
É você quem decidirá, pode ser que retomem, pode ser que não se falem novamente, creio que isso não seja tão importante. O que vale é que, decida por qual caminho decidir, o fará em liberdade, com a leveza de quem simplesmente largou a âncora do rancor e resolveu seguir adiante. Trata-se de uma escolha. Uma escolha sua.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Consciência Expandida

Consciência Expandida

 

Flávio Siqueira

 
O que é consciência expandida se não a coragem de enxergar-se, reconhecer a própria humanidade e, a partir do que vê, agir e ser em humildade?
Sinceramente não faz nenhum diferença que tipo de conhecimentos possamos acumular, sejam ligados à física quântica, teologia, pensadores antigos (ou modernos) ou tanto faz.
Se a tal expansão não acontece em humanidade (de dentro pra fora) servirá para alimentar a mente, separar as pessoas ou gerar distração, mas o que é isso a não ser vaidade?
Cresço quando me enxergo. Quando me assumo como sou. Quando admito que não há maiores ou menores.
Somos todos aprendizes.

terça-feira, 26 de março de 2019

Doação x troca: a diferença fundamental

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Doação

 

Flavio Siqueira
A entrega não pressupõe reciprocidade. Quem doa, seja lá o que for, não deve esperar nenhum tipo de recompensa, caso contrário, não será doação, será troca. Há quem doa para acumular capital sobre quem recebe. Pensa que, porque deu, se apoderou da vida de quem deverá permanecer eternamente dependente da generosidade alheia. Não houve doação, foi armadilha.


domingo, 8 de julho de 2018

Suas dores e alegrias... o que são?


Como as sementes…

por flaviosiqueira

Dores e alegrias, dias bons e maus, gratas e tristes surpresas, quem pode evitar? Melhor que cada experiência seja como uma semente e que cada semente encontre terra boa. Somos a terra e se soubermos acolher as sementes, mesmo as doloridas, adiante, árvores frondosas surgirão.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Universos sobre pernas - Flávio Siqueira

ótima reflexão de Flávio Siqueira, a qual reproduzo abaixo:

Universos sobre pernas

Nesse espaço infinito que chamo de universo, entre galáxias, planetas, cometas chocando-se, estrelas que nascem e morrem, entre o mistério em constante movimento há um micro cosmos caminhando sobre pernas. Sou espaço que se reconhece como indivíduo, maravilhado por fazer parte de algo que não posso nominar.
Sinto-me incapaz de entender o cosmos que sou e isso me inquieta. Em que tipo de universo vivo? Que universo sou? Recorro à fresta da ciência, há tantos limites. A filosofia me ajuda na busca por significados, mas em cada resposta novas perguntas, tantas, tantas, tantas, novos dilemas, paradoxos que me mantém em movimento.
Movimento-me. Vivo no tempo que sei relativo. Grita em mim o contraste entre o eterno que habita este vasto espaço contido em um corpo, templo do que não cabe na cronologia que modifica meus traços, meus pensamentos, o mundo que me veste.  Modifico-me e mal percebo.
Sobre a janela anseio respostas. Suspiro com saudade da casa que desconheço. Suspiro. Deixo que os olhos passeiem entre o horizonte e as estrelas, que descansem sobre o teto escuro da noite na Terra e se percam, ultrapassam camadas de ar, de gases, de verdades, de crenças e se percam...
Agora tudo é silêncio. Possibilidades. Vagando, deixei de saber. Encanto, universos que se encontram, galáxias infinitas, não posso calcular, os fenômenos geram explosões devastadoras, mundos que nascem e morrem contemplados pelo silêncio do abismo em movimento, voraz em sua lógica caótica, promotora de vida, de morte, de espantos.
Sou além grão de poeira das estrelas. Forma que temporariamente assume alguma consciência e depois vai, vira outra coisa, reintegra-se ao mistério.
O corpo onde não caibo perderá a forma. Universo decantando-se em outros universos, assumindo múltiplas paisagens, outros mundos que se desfazem.
Cada expressão de consciência é parte de uma única mente. Fragmentos do absoluto reconhecendo-se entre o lapso de vida e morte, caminhando em busca de significados, esforçando-se para permanecerem, relutando em ir.
Mas talvez o único jeito de permanecer seja colocando-se no fluxo do movimento que não cessa, que modifica todas as coisas, que nos desfaz, quem sabe, para lembrar que somos parte do todo e que o todo se reconhece ao nos reconhecermos.
Somos consciências do universo. Mistérios aculturados contidos em identidades que anseiam pelo céu.
O céu, abrigo de mistérios indecifráveis, contemplados em nossas frestas, expressões simétricas dos mundos que habitam esse espaço que sou, universo que caminha sobre pernas.

terça-feira, 3 de abril de 2018

o que é que faz sentido?

Nada faz sentido

by flaviosiqueira
Nada na vida faz sentido. Entre dores e alegrias, projetos, ambições, sonhos, relacionamentos seja no nível que for. Não faz sentido crer, doar, querer, fazer, ir onde quer que seja. Acordar cedo e sair da cama com sono pra quê? Deus? Por que? Conhecer, importar-se, descobrir, planejar… 
Entre o nascimento e a morte não há nada que faça sentido. A não ser que haja amor.



sexta-feira, 2 de março de 2018

Intransigências revelam quem somos

Intransigências

 

Flávio Siqueira

 

Intransigências revelam quem somos.
O ser moralista, dedo em riste, expõe seus conflitos e contradições, tentando compensar na imagem, o descompasso de dentro. Defendendo raivosamente “a família” e os “bons costumes” expõe seu íntimo, seus conflitos, contradições, o descompasso de dentro.
Pior ainda quando o radicalismo é institucionalizado e vira bandeira ideológica.
Seja em “donos da verdade” que atacam e se colocam como “reserva moral”, ou movimentos que reclamam ser "sociais", se articulam cheios de ódio, tentando impor o que só pode ser compreendido em consciência. Ódio em nome da consciência.
Sem consciência, resta apenas a casca, os discursos, a aparência, os gritos, o avesso. Auto-afirmam-se no que acusam. Se confessam no que combatem.
O ódio nasce das paixões. Abominação se vincula a admiração. Perseguições são confissões de quem combate no outro o que identifica em si mesmo, mas não tem coragem de encarar.
O avesso da imagem de fora, da cara para consumo externo, da aparência que só convence quem não quer ver. Proferiu sua própria condenação.
É preciso enxergar-se, nem que seja apenas por auto preservação.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

movimentos, perspectivas e significados

As experiências, cada uma delas, podem ser interpretadas por infinitos significados. Quando acontece só vemos um deles, mas o tempo no ajuda a perceber que nada é uma coisa só. É o movimento que altera as perspectivas e consequentemente os significados.
(Flavio Siqueira)


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

quando é que você vai ter paz?


Essa sede, essa inquietude, essa insaciabilidade que nos queima. Essa pressa de chegar não se sabe ao certo onde, a saudade que sentimos, mas desconhecemos do que, de quem, de qual tempo? Isso que nos deixa angustiados, esfomeados, distraídos. Cessará. Haverá paz quando percebermos o insano fluxo da cobiça onde nos colocamos. Haverá paz quando reconhecermos que pouca coisa é necessária, que a vida é o presente, que tudo o que precisamos potencialmente já é e mora em nós. Cessará e haverá paz.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

um pouquinho de cada vez... mas todos os dias



Aquiete-se um pouco por dia. Que seja uma porção, um pequeno avanço em cada evento, um passo em cada oportunidade, até que esteja confortável em si mesmo,os ruídos diminuam e as percepções fiquem mais claras. Caminhemos sem ansiedade para que tudo se encaixe como deve ser.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A distância entre o que percebo e o real

 

Mais do que posso conceber

by flaviosiqueira

Nada é exatamente como percebemos. Cada um de nós enxerga a partir de lentes embaçadas, mentes condicionadas por tantos conceitos, tantas impressões, tantos vetores que não nos damos conta.
Você só conhece uma versão. Olha por uma única fresta e pensa que viu tudo. Sente-se seguro por acreditar que sabe. Pensar que sabe lhe deixa seguro.
A ciência pensa que sabe, a filosofia imagina ter chegado à algum lugar, a teologia orgulha-se sem saber que não sabe.
A maioria de nós se apegou às próprias certezas e a partir delas construiu castelos imaginários que o tempo, as perdas, as dores, os imprevistos da vida podem facilmente destruir. Tememos a desilusão. Enxergar desilude.
E então vivemos como quem se esforça para acreditar que tudo será como parece, que os castelos serão inabaláveis, que as coisas farão sentido conforme a lente embaçada e a vida será sempre mar tranquilo, como se todas as possibilidades, todas as variáveis, todos os caminhos coubessem na caixinha de fósforo que vivo, no grãozinho de arroz que sou.
Mas essa é só uma parte da história. É a parte inquietante, pelo menos sob a perspectiva da mente que se esforça para assumir o controle, que projeta sobre o ego a incumbência de assumir-se como ente, como ser que não é.
Até que não reste alternativa a não ser enxergar a própria ignorância. Desconstruir-se é assumir-se como é, reconhecer as incompletudes, sem disfarces, sem camuflagem, sem medo.
Nada é exatamente como percebemos.
A vida inteira se movimenta para nos mostrar que toda perspectiva absoluta é reducionista e nos livrar da tendência tão arraigada de nos identificarmos com a imagem do espelho, a superfície dos acontecimentos, a sensação de controle.
É preciso coragem para soltar as muletas e caminhar sem escorar-se em nada. Calar a mente, pacificar-se exatamente por saber que a inquietude é improdutiva, as construções mentais ilusórias, o sentimento de posse passageiro, a sensação de poder enganosa.
Você só vê pela fechadura, não sabe quase nada, portanto, que o sentimento diante da vida seja de reverência.
Que haja silêncio e pacificação suficientes para entender os sinais sem ficar se debatendo, conectar os movimentos sem reclamação, perceber que em cada acontecimento, por menor que seja, existem bilhões de possibilidades, todas com potencial para aprofundar sua consciência, mas você só percebe uma, talvez duas, quem sabe três, nada além.
Aquiete-se.
Você está vivo, experimentando agora a condição de ser-humano e isso já é mais do que pode entender.
Se não sabemos quase nada, sejamos humildes e simples de coração, abertos o suficiente, atentos ao universo que nos cerca, que nos habita, que se projeta no caminho e, sobretudo, gratos pelo espantoso e inexplicável fato de existirmos.
Por que você se inquieta por tão pouco? Ainda que a vida seja um completo mistério, estar aqui já é um enorme privilégio. Para mim, isso já é mais do que posso conceber.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

o real sentido daquilo que fazemos (seja o qual for)

o verdadeiro significado do trabalho (qualquer trabalho)


Conta a história que um certo viajante, chegando próximo a um prédio ainda em construção, passou a dialogar separadamente com três dos construtores que ali trabalhavam. Todos faziam tarefas semelhantes e aos três o viajante fez a mesma pergunta: o que você está fazendo? 
O primeiro disse o óbvio: “Estou assentando tijolos”. 
O segundo conseguia notar algo além e respondeu: “Levantando uma parede”. 
O terceiro, contudo, respondeu animado: “Construindo a catedral da minha cidade”.

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Neste breve conto antigo, ficou bem ilustrada a importância de aperceber-nos do sentido daquilo que fazemos... 
A relevância de se compreender o propósito daquilo que se faz, independente do que seja, ou do contexto no qual se encontre, é algo muito valioso, por várias razões:
se algo dever ser feito, deve ser bem feito; mas a motivação para assim fazê-lo depende do quanto vejo, do quanto enxergo, além do meu próprio nariz. Qual é a minha perspectiva? Qual é o meu ângulo de visão das coisas? necessito compreender por que faço o que faço!
Quando tiver clara essa dimensão, essa profundidade de compreensão, nesse exato instante, saberei, primeiro, se devo continuar fazendo o que faço, do modo como faço;
Por fim, haverá em mim a gana, a coragem e a tenacidade para dar cabo da tarefa, não importam as condições, nem o preço que pagarei para poder concluí-las!