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domingo, 10 de abril de 2022

A Vida Secreta de Walter Mitty - o Filme

"A Vida Secreta de Walter Mitty"


Eis uma obra de arte que vale a pena assistir, até o fim!
 
Classificado como 'comédia dramática' com traços de romance e fantasia, este filme (baseado em um curta metragem que leva o mesmo nome) pode fazer você realmente repensar alguns aspectos da sua vida...
 
O protagonista (Walter Mitty) faz o papel de um tímido funcionário da 'Revista Life' (ele é o gerente de negativos da revista), que embora mantenha boa relação com sua família e seja dedicado ao trabalho, não consegue viver sua vida plenamente. Ele se entrega facilmente à divagação fantasiosa (que são interpretados como "apagões"), o que o torna praticamente impotente para tomar decisões relevantes que poderiam fazer grande diferença em sua vida. 

Você vai notar que Walter mostra-se extremamente inseguro em quase todos os aspectos de sua vida, em especial no que se refere a relacionamentos (para se ter uma ideia, ele tenta preencher um cadastro em um site/aplicativo de encontros, mas sequer consegue enxergar algo de interessante em sua própria vida, para mencionar em seu perfil). 
 
O começo do filme não promete muito e você será tentado a desistir. Mas espere passar os primeiros dez minutos e você pode ter uma boa surpresa, com ótimas oportunidades para reflexão. 

Como quase toda comédia, há aqueles exageros e hipérboles típicos, mas, afinal, tal recurso se permite em razão da licença poética... então não seja tão crítico, relaxe e aproveite... No enredo, ao mesmo tempo em que o negativo da fotografia que estampará a última edição física da revista desaparece misteriosamente, a própria revista passa por uma transformação para tornar-se exclusivamente digital, o que exerce enorme estresse sobre o protagonista, que se vê pressionado a tomar uma atitude. Eis o momento de virada: Walter embarca em uma intensa e improvável aventura (em claro contraste com a mesquinhez da sua vida até então).
 
O personagem principal então passa a se permitir viver mais o momento presente e aos poucos vai deixando a fantasia e a idealização de lado. Agora o espectador se depara com um novo filme! E cada aventura que o protagonista vivencia torna-se um convite para uma reflexão íntima do espectador, ao mesmo tempo em que se mostra como uma metáfora de algum desafio que qualquer um pode estar enfrentando em sua própria vida. 
 
Então é o momento de você começar a perceber a mensagem fundamental: Não existem vidas comuns!  
Walter Mitty é cada um de nós (embora não seja nenhum de nós)! 
Walter deve aceitar os desafios e mudar radicalmente sua trajetória de vida? 
 
Cada um de nós tem sua própria trajetória, suas próprias demandas íntimas, sociais, familiares... Então não é o caso de seguirmos literalmente o que Walter faz... afinal, Walter tem sua própria vida para viver... 
Trata-se de cada um seguir seu próprio íntimo, atender ao anseio de seu próprio Ser, sua própria essência.

O final da aventura de Walter pode ser uma agradável e emocionante surpresa, a depender do seu olhar.  

E tem mais: O enredo também consegue mesclar temas contemporâneos, como a modernização da tecnologia da informação e seus reflexos sobre as relações sociais e pessoais, com temas intimistas que retratam a necessidade que todo ser humano tem de ser prático e dar um sentido mais profundo a sua própria vida, em meio aos desafios nem sempre agradáveis que surgem no dia a dia. 
 
No final, você pode ter aquela sensação de que pode estar desperdiçando sua vida numa rotina sem muito sentido (embora a gente sabe que todas as rotinas tem sua razão de ser). O que é preciso é atribuir o sentido. É isso que podemos fazer, ao invés de simplesmente descartar as tais rotinas. Às vezes, tudo que precisamos é de uma oportunidade para uma reflexão como esta! 
 
Rotinas podem ser ruins ou boas... e o imprevisível nem sempre é ruim. O importante é compreendermos que não são as situações, mas nossas atitudes diante das situações, que realmente vão fazer a diferença no final. 

Que lições podemos tirar do filme?

Depende de você! 
  • A vida é para viver, não para sonhar.
  • Saia da zona de conforto e explore o mundo ao seu redor. 
  • Viva o momento presente.
  • Você já tem (sempre teve) aquilo que está procurando.
  • Não é tarde demais para começar a ser a pessoa que quer ser.



 

Data de lançamento: 20 de dezembro de 2013 (Brasil)

Diretor: Ben Stiller

Adaptação de: The Secret Life of Walter Mitty

Cinematografia: Stuart Dryburgh

Música composta por: José González, Theodore Shapiro, Rogue Wave



quinta-feira, 24 de junho de 2021

O Jogo de Xadrez e sua profunda eloquência sobre a vida


O xadrez é um jogo antiquíssimo, todos sabem.
Diz uma das lendas que foi inventado há milênios na Índia, na época de um tal rei Cheram... quem sabe?

Um de seus aspectos mais fascinantes está na grande quantidade de símbolos e metáforas que podemos extrair, a partir de uma dada visão de mundo e de uma reflexão. 
 
O que podem simbolizar as peças ou o próprio jogo de xadrez em si mesmo?
 

Xadrez: a profunda eloquência de um jogo

 Uma das metáforas mais conhecidas é a famosa analogia com o 'Jogo da Vida': a vida seria aquilo que acontece no "tabuleiro", sendo cada uma de nossas atitudes, uma "jogada", um "lance". Assim, nossas jogadas inteligentes e oportunas, tem como resultado o sucesso, a saúde e a felicidade. Se as jogadas forem mal pensadas ou inoportunas, o resultado será o fracasso, a enfermidade e o sofrimento. 

Mas, o que garante a vitória no jogo da vida? Basta conhecer as "regras do jogo"?  

"Sabemos" o que devemos ou podemos fazer... até decoramos as regras, estudamos manuais, anotamos e colecionamos conselhos, lemos livros, não poucos... pronto! agora estamos prontos prá começar! Certo?

Parece que não. No xadrez ocorre o mesmo: estudamos, ensaiamos na cabeça, imaginando possíveis melhores lances, tentando antever movimentos dos demais jogadores... 
Mas na hora do jogo de verdade, na vida prática do dia a dia, conforme peças brancas e negras se movem, vamos nos perdendo e nos confundindo, esquecendo tantos conselhos e, mesmo sabendo as regras, lá estamos ansiosos, tensos, agitados...
É possível reorganizar as posições de suas peças, reforçar defesas, repensar ataques, revisar estratégias etc...

mas qual é mesmo o objetivo do jogo?
Você já pensou a respeito? 
No xadrez é fácil saber... mas qual o objetivo de sua vida?
Qual o sentido de viver? Por que é mesmo que estamos "jogando" o jogo da vida?

Seria o objetivo principal do jogo, simplesmente acumular/capturar o maior número de peças que aparecerem pelo caminho? 

Parece que não... "acumular" nem sempre é uma boa jogada... há muita ilusão de ótica, armadilhas. Jogadores medianos já sabem que quase nunca isso funciona bem. Não basta acumular peças para vencer o jogo. Aquilo que parece um ganho fácil, pode mostrar-se a causa da derrota, mais rápido do que se supunha.

Então, o jogador maduro geralmente é mais prudente e sábio... não está primariamente ocupado em ganhos imediatos... ele sabe que o principal não é 'acumular', pois cada movimento tem seu preço, sua consequência. Principalmente, ele não desperdiça movimentos!

O iniciante tende a pensar que suas peças sempre estão ali para lhe ajudar e, por outro lado, que as peças da cor oposta estão ali para lhe atrapalhar. Mas o jogador sábio sabe que tudo é relativo. Uma peça, independente da sua cor, pode tanto ajudar como atrapalhar... peças que pensávamos nos travar o avanço, algumas vezes se revelam excelentes escudos contra problemas maiores.
Então, o sábio não pensa em termos simplistas e meramente dualistas: "peças boas" e "peças más"... Na verdade, lances muito bons em certo contexto, podem ser desastrosos em outros, e vice-versa.   

No xadrez, como na vida, bem e mal, bom e ruim, não são absolutos. Não é bom prejulgar nenhuma peça ou situação de jogo...
Tudo pode mudar, e tudo muda, rápido ou não. No jogo, como na vida, nenhuma condição é permanente. Ora você trabalha, ora colhe frutos, ora frutos doces, ora amargos... isso não tem fim!

No jogo de xadrez, como no jogo na vida, demorar demais para aprender o básico, trará sofrimento extra e talvez desnecessário. Há regras e são suas aliadas, quando você as compreende e as respeita na medida certa, mas se tornam suas inimigas, quando são ignoradas, subestimadas ou superestimadas. Todo extremo é problemático. Só o equilíbrio é saudável.


Mas o verdadeiro sábio não é aquele que só vê a vitória como opção. No jogo, como na vida, o importante é desfrutar da partida!
Viver (ou jogar) como se estivesse numa luta trágica para "vencer a morte, custe o que custar" não lhe trará conforto nem felicidade alguma! Ao contrário! Tal jogador será consumido pela ansiedade, pela irritação e pelo desapontamento, até resultar enfermo, do corpo e da mente!

A morte ou o fracasso vai chegar, mais cedo ou mais tarde... e para todos. Mesmo para os "vencedores". 
Sobretudo, o sábio se lembra que, no final de tudo, terminada a partida, "todas as peças voltam para a sua caixa". 
E tudo aquilo que se acumulou, todas as peças e posições conquistadas... tudo, tudo, volta a zero... o jogo terminou e o tabuleiro é guardado. Fim de jogo!
Então, não faça drama! Prá quê? Não converta um erro seu ou do seu oponente, em motivo de vanglória ou de vergonha ... Estamos todos jogando e aprendendo. Então desfrute! 

...Mas sempre ciente de que tudo irá se desvanecer, mais lenta ou rapidamente do que você esperava! Não tente "congelar" o jogo, paralisar a posição das peças! O jogo é, por natureza, dinâmico, repleto de movimento e fluidez... só o sofrimento aguarda aos que ignoram essa tão simples e notória verdade da vida, essa verdade do jogo.
Não perca o prazer do jogo! não perca o prazer da vida, por causa de eventuais erros e acertos! 

Mas há, por fim, uma metáfora ainda muito mais profunda, mais esotérica e mais desafiadora para refletirmos com imparcialidade e sem paixão:

No "tabuleiro do jogo da vida", finalmente nos damos conta de que nós somos as peças... não somos o "brilhante jogador", nem o "dono do tabuleiro"!

O que se constata durante o jogo? O "jogador", o "dono do tabuleiro e das peças", joga como quer... ele não precisa consultar "suas peças" sobre suas escolhas de movimento... mas não se ofenda, ok?! não leve para o lado pessoal... não há nada "pessoal" no modo como o jogador lida com as peças no tabuleiro.


Veja e entenda: Nenhuma peça, seja o "rei", seja o "peão", compreende a "mente" ou a estratégia do jogador, nem tampouco tem qualquer visão ampla do cenário total do tabuleiro... ela (cada peça) ignora profundamente, não faz a mais vaga ideia do que aconteceu antes do jogo começar, do que está acontecendo durante o jogo ou do que vai acontecer depois que a partida terminar...

As peças (que somos cada um de nós), definitivamente, não compreendem a inteligência dos movimentos que vislumbra sempre e tão somente a partir de seu limitado ponto de vista...

Por que fingir que sabemos alguma coisa sobre alguma coisa da vida?

Decididamente, num jogo de xadrez, não são as peças que decidem seu próprio destino! Isso não impede que, em uma fábula imaginada por algum bom escritor, algumas peças se achem "donas de si mesmas", pensando que controlam os acontecimentos a sua volta, imaginando que decidem quando vão se mover para lá ou para cá, ou quando vão sair do tabuleiro... quanta ilusão!

A verdade é que não decidimos nada! 

Nossas escolhas não são "nossas" escolhas. Temos, isso sim, a impressão de que decidimos e escolhemos. O nosso pensamento, dentro de um paradigma, nos convence disso! E nós acreditamos.

Veja só: Surgimos neste mundo e, tal logo nascemos, somos programados pelo próprio DNA, desde a ponta do pé até o último fio de cabelo... e se já isso não bastasse, temos ainda os condicionamentos promovidos pelo meio que nos cerca (ambiente geográfico, cultura, época, contexto social...).

Então, se a vida e o corpo que temos é resultado de uma programação e de um condicionamento que nos foi dado seja pela natureza, seja pela cultura, então de qual liberdade de escolha estamos falando?

Então "não devo mais fazer escolhas"?  Claro que pode! 

Escolha! Mas escolha consciente... escolha consciente de qual é o seu papel no "jogo da vida". Não escolha iludido, sobre qualquer controle que você suponha ter sobre os outros, sobre o destino do mundo. Não se iluda e não sofra desnecessariamente.

Perceber essa questão pode lhe parecer muito limitador e frustrante no início, mas espere um pouco e reflita melhor:

No início, achamos que sabemos tantas coisas...

Depois, notamos que não é o caso: de quê nos adianta tantos saberes na cabeça, tanta "riqueza espiritual", se não sabemos quem somos ou de onde viemos objetivamente? 

Objetivamente, nada sabemos sobre a "caixa das peças" de onde saímos, ou sobre "quem" ou sobre porquê fomos moldados como "peões", ou como "torres", ou "cavalos" ou "bispos"... nossa origem, tal como o destino, é completo mistério...  Só o que temos, convenhamos, são punhados de teorias aqui e crenças acolá, especulações contraditórias sem fim...

Note bem: mesmo com tanta ciência e tecnologia, nada sabemos sobre os movimentos da vida... e quase nada sobre tudo que acontece ao nosso redor agora mesmo... nossos sentidos, limitados, pouco nos dizem sobre o que nos cerca verdadeiramente, ou sobre tudo que está acontecendo neste exato momento, aqui e agora... 

Menos ainda sabemos sobre o que aconteceu remotamente ou sobre o que acontecerá daqui a três horas ou três dias...

Enfim, sobre a origem de pensamentos ou dos mundos... só sonhamos que sabemos... o fato é qualquer micróbio ou fenômeno atmosférico tem mais poder sobre nós e sobre o destino do planeta do que todas as nossas ciências atuando juntas.

Que surpresa quando nos deparamos com essa realidade! Que benção percebê-la! que libertação! 

Quando descobrimos que não controlamos a vida (ou a morte), que não controlamos os outros, que não controlamos nossos próprios pensamentos ou emoções (frutos de cérebros complexos e, por vezes, confusos)... quando nos damos conta disso tudo, finalmente podemos relaxar e viver, deixando toda a ansiedade e temor de lado!

A partir de então, começamos a nos aperceber daquilo que é a realidade que permeia tudo, o imutável por trás de todas as mutações... por trás do destino e dos cenários de todas as coisas aparentes...

A partir dessa compreensão, nenhum "peão" ou "cavalo" precisa mais provar nada para ninguém, não precisa mais se debater para tornar-se o que não é, mas finalmente pode se concentrar em ser aquilo que em essência já é... ninguém mais precisa se comparar ou competir alucinadamente, achando que está "fazendo" isto ou aquilo...podemos todos, peões, cavalos, bispos, torres, damas e reis...  finalmente aquietar e descansar naquilo que somos verdadeiramente!

Não é mais necessário sofrer e se debater inutilmente ante o inevitável! Você descansa, e respira e simplesmente desfruta.

Compreenda o que é "ser uma peça", peão ou torre, rei ou dama... 

Qual peça realmente vale mais ou vale menos? 

Qual peça se aborrece mais ou menos durante sua existência? 

Qual peça é mais afortunada, mais rica ou mais sábia?

Dê-se conta do sonho, e do sonhador!!  

Observe o pensamento... e o pensador do pensamento. Veja como vem e vai... como surge e desaparece... 

Dê-se conta como, assim que o sonhador acorda de manhã em sua cama, "o jogo acaba"... o sonho se desvanece e, só mais um pouco, sequer como lembrança ele resta... desaparece o sonho, assim que desaparece o sonhador... desaparece o sonhador assim que ele acorda, simples assim. E com o sonho, assim também se vão o sonhador com suas posses imaginadas, seus cargos e encargos, suas alegrias e suas aflições oníricas... todas.

Tudo real sim, para o sonhador, e para ninguém mais... tudo real para os sonhadores que compartilham o mesmo sonho ou pesadelo.

Nossos títulos, nossas posses, nosso nome, nossos saberes, nossa identidade, nosso ego tão orgulhoso ou tão vergonhoso de si mesmo (tanto faz) e até nosso corpo com sua história: nada além de formas mentais que surgem e desvanecem como nuvens do céu. Nada mais, nada menos!

Só o que resta no fim das contas, é o que sempre esteve aí: Aquele que é, que sempre foi e sempre será!

terça-feira, 22 de junho de 2021

Revolução: que(m) precisa mudar?

Proponho a revolução!


de Flávio Siqueira

Você já sentiu que as peças que estamos usando para construir o quebra cabeças de nossas vidas não se encaixam? Basta o mínimo de atenção para ver que tem muita coisa errada.
Por exemplo, há poucos dias uma entidade internacional de apoio a programas de desenvolvimento chamada OXFAM divulgou um relatório desanimador. Apesar do que os governos anunciam, a concentração de riquezas no mundo está aumentando.
Segundo a entidade, em pouco tempo a riqueza acumulada por 1% da população será superior a tudo o que os 99% restantes possuem. O relatório mostra que, apesar de produzirmos alimentos suficientes para suprir à necessidade três vezes superior a demanda de habitantes do nosso planeta, uma em cada nove pessoas no mundo ainda passa fome. É muita coisa.
Mas os números são chatos e podem ser contra argumentados como fazem com habilidade os políticos. Deixando-os de lado, preste atenção em como a maioria de nós conduz a própria vida. Olhamos com naturalidade um sistema que chama a casa própria de “sonho”. Não tenho conhecimento de nenhum animal que precisa de tanto esforço para ter um canto na vida. Somente o bicho humano é capaz de criar um “mercado imobiliário” tão voraz, como especialmente o das grandes capitais.
Nos acostumamos com a desigualdade e a justificamos. Para muitos de nós, os milhões de homens e mulheres apertados em um ônibus abafado e lotado é parte da paisagem natural, assim como as famílias que moram na rua, como os cenários de miséria contrastando com ambientes de luxo. A falta de educação que inibe o pensamento crítico, que nos transforma em bonecos do consumo, é aceitável, aderimos ao “cada um por si” sem percebermos que esse olhar fragmentado é justamente o que viabiliza tamanha desigualdade.
Não estou falando sobre socialismo, que não deu certo onde foi testado. O capitalismo também não. Apesar da prosperidade ostentada por poucos, não posso me conformar com um sistema em que 1% da população concentra mais riquezas do que todo o resto. Isso não pode ser encarado como algo que deu certo.
Enquanto nos distraímos tentando nos aproximar dos exemplos propagandísticos de sucesso, fechamos os olhos para a grande maioria que jamais terá o mínimo.
Há os que não se incomodam com o ritmo alucinante de trabalho que rouba um pai da família, a mãe dos filhos, que congestiona as cidades, que separa as pessoas, que provoca doenças emocionais. Esses encaram o fato de que a educação, a fé e a política se transformaram em “mercados” disputando nichos com avidez, em muitos casos sem nenhuma ética, como um fenômeno absolutamente aceitável. Tudo ganhou preço, tudo virou mercado e perdeu o valor.
Talvez nossa maior dificuldade em virar o jogo seja a crença de que nada podemos fazer. Esse mesmo sistema nos convence de que somos impotentes, de que o preço do progresso é a desigualdade e tudo o que nos cabe é lutar, lutar muito, para quem sabe um dia encontrarmos lugar nos vagões da frente caso não queiramos a mesma morte dos que ficaram para trás.
Fomos convencidos de que não há escolhas, ou aderimos, ou morreremos com nossas “ideologias utópicas”.
Não estou aqui para propor novos sistemas. Não acredito que simplesmente mudar um “ismo” por outro seja suficiente para que haja justiça. Pessoalmente só vejo um caminho: O movimento individual que promove revoluções em seus micro sistemas.
Em cada mente que desperta há a implosão de um sistema. Quem vê sai da bolha e passa a se relacionar com ela a partir de outra perspectiva. Não estou dizendo que esse indivíduo necessariamente impactará o todo, mas o que é o todo se não a somatória dos indivíduos?  Se cada um de nós se propuser a repensar o estilo de vida, incluindo nossas prioridades, nossos sonhos, nossos valores, seremos agentes subversivos onde quer que estejamos. E tanto faz se a maioria não se importar. Eu me importo e viverei conforme minha consciência.
Acredito que o maior mal dos nossos sistemas, sejam eles quais forem, é a inibição do pensamento. Melhor sentir do que pensar, melhor correr do que parar e enxergar, melhor entrar no fluxo frenético da maioria imbecilizada, do que questionar sobre o que estamos fazendo com nossa própria vida. O resultado disso é a gigantesca desigualdade e nossa incrível passividade zumbificada diante dela.
Proponho a revolução! Não as que usam armas, nem as panfletarias com seus discursos cheios de amargura, proponho que nossa insatisfação seja alavanca de um reposicionamento de vida. Proponho que deixemos de esperar tanto dos outros, dos governos, dos empregadores, do Batman, do Obama ou de Deus e façamos o que dá em nossos mundinhos. Há muito a fazer em seu mundo!
A revolução que proponho se concretiza sempre que um indivíduo inverte a lógica do sistema em si, e reflete naturalmente o novo olhar para o todo. Se nossa escolha é viver dentro do sistema não precisamos permitir que o sistema viva em nós.
Até onde isso pode nos levar não faço a mínima ideia, mas sempre que vejo o mundo como está, o que me consola é a esperança de que pequenos movimentos subversivos são possíveis; mentes que não viam agora veem, gente resignada agora pensa, mundos encurralados por tanta pressão encontram um caminho que antes de tudo seja reflexo de outro olhar.
Não é o mundo que precisa mudar, é o nosso olhar. Quando isso acontece, o mundo, sem escolha, simplesmente acompanha. Se isso deve começar por alguém, por que não pode ser com a gente?

terça-feira, 14 de julho de 2020

Efeito Borboleta - Você acredita em destino ou no acaso?


Efeito Borboleta


Você acredita em destino?

Acredita no acaso governando sua vida?

Leis mecânicas baseadas na lei de causa/efeito controlam todos os acontecimentos?

Determinismo e Acaso...

Em quaisquer ciências, sabemos todos que pequenas variações nas condições iniciais de um sistema ou problema descrito por equações não-lineares podem ter resultados completamente distintos e inesperados com o passar do tempo. 
Ocorre que na natureza, praticamente todos os fenômenos são não-lineares!
E mais do que isso: não há como determinarmos as condições iniciais de um problema/sistema!!
Consequentemente, embora conheçamos algumas "leis", o universo sempre terá um considerável componente de imprevisibilidade.
Noutras palavras: todas as nossas melhores equações matemáticas e modelos físicos, de fato são maquetes mais ou menos incompletas que tentam antever e controlar o comportamento dos fenômenos no universo que nos cerca. 

Mas o que tudo isso tem a ver com nosso destino?

Falemos um pouquinho do Efeito Borboleta...*

Você provavelmente já ouviu falar ou assistiu ao filme "Efeito Borboleta"... A ideia de que uma pequena ação agora pode desencadear grandes consequências, às vezes imprevisíveis, a médio e longo prazo...
Essa "ideia" de "imprevisibilidade dos acontecimentos" nasceu na própria Ciência. 

Deste modo, justamente devido ao fato de desconhecermos todas as variáveis que influenciam em um dado acontecimento, o “Efeito Borboleta” pode ser enunciado afirmando que "pequenas oscilações nas condições iniciais de um problema podem causar efeitos completamente inesperados, divergentes ou imprevisíveis em um futuro" (próximo ou distante).

Vejam o simples exemplo das previsões meteorológicas... 
A quantidade de erros nessas previsões costuma ser enorme. E tais erros de previsão serão proporcionalmente mais numerosos quanto mais distante no tempo e no espaço estiver a dita "previsão" do nosso meteorologista.

Filosoficamente, podemos dizer que a Teoria do Caos Determinístico nos ensina que o Universo é "naturalmente imprevisível". Ou seja: os fenômenos não-lineares são a regra na natureza.

Assim, parafraseando o matemático E. Lorenz, "se uma borboleta batesse as asas na China, e o pequeno deslocamento de ar provocado pelo seu movimento, somado a outros fatores igualmente desconhecidos ou não mensuráveis, mudasse as condições iniciais de um sistema climático, pode ser que acabasse desencadeando uma tempestade do outro lado do planeta".

Impressionante pensar nos possíveis desdobramentos desse efeito! 

Isso quer dizer que o universo é caótico e o caos governa tudo?


Claro que não!
O fato de desconhecermos todas as variáveis de um sistema, não nos habilita a inferir como regra, que o universo é caótico (como a princípio poderia sugerir a expressão 'Teoria do Caos').

De fato, o que ocorre é que nossas melhores equações não nos dão um quadro completo da realidade. Noutras palavras, nossas equações e aparelhos de medição não dão conta de abarcar toda a gama de forças e condições ambientais que interagem simultaneamente, nem tampouco de avaliar a real relevância de cada uma delas no 'resultado final'. 
Em síntese: nossas melhores equações físicas e matemáticas, sim, estão incompletas.

Evidente que nossa ignorância não pode (não deveria) servir para ratificar quaisquer hipóteses filosóficas, por mais fascinantes que nos parecessem!  

Recapitulando: já sabemos que as equações lineares que estudamos na escola são 'modelos aproximados' nos quais os termos não-lineares são desprezados por serem considerados 'insignificantes' ou 'incomensuráveis' (dentro de certo contexto espaçotemporal). E é fato também que, graças a tais simplificações, podemos usufruir dos avanços tecnológicos disponíveis em nosso dia a dia...  

Então, o fato de existirem 'termos não-lineares' desconhecidos (e, portanto, desconsiderados) está a nos dizer o quê exatamente? 
...Que as teorias científicas aceitas, por mais elegantes ou complexas, não nos fornecem uma descrição realmente objetiva (nem mesmo aproximada) da realidade! 
Desapontado?
Não fique.
As equações dos físicos, dos químicos, dos matemáticos e dos biológicos são lindas, elegantes e funcionais, mas não são absolutamente exatas. 
Nossa técnica é sim uma ferramenta útil, nossos instrumentos são funcionais (dentro de certos limites), mas isso não quer dizer que a Ciência humana seja "uma descrição fidedigna da realidade", como sonhavam os positivistas.

Apesar de todos os benefícios que colhemos dos avanços científicos, estamos tão próximos de compreender a razão e os porquês do nosso universo, quanto estavam os cientistas e filósofos gregos de 2500 anos atrás.

Então, quando usamos expressões como "caos" e "acaso", estamos falando das aparências (não sobre como as coisas são em si mesmas)...

Quando falamos em "acaso" e "caos", estamos falando muito mais sobre o tamanho de nossa ignorância, do que sobre como as coisas realmente são.

Palavras, rótulos, criados para encobrir as lacunas de nosso desconhecimento das leis universais, de como o universo é e como funciona realmente. 

Se tão pouco sabemos do mundo visível, o que diremos daquele que nos é invisível...

Tal constatação não impede que a ciência nos seja útil, como já vimos.

E o tal do livre-arbítrio? 

Estamos sujeitos ao caos ou a leis determinísticas?

O efeito borboleta nos lembra que leis mecânicas determinísticas, enunciadas pelo ser humano, também têm seus 'limites'.

Ademais, além de sabermos quase nada sobre nosso mundo físico, precisamos considerar a muito provável hipótese de que nosso mundo (tridimensional) não seja o único a ser considerado em nossas equações e fórmulas...


Então, pensemos nisso: O que seria de nossa 'vontade livre', da liberdade, se considerássemos cada mínimo movimento universal (do micro ao macro), submetidos às inexoráveis leis mecânicas naturais? 

Então, se tudo estivesse submetido a tais leis mecânicas absolutas, onipresentes e onipotentes, então nossa consciência, junto com nossos pensamentos, emoções e volições, seriam todos pálidos reflexos delas, nada mais... por exemplos, uma Nona Sinfonia de Beethoven, toda a nossa poesia, ciência e ideais, não passariam de mero resultado mecânico da ação cega de leis impessoais, inconscientes e indiferentes. 

Nada, nenhuma ação ou sentimento teria valor real, enquanto manifestação livre e consciente do 'espírito humano'. Até nosso destino, de igual modo, já estaria traçado/determinado desde o misterioso e mítico 'Big Bang'...

Mais algumas perguntas intrigantes:

- Há algo na dimensão humana que transcende, em algum momento, as leis mecânicas naturais mais elementares? Se sim, é possível descrevê-la?
- Como (com qual base ou fundamento), de fato, fazemos nossas escolhas?
- Todas as nossas decisões podem ser explicadas em termos de reações eletrofisicoquímicas de nossos cérebros?
- Quem/o quê nos impulsiona a agir, a nos omitir, a matar ou a nos matar? 
- Qual a fonte de nossa rebeldia interior, de nossa insatisfação existencial?
- O que/quem, de fato, nos impulsiona à transcendência?
São questões filosóficas ainda abertas, para que cada um busque respondê-las... Para a Filosofia, ainda tem a mais profunda de todas as questões básicas: o porquê. Por que tudo isso, afinal? Por que o universo existe e nós nele? Qual a razão?

As respostas não estão prontas...
se as perguntas não são fáceis, não serão fáceis as respostas.

1. Se presumirmos que somos resultantes da mera ação de leis mecânicas (portanto, vítimas, não do 'acaso' como crêem alguns, mas de leis onipotentes e onipresentes), então, isso resultaria em que todas as nossas ações do passado e do presente, incluindo pensamentos e vontades, não estariam de fato sob nosso real controle. Livre-arbítrio seria, como algumas pesquisas neurológicas sugerem, uma ilusão criada pela área cerebral responsável pela nossa consciência'.

Bom lembrar que tal conclusão poria em xeque a legitimidade de qualquer debate na área da ética, já que certos comportamentos de ordem moral não poderiam ser exigidos do ser humano, o qual, em última análise, não seria realmente responsáveis pelas decisões que toma).  Assim, se cada um é aquilo que a natureza fez dele, seria igualmente inútil qualquer busca ou esforço por melhorias de ordem moral, seja no plano individual, seja coletivo. 

Além disso, indo às últimas consequências, isso acabaria por eximir o ser humano de qualquer responsabilidade moral ou espiritual por suas ações (já que inexistiria real livre-arbítrio, nossas ações e reações já estariam todas absolutamente determinadas pelas leis mecânicas e amorais).

2. Contudo, se presumirmos, por outro lado, que, apesar dos condicionamentos que regem nosso corpo físico e até mesmo a grande maioria de nossas reações psicológicas básicas, somos algo com potencial para transcender tais condicionamentos, então podemos deduzir que somos responsáveis por nossas reações e, portanto, por tudo (ou quase tudo) que começa a acontecer graças a essas nossas reações cotidianas. Seríamos então plenamente responsáveis pela nossa vida, seja ela dolorosa ou não, trágica ou afortunada.

Neste caso, teríamos que reconhecer que cada um de nós é o real causador de seus próprios infortúnios. Mas... somos capazes de assumirmos essa dimensão de responsabilidade?
Ou preferimos enxergar nosso 'destino insondável' como algo determinado por algum ente metafísico? 
Tem até uma versão ateísta para esse ponto de vista: basta substituir o rótulo "deus" pelo rótulo "leis universais da física".

Você pode ser um teísta covarde, que vive justificando seus infortúnios (ou os de outras pessoas), baseando-se em contos míticos, ou pode ser um cínico ateu, que vive reduzindo tudo a leis mecânicas que tampouco conhece de fato... Tanto faz, se não vai mesmo assumir a responsabilidade.

Quando penso em 'efeito borboleta', me vem à mente a hipótese científica de que não sabemos quase nada do que está acontecendo a um palmo de nosso nariz... Consequentemente, não sabemos o que vai acontecer, nem daqui a cinco minutos, muito menos daqui a cinco semanas ou cinco meses ou...

É claro que alguns resultados são de certo modo previsíveis (se bebo álcool e saio dirigindo um veículo, os resultados são previsíveis). Por outro lado, contudo, como desconhecemos o real alcance de nossas atitudes, omissões, palavras, pensamentos, hábitos e costumes (tanto a médio como a longo prazo), então, prepare-se para muitas surpresas em sua vida!!

Há uma tese dentro da Ciência Cognitiva e da Neurologia que afirma que não sabemos, efetiva e absolutamente, o que está acontecendo, nem mesmo nesse exato instante, já que nossos sentidos são limitados e nosso cérebro tem acesso a uma gama bastante diminuta do total de dados disponíveis no ambiente que nos cerca.
Então, no fundo, é como se estivéssemos sonhando... e quase nada notando a respeito do que realmente está acontecendo ao nosso redor...
Penso que toda o nosso esforço deva ser, primeiramente, no sentido de 'despertar'. Uma vez 'acordados', tudo tornar-se-á mais claro e autoexplicativo. O sentido do que nos inquieta ou aborrece nos será autoevidente (além da crença e da racionalização).
Dormindo como estamos, alheios ao que sucede ao redor ou dentro de nós, ficamos de fato a mercê... como gravetos de madeira a deriva da correnteza.

O "efeito borboleta" citado anteriormente, assim, mostra-se como uma evidência que contradiz a ideia de um destino predeterminado imutável, ao mesmo tempo que não nega a existência de leis naturais onipresentes. 
Você pode sim mudar o rumo dos acontecimentos, mesmo não fazendo a menor ideia do que está acontecendo agora (dentro ou fora de você). Se essas mudanças serão eficazes e farão alguma diferença significativa mais adiante, vai depender de inúmeros fatores que talvez não estejam totalmente sob nosso controle: intensidade, frequência e duração das intenções e das ações divergentes que você empreender.

O destino se mostra como uma obra escrita a várias mãos, por vários co-autores, dirigida por vários diretores e contracenada por vários protagonistas, com finais ainda imprevisíveis, mas aparentemente influenciáveis.



silvio m.max.











* Efeito Borboleta: expressão utilizada na Teoria do Caos para referir a importância das condições iniciais de um sistema abeerto. Foi detectado e descrito pelo matemático estadunidense E. Lorenz quando trabalhava em um sistema de equações diferenciais com o objetivo de modelar a evolução do tempo (clima).