quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Ego e julgamento - diálogo do filme "Mestre das Armas"


 Sensei Tanaka -

      "Esse chá é muito bom, sabe alguma coisa sobre chá?"
    
Shifu Huo Yanja
      "Gosto de chá, mas não procuro saber porque não gosto de diferenças... chá é chá"
 
    Sensei Tanaka -
      "São diferentes com características e notas diferentes"
 
    Shifu Huo Yanja
     "E pra que servem estas notas? as ervas dos chás crescem na natureza e não tem muitas diferenças" 
 
    Sensei Tanaka -
      " Se aprender sobre chá, você poderá julgar sobre essas diferenças"
 
     Shifu Huo Yanja
      "Talvez esteja certo, mas pelo que eu sei o chá não julga a si mesmo, são as pessoas que julgam o chás como julgam tudo que existe, fazem isso o tempo todo, mas eu não quero fazer isso"
 
    Sensei Tanaka -
      "Não?! mas por que?"
 
    Shifu Huo Yanja
      " Quando se está de bom humor, se sentindo feliz, a nota do chá não importa!"
 
    Sensei Tanaka -
      "Hum... Interessante! você tem razão... eu nunca havia pensado por este lado"
      "Na sua opinião um estilo de Wu shu pode ser melhor que o outro?"
 
    Shifu Huo Yanja
      " Eu penso que não!"
 
Sensei Tanaka -
      " Eu não entendo, nenhum melhor que o outro?... então por que temos tantas competições, por que competimos tanto?"
 
 Shifu Huo Yanja
 " Acredito que nenhum estilo é melhor que o outro em nenhum sentido; são os níveis de treinamento que variam"
 " As competições revelam nossas fraquezas e inflam o ego..."
  "nossos verdadeiros inimigos somos nós mesmos"
   
 Sensei Tanaka -
      "São palavras poderosas e muito sábias, muito obrigado"

diálogo extraído do filme "Mestre das armas" com Jet Lee


 
 
 

Sua Versão - Flávio Siqueira

Mais um excelente texto para reflexão de autoria de Flávio Siqueira, abordando de modo 'cortante', nossa mania de acreditar que nosso paradigma é melhor que o paradigma do outro... 

Nossa visão de mundo, nossa filosofia, nossa ideologia... o quanto tudo isso de fato nos aproxima da realidade, da verdade mais pura sobre qualquer coisa?

No fundo, o que vemos, senão um fragmento da paisagem, pelo "buraquinho de uma fechadura"?

 

Sua Versão

Flávio Siqueira

Você só conhece uma versão. Olha por uma única fresta e pensa que viu tudo. Sente-se seguro por acreditar que sabe. Pensar que sabe lhe deixa seguro.

A ciência pensa que sabe, a filosofia imagina ter chegado a algum lugar, a teologia orgulha-se sem saber que não sabe.

Nada é exatamente como percebemos. A vida está em movimento, toda perspectiva fixa é reducionista.
Você só vê pela fechadura, não sabe quase nada, portanto seja humilde. Esse é o primeiro e mais básico sinal de sabedoria. Ainda há muito para aprender. Felizmente

Seus olhos

Você é um jeito de ver. Suas verdades, certezas, os cenários que conhece, tudo reflete você.
A mesma crença pode ser compartilhada por milhões de pessoas, mas haverá nuances, colorações absolutamente vinculadas às percepções de quem vê.
Podemos chamar pelos mesmos nomes, mas serão apenas "nomes".
O mundo de fora reflete o de dentro e o de dentro se projeta no de fora, de modo que dificilmente sabemos quando é "o mundo" ou quando "sou eu".

Sua mente é o lugar de onde você observa a vida, portanto seu olhar denuncia onde você está. Ninguém vê exatamente como você. Ninguém é exatamente como você. Esse lugar é só seu. Você é seu olhar. Como sente, como escolhe, como pensa, com se movimenta na história, a sua história.

Quase não vemos

Só enxergamos a superfície. Quase não vemos a conexão entre acontecimentos, o quanto se vinculam, complementando-se, provocando desencadeamentos de situações que jamais teremos acesso. Por isso é melhor não ter pressa em julgar nada. Cada evento carrega bilhões de possibilidades. Nós, com nossa mente condicionada, só percebemos uma, duas, três no máximo.

Caixas

Caixas são nossas tentativas de lidar com o que tememos ou desconhecemos, com o que é maior do que elas, com o que é selvagem, como tudo o que é.
Tigres nas jaulas, amor em caixas. Leões nos zoológico, Deus na teologia.
Enquanto mantemos pássaros em gaiolas, acreditamos que a espiritualidade cabe em religiões.

São nossas regras, nossos códigos, nossa moral, nossos preconceitos se tornando maiores do que as pessoas, sobrecarregando-as, fazendo com que pensem que a liberdade é uma utopia, um erro. Engano: a liberdade é a essência do ser e por mais que as caixas nos protejam chegará o momento em que precisaremos sair delas.

Há milhares de anos filósofos, religiosos e cientistas tentam responder qual o sentido da vida. Há muitas explicações, muitas tentativas, mas nunca haverá contundência definitiva enquanto a pretensão for encontrar uma resposta absoluta, que se encaixe para todos. O sentido é pessoal. Reflexo da somatória de significados cotidianos que se projetam no caminho. Para mim o sentido da vida agora é escrever esse bilhete para você. Depois? Depois descobrirei. Acho que todo sentido da existência se projeta no agora, no lugar onde vivo, no olhar que sou.





Sri Aurobindo - A Vontade Transcendental


 Interessante vídeo do canal "Corvo Seco", produzido a partir dos profundos ensinamentos sobre autoconhecimento, sob a ótica de Sri Aurobindo, grande estudioso e praticante do Yoga/Vedanta.

Vale a pena assistir... e meditar...

 

 

Trechos do livro “Sri Aurobindo's Teaching & Method of Practice”. 

Aurobindo Akroyd Ghosh, Ghose, ou Sri Aurobindo (1872 - 1950) foi um filósofo, poeta, yogue e grande mestre espiritual indiano. Essencialmente, Aurobindo ensina o mesmo que os antigos sábios da Índia: que por detrás das aparências do universo existe a Realidade, a base da vida de todas as coisas, o único e eterno, e que para enxergar essa Verdade, um novo princípio de consciência deve emergir da mente ordinária, a Supramente. 

Sua profunda compreensão emergiu devido as suas próprias práticas espirituais, para as quais ele encontrou vívidas descrições alegóricas nos Vedas. 

Assim, Aurobindo formulou os princípios de um “Yoga Integral”, unificando os princípios das diversas linhas em um todo harmônico e coerente. 

 

 

“Nosso primeiro paradoxo é que o mundo inteiro anseia por liberdade, mas cada criatura está apaixonada por suas correntes”. 

Sri Aurobindo. 

 

“A paz é a primeira condição, a base sem a qual nada mais pode ser estável. Quando a mente está quieta, a verdade tem a chance de ser ouvida na pureza do silêncio”. 

Sri Aurobindo. 

 

“O princípio do verdadeiro ensino é que nada pode ser ensinado”. 

Sri Aurobindo.

 

 

 

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Ensinamentos de Sri Aurobindo: https://amzn.to/3hJXIEN 

Sri Aurobindo ou a Aventura da Consciência: https://amzn.to/3fakoMK 

 


quinta-feira, 1 de julho de 2021

O Julgamento e a observação na meditação - Osho


sugestão de leitura
Não julgue, porque no momento em que começar a julgar você esquecerá de observar. E isso acontece porque no momento em que começa a julgar — “Esse pensamento é bom” — justamente nesse espaço de tempo você não estará observando. Você começou a pensar, envolveu-se. Não conseguiu permanecer alheio, parado à margem da estrada, só observando o tráfego.

Não se torne um participante avaliando, julgando, condenando; nenhuma atitude deve ser tomada a respeito do que está se passando na sua mente. Você precisa observar os seus pensamentos como se fossem nuvens passando no céu. Você não faz julgamentos sobre as nuvens — essa nuvem negra é ruim e essa nuvem branca parece um sábio. Nuvens são nuvens, elas não são nem boas nem ruins.

O mesmo acontece com os pensamentos — são meras ondinhas passando na sua mente. Observe-os sem julgá-los e você terá uma grande surpresa. Quando a sua observação se tornar constante, os pensamentos passarão a ficar cada vez mais esparsos. A proporção é exatamente a mesma; se você estiver com 50% da atenção na observação, então 50% dos seus pensamentos vão deixar de existir. Se estiver com 60% da atenção, então só restarão 40% dos pensamentos. Quando você for 99% pura testemunha, só de vez em quando surgirá um pensamento solitário — 1 % passando na estrada, não haverá mais tráfego nenhum. Esse tráfego da hora do rush não existirá mais.

Quando você deixar de lado 100% dos julgamentos, passará a ser apenas uma testemunha; isso significa que você se tornou simplesmente um espelho — porque o espelho nunca faz nenhum julgamento. Uma mulher feia mira-se no espelho e ele não faz nenhum julgamento. Uma mulher bonita mira-se no espelho e não faz nenhuma diferença. Quando não há ninguém diante dele, o espelho tem a mesma pureza de quando há alguém sendo refletido em sua superfície. Nem o reflexo o afeta nem o não-reflexo.

O testemunhar se torna um espelho. Essa é a maior conquista da meditação. Se consegui-la, você já estará na metade do caminho, pois trata-se da parte mais difícil. Agora você sabe o segredo, e o mesmo segredo tem simplesmente de ser aplicado em outros objetos.

Dos pensamentos você precisa passar para experiências mais sutis ligadas às emoções, aos sentimentos, aos estados de espírito. Da mente para o coração, nas mesmas condições: nenhum julgamento, só testemunho. E, surpresa, a maioria das suas emoções, sentimentos e estados de espírito começarão a se dissipar. Agora, quando está sentindo tristeza, você está realmente triste, está tomado de tristeza. Quando está com raiva, ela não é parcial. Você fica cheio de raiva; cada fibra do seu ser vibra de raiva.

Observando o coração, a impressão que se tem é que agora nada mais pode possuir você. A tristeza vem e vai embora, você não fica triste; a felicidade vem e vai embora, você também não fica feliz. Seja o que for que se passe nas camadas mais profundas do coração, isso não afeta você. Pela primeira vez você tem uma amostra do que seja maestria. Não é mais um escravo à mercê da vontade alheia; nenhuma emoção, nenhum sentimento, ninguém pode mais perturbá-lo com ninharias.
Osho, em "Saúde Emocional: Transforme o Medo, a Raiva e o Ciúme em Energia Criativa"

domingo, 27 de junho de 2021

Só se pode chegar em casa sozinho - Osho

Na sociedade, existe uma profunda expectativa de que você se comporte exatamente como todos os demais. No momento em que se comporta de forma um pouco diferente, você passa a ser um sujeito estranho, e as pessoas têm muito medo de estranhos.

É por isso que, em qualquer lugar, se há duas pessoas no ônibus, no trem ou paradas no ponto de ônibus, elas não podem ficar sentadas em silêncio — porque em silêncio elas são dois estranhos. Elas começam imediatamente a se apresentar uma a outra — “Quem é você? Para onde está indo? O que você faz, qual é a sua profissão?” Mais um pouco...e elas sossegam; você é outro ser humano sendo exatamente como eles.

As pessoas sempre querem participar de um grupo ao qual se ajustem. No instante em que você se comporta de um jeito um pouco diferente, o grupo todo fica desconfiado; alguma coisa está errada.

Eles conhecem você, podem ver a mudança. Eles o conheciam quando você nunca se aceitava, e agora eles vêem de repente que você se aceita...

Nesta sociedade, ninguém aceita a si mesmo. Todo mundo se condena. Esse é o estilo de vida da sociedade: condenar-se. E, se você não está se condenando, se está se aceitando do jeito que é, você tem que se afastar da sociedade.
 
E a sociedade não tolera ninguém que saiu do rebanho, porque ela vive de números; é uma política de números. Quando há muitos números, as pessoas se sentem bem. Números grandes fazem com que as pessoas sintam que tem de estar certas - elas não podem estar erradas, milhões de pessoas estão com elas. E, quando ficam sozinhas, grandes dúvidas começam a vir à tona: Ninguém está comigo. O que garante que estou certo?

É por isso que eu digo que, neste mundo, ser um indivíduo é o maior sinal de coragem.

Para ser um indivíduo, é preciso o mais destemido dos treinamentos: “Não importa que o mundo inteiro esteja contra mim. O que importa é que a minha experiência é válida. Eu não me importo com os números, com quantas pessoas estão comigo. Eu me importo com a validade da minha experiência — se estou simplesmente repetindo as palavras de outra pessoa, como um papagaio, ou se a fonte das minhas afirmações é a minha própria experiência. Se é a minha própria experiência, se isso é parte do meu sangue, dos meus ossos, do meu âmago, então o mundo inteiro pode pensar de outro jeito; ainda assim, eu estou certo e eles estão errados. Não importa, não preciso da aprovação deles para sentir que estou certo. Só aqueles que defendem as opiniões de outras pessoas precisam do apoio dos outros.”

Mas é assim que a sociedade humana tem sido até agora. É assim que ela mantém você no rebanho. Se os outros estão tristes, você tem que ficar triste; se sofrem, você tem que sofrer. O que quer que eles sejam, você tem que ser também. Não se permitem diferenças, porque as diferenças acabam levando para o indivíduo, para o único, e a sociedade tem muito medo do indivíduo e da unicidade. Isso significa que alguém ficou independente do grupo, que essa pessoa não dá a mínima para o grupo. Seus deuses, seus templos, seus padres, suas escrituras, tudo ficou sem sentido para ela.

Agora ela tem seu próprio ser e seu próprio jeito, seu próprio estilo — de viver, morrer, celebrar, cantar, dançar. Ela chegou em casa.

E ninguém pode chegar em casa junto com a multidão. Só se pode chegar em casa sozinho.


Osho, em "Coragem: O Prazer de Viver Perigosamente"
Publicado originalmente no blog palavras de Osho
para mais textos do mesmo autor, sugiro o link http://www.osho.com/pt