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sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

o lado material e o lado espiritual da vida - parte II

 

vida material ou vida espiritual – II


Vivemos em um mundo e estamos a todo tempo diante do dilema: vida espiritual e vida material... Qual dessas vidas realmente pode nos trazer paz e felicidade?

A matéria ou o espírito? Qual deve ser nossa prioridade? 

Salvar a alma? O que significa ter "alma"? Nós temos uma alma?

Alguém pode ser feliz psicologicamente ou ter paz espiritual se estiver com alguma dor terrível no corpo ou sentindo fome ou com sede?

Com o quê vale a pena realmente se preocupar?

E, afinal, por que é importante se questionar sobre isso?

 

Porque aquilo em que você acredita (o paradigma que você aceita como explicação do mundo), pode moldar e alterar seu julgamento, seu comportamento e a própria forma como você experimenta/vivencia aquilo que você chama de realidade. 

O mundo, a realidade, é aquilo que você percebe como sendo o mundo, a realidade.

Tudo, absolutamente tudo, está na dependência da sua percepção. O que o permeia, tanto o que está aparentemente "fora", como o que parece estar "dentro", tudo depende do que você percebe... e só você experimenta o mundo do modo como você experimenta (seja essa experiência repleta de sofrimento, seja de felicidade).

Talvez o mais comum seja a pessoa acreditar que vive em um mundo real e objetivo, portanto, idêntico para todos os outros. Pouquíssimos se questionam a esse respeito.

Assim, do mesmo modo, poucas pessoas questionam sua própria visão de mundo. Nossa "visão de mundo", contudo, é nossa própria forma particular de enxergar (interpretar) as coisas, e os acontecimentos.

Acontece que é a “visão de mundo” que sempre se sobrepõe àquilo que todos entendem como sendo a “realidade objetiva"... 

Ou seja:  o mundo é como eu vejo"... e se alguém vê diferente de mim, provavelmente está enganado, pois como é que o mundo poderia ser diferente do modo como eu vejo?...”

Só que geralmente nos esquecemos que o mundo que nossos sentidos captam (primeiro filtro), é quase instantaneamente decodificado pelo cérebro (segundo filtro), para, logo em seguida, ser submetido à interpretação de nossa mente individual (terceiro filtro), incluído aí todos os moldes e recortes culturais, linguísticos e semânticos de nossos paradigmas.

Assim é que, aquilo que eu chamo de “realidade”, de fato é um produto específico e subjetivo, fabricado por mim mesmo, pelo meu modo muito particular de interpretar aquilo que eu acredito que está acontecendo ao meu redor e simultaneamente, dentro de mim... 

De fato, aquilo que julgamos ser o "mundo físico" (real e concreto), não passa de uma 'criação' de nosso próprio conjunto mente-cérebro*. Se a Física já sabe que a maior parte do espaço é absolutamente vazio, se já se sabe que a quantidade de matéria existente em um átomo é tão pequena que é quase "inexistente", seria importante pararmos por um instante para refletirmos sobre qual é a real diferença entre o "mundo físico", em oposição àquilo que comumente chamamos "mundo não físico".

A Física Quântica tem demonstrado que aquilo que nos dá a aparência de materialidade, a aparente solidez e "realidade" das coisas, é de fato, apenas "campos de energia", "padrões vibratórios". O modo como tais campos são 'percebidos' por nossos cérebros é que nos dá a sensação de materialidade e aparente densidade das coisas do mundo dito "exterior".

A Ciência ortodoxa, assim como os místicos, já sabem que tudo que percebemos como "externo" a nós, na verdade é fabricado "dentro" de nosso corpo, no âmbito do cérebro-mente*.

Idêntico processo acontece a cada momento dentro de cada pessoa, sem que possamos, é claro, garantir, qualquer similitude ou igualdade entre como cada um "capta" e interpreta as impressões/sensações que percebe...

É nesse ponto que as coisas realmente ficam confusas, pois se aquilo que acredito ser a “realidade”, não passa de uma projeção criada/fabricada pela minha consciência condicionada, vale dizer, fabricada pela mente e pelo corpo, então como seria possível distinguir entre mundo exterior e mundo interior, entre vida material e vida espiritual?

Se nosso paradigma é dualista, será óbvio pensar/imaginar o mundo por intermédio de dualidades, por pares de opostos definidos e quase sempre irreconciliáveis e inconfundíveis: 

"mundo material e mundo imaterial/espiritual", 

"intelecto/racional versus emoção/irracional", 

"corpo versus alma/espírito", 

"sujeito versus objeto", 

"mundo interior e mundo exterior",

"mundo das aparências (fenômenos) e mundo verdadeiro (essências)... 

 

Tais pares de opostos inspiraram dezenas de correntes filosóficas, místicas e artísticas, pelo menos ao longo dos últimos 2.500 anos de história.

No final das contas, não é necessário discutir sobre a realidade das coisas, já que sequer sabemos diferenciar mundo real e mundo irreal.

A única coisa que importa sempre, é como reagimos àquilo que chamamos realidade, seja ela de qual natureza for...

Observe seus sonhos e irá entender o porquê:

Enquanto sonhamos em nossas camas, nossa “experiência” nos diz que estamos vivendo o mundo real. Raras vezes o sonhador dá-se conta de que seu sonho é apenas isso: um sonho, uma criação de sua mente-cérebro.

O sonho é um ótimo exemplo de como uma criação subjetiva de nossa própria mente, pode ser facilmente confundida com a “realidade externa e objetiva”. Para o sonhador, sua vivência é tão real quanto qualquer experiência do estado de vigília (aquela de quando seu corpo físico está "acordado").

Então, o que você pode concluir? Seja a ilusão, seja a realidade, o que importa é como reagimos.

Seja no mundo material, seja no espiritual, seja no aparente exterior, seja no aparente interior... a ilusão está lá!  nós mesmos a criamos, é claro.

Não é que nada exista, além de nós mesmos. Não se pode incorrer nesse erro simplista de interpretação literal. Quando dizemos que o "mundo é ilusório", isso não quer dizer que não exista... Ele, de algum modo existe, sim, é óbvio. Só que não existe do modo como a maioria de nós acredita que exista. Ele é tão efêmero, tão impermanente, tão mutável e transitório, que não podemos nos iludir acreditando que o possuímos, que o detemos, que o podemos agarrar e segurar com nossas mãos... não... não....não...

Mas o fato é que nossa imaginação “cria” a aparência dos objetos, dos entes e dos acontecimentos... e confia que "as coisas/situações são como aparentam ser"... eis a ilusão! 

Sim, nossa capacidade imaginativa mental “cria” as imagens, as ideias e os pensamentos (crenças) sobre tudo, desde os objetos mais ordinários e grosseiros até os mais inefáveis e espirituais...

Não se espante que nossas ideias sobre os objetos mais simples do dia a dia sejam tão equivocadas quanto nossas ideias sobre Deus, sobre o Nirvana, sobre os Céus e sobre os Infernos...

Assim, o mundo (com absolutamente tudo que nele há) é naturalmente efêmero, transitório e passageiro, como tudo que nossa mente/corpo cria. Por trás desse véu, há aquilo que permite que tudo seja, o Ser que não se pode definir, o indizível, a base de sustentação imutável e sem dimensões, sem forma e sem atributos... base esta a qual nossa mente não tem acesso pela experiência empírica...

Ora, a própria mente pensante, em si mesma, também é impermanente... consequentemente, também ela é, de certo modo ilusória... Sua única realidade é aquela que nós atribuímos a ela. Nossos pensamentos, ideias, medos, conceitos, suposições, crenças, etc, tem o valor que nós damos a eles, tem o poder que damos a eles, nada mais, nada menos. Pensamentos, ideias, fantasias, emoções e sentimentos oscilam, surgem e duram, às vezes, alguns dias ou algumas horas, mas o mais comum é que durem alguns minutos ou segundos...  para logo desaparecerem.

Pergunte-se: O quê é que nossos pensamentos, ideias, fantasias, emoções e sentimentos tem a ver com a Verdade imutável?

Responda a essa pergunta e saberá o valor de tudo o que você pensa e imagina incessantemente.

Por isso, não leve seus pensamentos tão a sério... eles não vale a sua energia, a sua atenção, o seu esgotamento e o seu sofrimento.

Pense: se algo muda, deixando de ser aquilo que parecia ser, então isso que muda não é o real/verdadeiro. Busque o que é real, verdadeiro, perene e imutável! Só aquilo que permanece eternamente, É. 

 

Algumas conclusões:

Aquilo que oscila e se transforma, incessantemente, aponta para aquilo que NÃO É.

O bonito, em dado momento, se torna feio...

o jovem envelhece...

o cheiroso torna-se mal-cheiroso...

o prazeiroso torna-se monótono, cansativo e aborrecedor... fonte de dor e sofrimento...

o quente se torna frio...

etc...etc...etc...

Então, qual a realidade de tudo que você experimenta?

O mundo material (que chamamos “exterior”) ou o imaterial (“interior” ou “espiritual”)?

Se ambos mudam constantemente, qual deles é a expressão da Verdade?

Por fim, ambos os aspectos (material e espiritual) se fundem num todo único. O corpo reflete o que se passa na mente... e a mente só espelha o que se passa no corpo.

O que nosso corpo sente depende daquilo que a mente “vê”.

E aquilo que a mente vivencia depende do que o corpo lhe apresenta por meio de sentidos e do seu aparato cerebral.

Então, simplesmente não podemos provar que estamos vivenciando um “mundo exterior” ou um “mundo interior”. 

Nossa percepção e entendimento são tão facilmente enganados, que sequer podemos garantir que neste momento, estamos "acordados".

Então, enquanto não despertamos nossa consciência, indo além do que a mente nos apresenta, continuamos sonhando, seja em um nível, seja noutro.

A matéria em si, é apenas um conceito. Ninguém sabe o que é a matéria, nem a ciência, nem a filosofia... os poetas, pelo menos, admitem que não sabem.

Então, podemos parar de alimentar essa dualidade entre mundo espiritual e mundo material, pois não há absoluta separação entre eles. É verdade que podemos "perceber" difeerentes dimensões, umas mais sutis que outras... mas uma análise intelectual de tudo isso em nada nos ajuda a despertar consciência.

O que desperta consciência é o autoconhecimento. Só o conhecimento absoluto de si mesmo nos permite conhecer o “mundo” e o “Criador do mundo”.

E como despertamos consciência? Parando de acreditar na ilusão projetada pelos pensamentos, conceitos, crenças etc... Indo além do corpo, da mente, do pensamento e do ego. Indo do pensamento para a meditação. Do pensar para o não-pensar... ou seja, meditando.

Em que consiste a meditação? Ao contrário do que muitos pensam, meditação não significa não-ação, inação ou passividade.

Meditar é ver quando estiver vendo, comer quando estiver comendo, andar quando estiver andando, fazer quando estiver fazendo. Só isso.

 

 

para saber mais:

vida material ou vida espiritual – I

https://oficina-de-filosofia.blogspot.com/2018/07/vida-material-e-vida-espiritual.html

 

O que é a matéria?

https://oficina-de-filosofia.blogspot.com/2014/07/o-que-e-materia-o-que-e-voce.html?q=o+que+%C3%A9+a+materia

 

O que é o tempo e o espaço?

https://oficina-de-filosofia.blogspot.com/2020/04/tempo-e-espaco-o-que-sao-eu-e-o-outro-o.html?q=mundo+interior

 

* Os sentidos do corpo não são "portas ou janelas" por meio das quais temos acesso direto ao "mundo exterior"; Nossos sentidos são, objetivamente, tecidos orgânicos dotados de terminações nervosas sensíveis a certo número limitado de ondas e frequências... nossos sentidos captam uma gama pequeníssima de impressões que nos circundam fisicamente... e é com elas que nosso cérebro/mente 'constrói' aquilo que depois chamaremos de 'realidade exterior'... 

Aquilo que a ciência chama de 'impulsos elétricos', 'ondas', 'fótons', 'frequências', são continuamente transformadas, filtradas e depois ainda interpretadas. Tudo aquilo que nosso aparelho físico conseguiu 'perceber', o cérebro/mente vai 'selecionar', segundo critérios de relevância pouco conhecidos. Assim, aquilo de que tomamos ciência (e que portanto consideramos 'real') trata-se de mera "representação interna", psicológica e mental.  

 

domingo, 27 de junho de 2021

Por que o mundo está na ignorância?

Por que o mundo está na ignorância? 


 


Tente responder a essa pergunta sinceramente antes de ver a resposta de Sri Ramana Maharshi (1879-1950), o grande sábio indiano, que segue abaixo.

Porque o mundo está em ignorância?

 

Eis a resposta de Sri Ramana Maharshi:

Pergunta: Porque o mundo está em ignorância?

Sri Ramana Maharshi: Deixe o mundo tomar conta de si mesmo.
Se você é o corpo, então o mundo grosseiro aparece aí.
Se você é o espírito, tudo é apenas espírito.

Procure o ego, e ele desaparece. Se você investiga, a ignorância será descoberta como não-existente. É a mente que sente miséria e escuridão.

Veja o Ser.

Sri Ramana Maharshi, “Abide As The Self”.

 

 

Há tantas coisas nessa resposta curta. Mas o quanto conseguimos ver verdadeiramente de nós mesmos parece ser a chave. “Se você é o corpo, então o mundo grosseiro aparece aí. Se é o espírito, tudo é apenas espírito”. Rearranjando as frases, podemos tentar uma emenda nova: se você é a mente, então sente miséria e escuridão.

Está implícito que não adianta saber porque o mundo está em ignorância. Manter a pergunta lá fora (o mundo, as outras pessoas, o vizinho, o chefe, etc) mantém o “eu” que acreditamos ser intacto, inquestionado, num desvio do problema fundamental. Quem eu sou (que percebe essa ignorância no mundo) é realmente quem eu sou? E que “conhecimento” verdadeiro esse eu pode ter para sustentar isso?

 

Deixe o mundo tomar conta de si mesmo“.

Ele parece dizer: você não sabe nem o que se sucede dentro das crenças que tem de você mesmo, como pode querer saber da ignorância do mundo?

Isso lembra uma outra resposta que Sri Ramana deu a alguém que lhe perguntou sobre o mundo nesses tempos críticos.  

Ele respondeu: “Porque você deveria se preocupar com o futuro? Você nem conhece apropriadamente o presente. Tome conta do presente e o futuro tomará conta de si mesmo.”

Para logo depois emendar: “Como você é, assim também é o mundo“.

Se quisermos usar nossas percepções sobre o mundo para algum tipo de ajuda nessa investigação, talvez uma utilidade seja se perguntar como o mundo reflete quem achamos que somos.  

Qual é a relação que existe entre o-mundo-que-eu-vejo (percebo-entendo-vivo) e o-que-acredito-que-sou?  

Se o mundo da forma que vejo revela quem-eu-acho-que-sou, quem eu acho que eu sou? E vice-versa (como o-que-eu-acho-que-eu-sou molda minha visão de mundo?). 

E depois que encontramos esse quem-eu-acho-que-eu-sou, se formos investigar profundamente, ele continua lá (aqui)?

Este post foi escrito por

Sobre o autor Psicoterapeuta Gestalt e jornalista, Nando Pereira é autor do livro "Para Abraçar a Prática" (240pp, 2019) e coordenador da Mentoria de Meditação, "30 dias para transformar sua prática".

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Tempo e espaço: o que são? - Eu e o outro: o que somos?

 

O objetivo desta reflexão é compreender um pouco mais sobre a natureza da consciência, bem como do tempo e do espaço (fenômenos subjacentes à percepção que temos do mundo).

 

Tempo e espaço são reais e independentes da noção de ego? Eles existem independentes de nossa própria percepção corporal?

 

 

 

O que é "mundo exterior" e "mundo interior"?


Existe um espaço objetivo, além de nossa percepção corporal e mental??

  Existe um tempo e um espaço objetivos, que pudessem existir por si só, situando-se além de nossa experiência subjetiva de percepção?

Noutras palavras: tempo e espaço são realidades que independem do sujeito?

Sem nosso corpo-mente, algo pode ser experimentado? 

E como diferenciaríamos exterior e interior se fôssemos pura consciência, sem corpo/mente que nos permitisse interpretar fenômenos?



Sobre a real natureza do tempo e do espaço

Preliminarmente, façamos uma breve reflexão sobre a natureza do tempo, do espaço e do mundo tridimensional: 

Quase todos nós "experimentamos" (em nosso atual nível de percepção/consciência) um único paradigma, dentre tantos possíveis: o paradigma do mundo físico, condicionado pela 4ª dimensão, que conhecemos como tempo/espaço, sobre a qual temos frequentemente, apenas uma vaga percepção.

Ocorre que nossa "experiência" sensorial nos diz que a realidade material é tridimensional, e que o tempo e o espaço são duas "realidades" objetivas, certo? 

Mas, e se estivermos enganados? E se nossa "realidade" for bem diferente disso que acreditamos que é? E se o tempo e o espaço forem uma ilusão?

Há muitos físicos, filósofos e místicos afirmando que é nossa consciência, em constante movimento que nos dá a sensação ilusória do tempo que passou, e do tempo que ainda virá... Vamos tentar compreender bem isso?

Observe como tudo que chamamos de passado, nada mais é do que um conjunto de "recordações", de memórias subjetivas acumuladas. Estão na mente (subjetiva), e não fora dela. Tais memórias, costumamos chamar de 'ego', ou 'eus psicológicos'. 

E o que chamamos de futuro? Nada além de um conjunto de projeções ou imaginações que poderiam ser facilmente classificadas como alucinações... mais uma  vez, todas elas baseadas em experiências passadas. Isso é fato: embora aparentemente dotados de mente sã, estamos alucinando quase o tempo todo! E o mais incrível: isso acontece tanto de dia, como de noite, enquanto sonhamos ou temos pesadelos.

Geralmente pensamos no tempo como algo objetivo e mensurável, já que aparentemente o experimentamos como "algo que flui" (embora ninguém consiga defini-lo ao certo). 

A essa aparente fluição chamam de passado, presente e futuro. Então criamos um aparelho para "medir objetivamente" o fluir desse tal tempo: o relógio. Esse instrumento certamente tem sua utilidade prática no dia a dia, mas... podemos efetivamente dizer que ele mede objetivamente isso que chamamos "tempo"? 
Nossa vida comum agora está organizada em compromissos que passam a ser "cronometrados", mas poucos reparam que o mover desses ponteiros não evidencia a existência de qualquer tempo concreto, objetivo. Um relógio faz apenas a "medida do movimento", parafraseando o famoso filósofo grego Aristóteles (evidentemente, sem movimento, não é possível se falar em tempo. Se o universo fosse imóvel, não haveria tampouco percepção de tempo)... 

Assim, o relógio não mede tempo objetivo algum, mas apenas tenta traduzir em linguagem humana, a duração ou a frequência do movimento dos corpos ou fenômenos percebidos mentalmente. 
Noutras palavras, tenta medir a frequência com que fenômenos naturais sofrem transformações, ou se repetem, permitindo a comparação e a rotulação destes mesmos fenômenos com outros semelhantes.

Vejam como é fácil perceber a falácia do tempo considerado objetivamente (existente de forma independente de nossa percepção):


quinta-feira, 19 de julho de 2018

vida material e vida espiritual - parte I

O lado material e o lado espiritual da vida - I

No mundo da Verdade (o mundo real) não há dualidade (mas unicidade). 
Porém, a crença ortodoxa comumente ensinada em nossa cultura nos diz: "há um corpo físico e há uma mente", "são substâncias distintas"... a teoria é essa, ainda que a interação entre corpo e mente não seja satisfatoriamente explicada até hoje. 

Há, contudo, outro paradigma: 
Tudo que existe constitui uma unidade, constituída de uma única substância, tudo está conectado, não havendo separação  real entre corpo e mente (vida material e vida espiritual)... 
Pense então nessa divisão como meramente didática, criada para facilitar o aprendizado de 'neófitos' como nós. 

Analisando profundamente, podemos notar que ambos os aspectos se fundem num todo único. Muito facilmente se pode constatar, pela simples observação e experiência pessoal, que um aspecto da vida sempre se reflete no outro tão intrínseca e detalhadamente, que aquelas distinções, antes aceitadas como óbvias, vão se tornando cada vez mais questionáveis e até mesmo obsoletas em muitos casos...

Logo, faço um convite: ousemos por um momento, olhar o ser humano, seu corpo e sua mente, sua psicologia e sua fisiologia, ambos como um todo único!

Sendo mais ousados ainda e dando um passo adiante, pensemos agora a sociedade, o mundo, os animais, os vegetais, o planeta... tudo formando um organismo vivo único, uma unidade complexa.

Assim é que "formamos uma unidade"... em inúmeros sentidos. 

Quando um dos elementos (na aparência distintos, isolados, diferenciados) sofre um desequilíbrio, todo o organismo é afetado de algum modo...  Noutras palavras, todo 'indivíduo', como se fosse uma célula desse grande corpo, é afetado em maior ou menor grau, em maior ou menor intensidade.

Outro exemplo de que a aparente dualidade corpo/mente é de certo modo ilusória, são as doenças psicossomáticas, cujo rol, segundo o CID (código internacional de doenças), aumenta a cada dia. 
Há não muito tempo apenas psicólogos abraçavam a tarefa de estudá-las. Hoje, tais enfermidades fazem parte obrigatória da formação profissional de qualquer médico, neurologista, fisiologista ou psiquiatra. E a cada dia que passa, mais pesquisadores vão desconfiando e constatando que enfermidades antes consideradas como de origem exclusivamente física (meramente 'biológica'), na verdade tem origem (ou ao menos influência) de 'mecanismos psíquicos'.

Outro aspecto interessante que podemos considerar/analisar quando estamos avaliando a distinção entre o mundo interior e o exterior é a questão do sonho. Então, pergunte-se:

Agora mesmo, neste exato momento, você está sonhando ou está acordado?

Ou pergunte-se: Como sabemos que estamos no mundo físico?
Você poderia provar/demonstrar que está vivenciando uma experiência no 'mundo exterior' (estritamente material)?
 
Vejamos: No mundo dos sonhos, não há distinção nítida entre passado, presente e futuro, podemos até nos ver flutuando e voando, atravessando paredes compactas, podemos conversar usando apenas o pensamento, visitar mundos desconhecidos etc...
Mas, mesmo com todas essas diferenças notórias entre um mundo e outro, ainda assim nossa consciência comumente não percebe que se trata de um sonho, de uma vivência onírica em outra dimensão "não física".
Isto é: mesmo com todas essas informações, enquanto dormimos em nossa cama, geralmente não nos damos conta que naquele momento, estamos sonhando, não é mesmo? 
Mesmo isso ocorrendo todos os dias, sem exceção, por que raramente notamos que se trata de um sonho?
A constatação é que nossa consciência segue hipnotizada, dormindo em qualquer dimensão (já que tampouco há separação absoluta entre elas). 
O fato é que não importa se estamos 'experimentando' materialidade ou espiritualidade, se estamos 'sintonizados' com algo 'físico' ou 'energético', simplesmente continuamos sonhando

Por que as pessoas então resistem tanto em aceitar que, agora mesmo, neste exato instante, estão também dormindo profundamente?
Por que achamos que agora, só por estarmos aparentemente manipulando um corpo físico, estaríamos 'acordados'? 
Não é possível que agora mesmo, estejamos vivendo "dentro" de um outro tipo específico de sonho?

Este sonho é o que se denomina "o sonho da consciência".

E ele ocorre rotineiramente, não importa se estamos usando corpo físico, ou se ele está repousando numa cama. Nossa consciência simplesmente segue lá, no mundo dos sonhos, tal qual se estivesse aqui. O fato de não termos lá os mesmos limites corpóreos e morais da dimensão física, dá um outro colorido, é verdade. Mas o sonho continua sendo sonho. O sonho não deixa de ser sonho só porque ele ocorre em outra dimensão (nível de percepção).

Costumamos pensar que somos muito espertos, mas corriqueiramente nos debatemos em dramas e tramas ridículos, projetados por nós mesmos, nos 'mundos internos/externos', oníricos, físicos ou não físicos...
 
Sonhamos (inconscientemente) à noite. Isso não seria um indício de que também sonhamos durante outras hora do dia? 
Mas, iludidos, creiamos estar “acordados”.
 
A maioria continua sonâmbula, sem sequer perceber que 'ainda dorme'... 

E quando alguém ou a Vida (o carma) vem e nos chacoalha, gritando “ACORDE!!”, ainda resmungamos, damos de ombros e viramos de lado na cama...  parece ainda não nos fartamos de tanto 'dormir'.
Além disso, aquilo que julgamos ser o "mundo físico" (tão real e concreto), não passa de uma 'criação' de nossos próprios cérebros.

E os cinco sentidos? não são "portas ou janelas" por meio das quais temos acesso direto ao "mundo exterior"; de fato, nossos sentidos são tecidos orgânicos dotados de terminações nervosas sensíveis a certo número limitado de ondas e frequências... nossos sentidos captam uma gama pequeníssima de impressões ... e é com elas que nosso cérebro/mente 'constrói' aquilo que depois chamaremos de 'realidade'... 
Aquilo que a ciência chama de 'impulsos elétricos', 'ondas', 'fótons', 'frequências', são continuamente transformadas, filtradas e depois ainda interpretadas. 

Tudo aquilo que nosso aparelho físico conseguiu captar, nosso cérebro/mente depois vai selecionar, segundo critérios de relevância completamente desconhecidos. Por fim, aquilo de que tomamos consciência (e que portanto consideramos 'real') não passa de uma mera "representação interna" subjetiva (psicológica, mental), nada mais que isso...
Então, quanto do mundo que "vemos", "ouvimos" e "apalpamos" é realmente como supomos que é?

Então, vamos combinar uma coisa? Vamos parar de fingir que sabemos alguma coisa sobre o mundo. Vamos admitir que não conhecemos a realidade ao nosso redor.
É isso mesmo! Não sabemos... não conhecemos a origem, a causa do que vivemos ou experimentamos no mundo... não sabemos como surgiu e nem onde tudo isso vai dar... só podemos imaginar, deduzir, supor, conjecturar.
Então como saber se estamos indo bem ou mal em algum aspecto de nossa vida? Estar "bem " implica em quê? Ter sucesso ou fracasso em algo, ter muita ou pouca saúde, ter vida longa, isso ou aquilo... Nada disso prova coisa alguma.


Melhor não perder tempo colando rótulos em ninguém... NEM em nós mesmos! Tais etiquetas são como roupas escondendo a nudez de nossa esplêndida ignorância.
 
O reconhecimento de que nada sabemos é o primeiro passo em direção à autêntica sabedoria (Sócrates). 
 
 
continua:

vida material ou vida espiritual – II